O candidato do Avante à Presidência, Augusto Cury, saltou de 2% para 11% das intenções de voto em uma semana, segundo pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (31). É a primeira vez que um candidato da chamada “terceira via” ultrapassa a barreira dos dois dígitos. A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, divulgada no mesmo dia, confirma a tendência: Cury subiu de 1,6% para 7,8%. O crescimento tirou votos tanto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que caiu 2 pontos, quanto do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que caiu 4 pontos. Mas tirou mais de Flávio do que de Lula. E não é por acaso.
Cury se apresenta como “centro moderado”. Diz ter “mente de direita e coração social”. Depois ajustou para “mente capitalista e coração social”. Disse ainda que seu centro “não é aquele centro em cima do muro, mas que constrói o muro”. A frase é a confissão. Mente de direita é mente de direita. O “coração social” é o vernício. O programa de governo é de direita de ponta a ponta.
O banco que mede o pulso
A pesquisa BTG/Nexus merece um esclarecimento. O BTG Pactual é um banco anti-PT. Em fevereiro de 2026, a Frente Livre noticiou que gestores do banco usaram um painel de “Outlook de Grandes Gestores”, mediado pelo dono André Esteves, para atacar Lula. Luís Stuhlberger, da Verde Asset, disse: “Meu coração me diz que as chances da direita ganhar são maiores”. Rogério Xavier, da SPX Capital, disparou: “Como deixam um homem com 81 anos concorrer às eleições? Absurdo!”. A mesma plateia que torce por Donald Trump, que tem 79 anos e sinais visíveis de confusão mental. Para a Faria Lima, a velhice só é problema quando o candidato é de esquerda. O BTG que mede o pulso da eleição é o mesmo que ignora dados e investe com o coração. E o coração bate à direita.
A galeria de aliados
Antes de se filiar ao Avante, Cury conversou com e agradeceu nominalmente a Michel Temer (MDB), presidente que entregou o país à reforma trabalhista e ao teto de gastos; Gilberto Kassab (PSD), presidente do partido de Caiado; Aécio Neves (PSDB), réu no STF; Marcos Pereira (Republicanos), partido de Tarcísio; Renata Abreu e pastor Everaldo (Podemos); Aldo Rebelo (DC); e Marcel Van Hattem (Novo), deputado de extrema direita. Cury disse: “Tive diálogos ricos e inteligentes com todos eles e, como sempre, sigo sendo um colecionador de bons amigos.” A galeria é toda de direita e centro-direita. Não há um único nome de esquerda. O “centro” de Cury é o centro-direita.
Em 2025, Cury publicou vídeo criticando as penas aplicadas pelo STF a réus do 8 de Janeiro. Jair Bolsonaro compartilhou o vídeo. Em entrevista, Cury evitou responder se votou em Bolsonaro em 2018 e 2022. Não disse sim. Não disse não. Esquivou-se. A evasiva é a resposta.
O receituário de Flávio com diploma
As propostas de segurança de Cury são o receituário de Flávio Bolsonaro com diploma de psiquiatra. Defende castração química para crimes sexuais. Propõe redução da maioridade penal para 16 anos ou extinção completa. Quer construir presídios de segurança máxima na Floresta Amazônica com regime disciplinar diferenciado. Drones para vigilância. É a pauta da extrema direita vestida de linguagem clínica.
Na economia, é o mesmo. Defende corte de pelo menos 15 mil cargos comissionados. Redução do número de ministérios. “Cortar na carne” em gastos públicos. Dividir o BNDES em dois. Reforma administrativa com avaliação de desempenho de servidores. Responsabilidade fiscal e auditoria nas contas do governo. Taxar as bets em 52% em vez de tributar grandes fortunas. Capitalismo e empreendedorismo como solução. Não promete “déficit zero”, mas defende ajuste fiscal. É o programa de Zema com capa de livro de autoajuda.
Nas institucionais, Cury propõe fim da vitaliciedade do STF, redução da Corte para 9 membros, fim da reeleição presidencial e mudança para semipresidencialismo. Em sabatina à CBN/Globo/Valor, disse que reavaliaria as penas do 8 de Janeiro. Esquivou-se de dizer se houve tentativa de golpe de Estado. Reavaliar penas de condenados por golpe é o que Flávio Bolsonaro chama de “anistia” com outro nome.
O flanco direito que Flávio perdeu
A narrativa de que Cury é “terceira via” que prejudica igualmente os dois lados é falsa. A BTG/Nexus mostra que Cury tirou 4 pontos de Flávio e 2 de Lula. Tira mais de Flávio porque disputa o mesmo eleitor de direita. O “centro” de Cury é o flanco direito que Flávio Bolsonaro perdeu — o eleitor conservador que se incomoda com o isolamento do candidato do PL, com a falta de coligação, com o vice sem partido, com os 20% menos tempo de TV, com o pai preso, com os R$ 61 milhões do Banco Master, com a hashtag #investiguemfláviobolsonaro.
Cury não rouba votos de Lula. Rouba votos de Flávio. E faz isso se apresentando como o que Flávio não consegue ser: um candidato de direita palatável, sem sobrenome Bolsonaro, sem iCloud vasculhado pela PF, sem áudio pedindo dinheiro a banqueiro preso. É a direita travestida de centro. E o centro, como o próprio Cury disse, não é em cima do muro. É o que constrói o muro.






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