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Como fake news afetam eleições no Brasil
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Como fake news afetam eleições no Brasil

Uma mensagem mentirosa enviada em massa no WhatsApp pode parecer pequena diante de uma eleição nacional. Mas, quando ela chega repetida por familiares, líderes religiosos, grupos de bairro e perfis com aparência de notícia, deixa de ser só uma mentira: vira uma máquina de produzir medo, raiva e desconfiança. É assim que fake news afetam eleições – não apenas inventando fatos, mas empurrando o debate público para um terreno em que a gritaria vale mais que a prova.

No Brasil, a extrema direita aprendeu a explorar esse método com eficiência brutal. Não foi um acidente de percurso digital, nem uma simples consequência do uso intenso de celular. Foi estratégia política: transformar preconceitos em conteúdo compartilhável, atacar instituições e adversários com boatos e vender autoritarismo como se fosse proteção.

Como fake news afetam eleições na prática

A desinformação eleitoral não precisa convencer todo mundo. Basta atingir parcelas decisivas do eleitorado, especialmente pessoas cansadas da política, pouco conectadas a fontes jornalísticas confiáveis ou expostas a redes fechadas. Uma mentira bem desenhada pode desmobilizar quem votaria, confundir quem está indeciso e radicalizar quem já nutre ressentimentos.

O truque é quase sempre emocional. Em vez de apresentar um programa econômico, um dado sobre emprego ou uma proposta para a saúde, a fake news oferece um inimigo pronto: professores, artistas, movimentos sociais, mulheres, população LGBTQIA+, nordestinos, migrantes, sindicalistas ou qualquer grupo que a fábrica de pânico escolha como alvo da vez. A política vira uma guerra moral fabricada para esconder discussões que mexem no bolso e no poder de verdade.

Também há a mentira voltada diretamente contra o processo eleitoral. Boatos sobre urnas eletrônicas, fraude generalizada e apuração manipulada não aparecem para informar ninguém. Servem para preparar o terreno de uma derrota que a extrema direita pretende não reconhecer. Quando um candidato deslegitima a eleição antes mesmo da votação, ele não está fazendo crítica institucional: está testando os limites da democracia.

A mentira não circula sozinha

Seria confortável culpar apenas um “usuário desavisado” que encaminha uma mensagem. Mas essa explicação é curta demais para um problema grande. Fake news se espalham porque plataformas digitais recompensam conteúdo que provoca reação imediata. Indignação, medo e escândalo geram clique, comentário, compartilhamento e mais tempo de tela. A mentira, muitas vezes, entra no algoritmo fantasiada de engajamento.

Há ainda uma cadeia organizada de interesses. Influenciadores, sites caça-clique, canais de vídeo, grupos de mensagens e figuras políticas podem atuar em sintonia, mesmo sem deixar um recibo carimbado sobre a mesa. Alguns lucram com publicidade. Outros acumulam poder político. E há quem faça as duas coisas, usando a mentira como modelo de negócio e palanque eleitoral.

Isso não significa que toda informação falsa seja parte de uma conspiração centralizada. Erros existem, sátiras são retiradas de contexto e mensagens antigas voltam como se fossem novas. Só que campanhas profissionais de desinformação sabem aproveitar esse ruído. Misturam pedaços de verdade com invenções, usam linguagem popular e disparam conteúdos em alta velocidade. Quando a checagem chega, o estrago emocional já circulou em milhares de telas.

O alvo é a confiança coletiva

Uma eleição exige mais do que urna, calendário e candidatos. Ela depende de uma confiança mínima de que as regras serão respeitadas e de que a população pode decidir com base em informações verificáveis. Fake news corroem justamente esse chão comum.

Quando tudo parece mentira, a mentira mais agressiva ganha vantagem. O eleitor passa a pensar que “todos roubam”, que “ninguém sabe de nada” ou que qualquer denúncia é armação. Esse cinismo é ouro para quem quer escapar de prestação de contas. Se toda informação é tratada como suspeita, fatos comprovados sobre corrupção, violência política ou incompetência administrativa podem ser descartados como mera disputa de narrativa.

A consequência atinge também a imprensa, a Justiça Eleitoral, universidades, institutos de pesquisa e organizações da sociedade civil. Nenhuma dessas instituições é intocável ou está acima de crítica. Ao contrário: crítica pública é parte da democracia. O problema começa quando a crítica é substituída pela sabotagem permanente, baseada em acusações sem prova e ataques coordenados. Questionar é legítimo. Inventar fraude para incendiar a confiança popular é outra coisa.

Por que a extrema direita se beneficia tanto

A extrema direita não inventou a mentira na política. O que ela fez foi transformar a desinformação em método de mobilização cotidiana. Seu discurso prospera em um ambiente no qual fatos complexos parecem chatos e respostas autoritárias parecem simples. Em vez de discutir desigualdade, concentração de renda, fome e precarização do trabalho, ela oferece bodes expiatórios e teorias de conspiração.

Essa tática tem uma vantagem cruel: a mentira pode ser curta, visual e emocional. A resposta responsável costuma exigir contexto. Um vídeo editado de quinze segundos pode acusar uma pessoa de qualquer coisa; desmontá-lo demanda localizar a gravação original, explicar a manipulação e alcançar o mesmo público. Não há simetria entre quem joga lama e quem precisa provar que ela foi jogada.

Mas não convém cair em fatalismo. Eleição não é decidida apenas por corrente de aplicativo. Trabalho de base, debate presencial, sindicatos, movimentos populares, campanhas de rua e jornalismo sério continuam fazendo diferença. A desinformação pesa mais quando encontra abandono político, insegurança econômica e ausência de comunicação clara com a população.

Combater desinformação sem cair na censura de fachada

A direita costuma gritar “censura” sempre que é cobrada a responder por uma mentira espalhada em escala industrial. É uma manobra previsível. Liberdade de expressão não é licença para financiar redes de fraude, ameaçar autoridades, fabricar documentos ou mentir deliberadamente para interferir no voto.

Ao mesmo tempo, o enfrentamento precisa ter regras públicas, direito de defesa e fiscalização democrática. Dar poder ilimitado a empresas de tecnologia ou a governos para decidir o que pode circular seria trocar um problema por outro. O ponto é responsabilizar condutas comprovadas, exigir transparência sobre anúncios e impulsionamentos, identificar redes artificiais e impedir que plataformas lucrem sem limite com operações de manipulação política.

A educação midiática também importa, mas não pode virar sermão individualista. Dizer para cada pessoa “pesquisar melhor” é insuficiente quando a mentira chega por dezenas de canais, embalada pela confiança de gente próxima e impulsionada por empresas bilionárias. A responsabilidade é compartilhada entre cidadãos, escolas, imprensa, plataformas, campanhas e instituições públicas.

O que fazer antes de compartilhar

A reação mais útil nem sempre é humilhar quem caiu em uma mentira. Em muitos casos, isso só empurra a pessoa para grupos ainda mais fechados. Vale perguntar de onde veio a informação, buscar a data original, desconfiar de imagens sem contexto e observar se a mensagem tenta provocar pânico imediato. Conteúdos que exigem compartilhamento urgente quase sempre merecem uma pausa.

Também ajuda comparar versões e dar preferência a veículos que assumem autoria, corrigem erros e se responsabilizam pelo que publicam. Perfil anônimo com logo de jornal não é jornalismo. Print sem fonte não é documento. Áudio dramático de “alguém que conhece alguém” não é prova, por mais que venha acompanhado de letras maiúsculas e alarmismo.

Para o campo progressista, há uma tarefa adicional: comunicar melhor sem copiar a lógica do adversário. A disputa contra a mentira não será vencida com linguagem burocrática nem com uma avalanche de dados jogada sobre quem está angustiado. É preciso falar de salário, aluguel, comida, transporte, segurança e direitos com clareza, presença e coragem. A democracia não se defende apenas desmentindo boatos. Ela se fortalece quando a política volta a fazer sentido concreto na vida das pessoas.

A próxima corrente mentirosa talvez pareça só mais uma irritação no celular. Não trate como banalidade. Uma democracia pode sobreviver a boatos isolados, mas não a uma indústria de falsificação normalizada. Parar, verificar e conversar é um gesto pequeno. Somado a jornalismo independente, organização popular e responsabilização de quem lucra com o caos, esse gesto ajuda a impedir que a mentira escolha o futuro no lugar do povo.

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