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7 mulheres na política brasileira que mudaram o jogo

Conheça 7 mulheres na política brasileira que enfrentaram o patriarcado, ampliaram direitos e ajudam a explicar as disputas do país hoje no Brasil atual.

7 mulheres na política brasileira que mudaram o jogo

A política institucional brasileira foi desenhada por homens, ricos e brancos – e essa conta continua chegando. Basta olhar para as mesas de negociação, os comandos partidários e os plenários em que mulheres ainda precisam provar competência antes mesmo de abrir a boca. Falar de 7 mulheres na política brasileira não é montar um álbum de heroínas isoladas. É reconhecer trajetórias que furaram o bloqueio patriarcal e mostram por que representação, sem poder real, vira só fotografia de campanha.

A presença feminina cresceu, mas está longe de corresponder à maioria que as mulheres formam na população. Nas eleições, elas enfrentam violência política, financiamento desigual, sabotagem dentro dos próprios partidos e uma máquina de desinformação que costuma sexualizar, ridicularizar ou ameaçar candidatas. A extrema direita deu novo volume a esse esgoto: transforma misoginia em método de mobilização e chama de “mimimi” aquilo que tem nome, causa e vítimas.

7 mulheres na política brasileira que deixaram marca

Bertha Lutz: o voto feminino não caiu do céu

Antes de existir bancada feminina, houve uma batalha elementar: o direito de votar e ser votada. Bertha Lutz foi uma das principais lideranças sufragistas do país e atuou para que o Código Eleitoral de 1932 reconhecesse o voto feminino. Parece assunto de livro escolar, mas a lição permanece incômoda: direito nenhum é presente de elite esclarecida. É conquista de pressão organizada.

Eleita suplente de deputada federal em 1934 e empossada em 1936, Bertha defendeu direitos trabalhistas para mulheres, igualdade salarial e proteção à maternidade. Sua trajetória também expõe os limites de sua época e de seu meio social. Ainda assim, reduzir sua importância seria comprar a velha versão de que o Brasil modernizou seus direitos por mágica. Não modernizou. Mulheres organizaram a luta.

Carlota Pereira de Queirós: uma cadeira aberta na Constituinte

Médica, educadora e paulista, Carlota Pereira de Queirós foi a primeira mulher eleita deputada federal no Brasil, em 1933, para a Assembleia Nacional Constituinte. Em um espaço totalmente dominado por homens, levou para o debate temas ligados à educação e à saúde pública.

Sua eleição não resolveu a sub-representação feminina, evidentemente. Mas abriu uma brecha simbólica e institucional em uma República que tratava a política como propriedade masculina. A brecha importa porque precedentes mudam o imaginário: quando uma mulher ocupa uma cadeira, outras passam a disputar não apenas a entrada, mas as regras da casa.

Luiza Erundina: prefeitura não é camarote de elite

Quando Luiza Erundina venceu a eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 1988, a cidade mais rica do país viu uma assistente social nordestina, migrante e de esquerda chegar ao comando do Executivo municipal. Não era apenas alternância eleitoral. Era um recado de classe, território e gênero para uma elite acostumada a mandar sem ser confrontada.

Sua gestão ficou marcada pela prioridade a periferias, moradia, transporte e participação popular, em um período de reconstrução democrática. Erundina também atravessou décadas sem abandonar a política como serviço público, algo raro em um ambiente tomado por carreirismo e acordões. Sua longevidade ensina que coerência não exige perfeição, mas cobra lado nos momentos decisivos.

Benedita da Silva: quando a favela chega ao poder

Benedita da Silva carrega uma biografia que a estrutura do poder tentou, por muito tempo, manter do lado de fora: mulher negra, favelada, trabalhadora doméstica, militante comunitária. Foi vereadora, deputada federal, senadora, vice-governadora, governadora do Rio de Janeiro e ministra. Em cada etapa, sua presença desmentiu a mentira de que política é assunto reservado a sobrenomes tradicionais.

A ascensão de Benedita é inseparável do movimento negro, das igrejas de base, das associações de moradores e das lutas urbanas. Ela colocou no centro temas que o conservadorismo prefere empurrar para a margem: racismo, pobreza, moradia, trabalho doméstico e desigualdade territorial. Uma democracia que não abre espaço para mulheres negras é uma democracia pela metade – e com frequência nem isso.

Dilma Rousseff: a Presidência e o preço da misoginia

Dilma Rousseff foi a primeira mulher a presidir o Brasil, eleita em 2010 e reeleita em 2014. Seu governo teve contradições e escolhas que seguem em debate, como qualquer administração submetida a coalizões, crises e disputas econômicas. Mas uma coisa não está aberta à relativização: o impeachment de 2016 foi conduzido em meio a uma ofensiva política misógina, elitista e antidemocrática.

A campanha de desmoralização contra Dilma não criticava apenas decisões de governo. Explorava sua aparência, seu tom de voz, sua idade e seu comportamento, como se uma presidenta tivesse obrigação de sorrir para os mesmos homens que tramavam derrubá-la. O golpe parlamentar abriu caminho para cortes sociais, entreguismo e, depois, para o bolsonarismo. Tratar aquilo como rito institucional normal é lavar a história com água sanitária.

Marina Silva: ambiente, Amazônia e sobrevivência coletiva

Marina Silva saiu de uma comunidade seringueira no Acre para se tornar uma das vozes mais reconhecidas do ambientalismo brasileiro. Sua história política está ligada à luta de Chico Mendes, à defesa dos povos da floresta e à ideia, muitas vezes sabotada por interesses do agronegócio predatório, de que desenvolvimento não pode significar devastação.

Como ministra do Meio Ambiente no primeiro governo Lula e, mais tarde, novamente no cargo, Marina ajudou a consolidar políticas de combate ao desmatamento. Seus embates mostram um ponto central: proteger a Amazônia não é pauta decorativa para conferência internacional. É política de soberania, clima, saúde, economia e vida. A boiada que a extrema direita tentou passar não atingiria somente árvores. Atingiria comunidades, rios e o futuro de milhões.

Sônia Guajajara: território indígena é democracia concreta

A nomeação de Sônia Guajajara para o Ministério dos Povos Indígenas, em 2023, criou uma marca histórica: pela primeira vez, uma mulher indígena assumiu um ministério no país. Liderança do povo Guajajara/Tentehar, ela chegou ao governo federal depois de décadas de mobilização contra invasões, garimpo ilegal, violência e destruição ambiental.

Sônia representa uma mudança que vai além da identidade de quem ocupa o cargo. Quando povos indígenas participam da formulação de políticas públicas, o Estado passa a ouvir quem historicamente foi tratado como obstáculo ao lucro fácil. Demarcação de terras, proteção de lideranças e fiscalização ambiental não são favores. São obrigações constitucionais e barreiras contra o modelo colonial que ainda opera com terno, gravata e trator.

Representação não basta sem enfrentar a estrutura

Celebrar essas mulheres é necessário, mas seria ingenuidade fingir que a simples presença feminina corrigiu o sistema. Partidos continuam usando candidaturas-laranja para cumprir cotas, destinando menos recursos e tempo de propaganda a mulheres, especialmente negras, indígenas, periféricas e trans. Quando elas vencem, encontram gabinetes hostis, redes de ódio e uma cobrança de pureza que raramente recai sobre homens.

A violência política de gênero é o instrumento mais explícito desse bloqueio. Ela aparece em ameaças, perseguição digital, ataques racistas, campanhas de difamação e tentativas de silenciamento dentro das próprias instituições. O assassinato de Marielle Franco, vereadora negra, lésbica e socialista, permanece como ferida e alerta. Não se trata de um episódio apartado da política brasileira: foi uma mensagem brutal contra quem desafiava milícias, racismo estrutural e o abandono das favelas.

Também não existe uma única experiência de ser mulher na política. Uma parlamentar branca de família tradicional enfrenta machismo, sim, mas não parte do mesmo lugar que uma mulher negra da periferia, uma indígena ameaçada em seu território ou uma trabalhadora trans tentando entrar em um partido. A igualdade formal é insuficiente quando a largada é tão desigual.

Por isso, ampliar financiamento, garantir segurança, punir violência política e democratizar os partidos são medidas concretas, não enfeites de discurso. Mas a disputa começa antes da urna: no sindicato, no grêmio estudantil, na associação de bairro, no coletivo cultural, no conselho de saúde e na conversa que recusa a piada machista travestida de opinião.

As sete trajetórias lembram que mulheres não estão “ocupando espaço” por concessão. Elas estão reivindicando o que sempre foi delas: o direito de decidir os rumos do país. E, quando mais mulheres populares, negras, indígenas e trabalhadoras tiverem poder de verdade, a política brasileira terá menos dono e mais povo.

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