O sábado à noite reservou ao país mais um capítulo da operação de guerra que a direita move contra a eleição de 2026, e a CNN Brasil, mais uma vez, foi o palco escolhido. Roberta Luchsinger, a lobista investigada por tráfico de influência no caso do canabidiol, sentou-se diante das câmeras de Iuri Pitta e Débora Bergamasco e despejou sobre o presidente Lula o vocabulário mais cafajeste do seu repertório: “canalha”, “covarde”, “grande mentiroso”, “senil esclerosado”. Ameaçou uma delação premiada que, jurou, “não vai poupar ninguém”. Fez até teatro de vulnerabilidade: “Eu não tenho pai presidente”, queixou-se, com a altivez de quem recebeu R$ 1,5 milhão do Careca do INSS para um lobby que fracassou.
E é aqui que a coisa merece o escárnio que convém. O que a entrevista do sábado foi, na verdade, já está documentado em quase mil e quinhentas páginas de relatório da Polícia Federal e em manifestação da própria Procuradoria-Geral da República, datada de 20 de agosto, da lavra do vice-procurador-geral Hindenburgo Chateaubriand Filho: a representação, escreveu ele, “não menciona a conclusão de nenhum negócio entre o empresário e o Poder Público”. O governo disse não à grande cartada de canabidiol que Roberta queria dar. A licitação não foi dispensada. O contrato não foi assinado. O único fato comprovado de toda a saga é a recusa do Ministério da Saúde em fechar o negócio. O que a PF investigou, no fim das contas, não foi crime. Foi a tentativa de um lobby que deu errado. Roberta Luchsinger é, portanto, uma acusadora sem acusação, uma delatora pré-fabricada para o Horário Eleitoral da desesperança, uma peça de mela-eleição televisiva e não a bomba que a extrema direita sonha em jogar na cama do presidente.
Mas há um detalhe que a CNN, com sua “clara separação entre áreas comercial e editorial”, preferiu não contextualizar na noite de sábado, e que o ICL Notícias arrancou do sigilo das mensagens de WhatsApp de Daniel Vorcaro e de Ana Matos, sua superintendente de marketing, neste domingo: a emissora que emprestou o palco, os estúdios e a audiência à ira da lobista foi, por anos, uma prestadora de serviços do Banco Master. O Master pagava R$ 10 milhões por ano à CNN em publicidade. Pagou R$ 4 milhões pedidos por João Camargo, então presidente executivo do conselho, por um patrocínio do evento CNN Talks, valor negociado para baixo até fechar em R$ 1 milhão. Entrou, com R$ 10 milhões redirecionados, como cotista-fundador do CNN Money, o canal de economia lançado em novembro de 2024 na Casa Fasano. E, quando Vorcaro decidiu que ia “falar do balanço e operação” na TV, três dias após o anúncio da compra de 58% do Master pelo BRB, a instrução de Ana Matos foi tão explícita quanto obscena: “ele tem que combinar com a gente antes as perguntas do Naka. Todas. Antes. A gente dizer o que queremos falar. Tudo combinado. 100%. Eu vou com vc”. Naka é Fernando Nakagawa, o homem que chefiava a editoria de Economia da casa e comentava todos os programas.
A fórmula repetida
A CNN, em nota, garante que Vorcaro “nunca foi sócio” da emissora, que o controlador é um só, Rubens Menin, e que a redação não participa dos eventos comerciais. Nakagawa diz que conduziu a entrevista “normalmente” e que abordou até temas “não confortáveis” ao banco. Pode ser. O leitor escolhe entre acreditar na separação de áreas ou acreditar nos arquivos de WhatsApp, nos quais a própria executiva do Master, diante da fome de patrocínio dos executivos da emissora, destrincha a relation: “A CNN me parece outro saco sem fundo de querer grana. Kk”. Saco sem fundo, kk. Foi essa a grama, perdoem o trocadilho, que financiou o palco de sábado.
E não é incidente isolado, é o modelo da casa, como já demonstramos aqui com o caso gêmeo. Na Globo, Frederic Kachar, CEO da Editora Globo com 29 anos de casa, mantinha linha direta com Vorcaro, oferecia entrevista no Valor, prometia que “não é pra ficar como está” diante da reclamação do banqueiro sobre o furo jornalístico, e foi demitido em 55 segundos de Jornal Nacional. No Metrópoles, Lilian Tahan, diretora de redação, submetia matérias ao “cliente” antes da publicação, aceitava cortes (“Tiramos”, respondeu, pronta), deixava o banqueiro editar o próprio perfil do diretor do Banco Central que se opunha à compra do Master pelo BRB, tudo com direito a um “Publicada hahahaha” no dia da prisão do patrão. A Globo ao menos demitiu o funcionário. O Metrópoles manteve a diretora. E a CNN, agora, dá microfone à lobista para atacar Lula.
A conta que não fecha
Senhoras e senhores, façam a aritmética que a grande imprensa se recusa a fazer. De um lado, uma lobista amadora, contratada por um empresário que sequer tinha o produto na mão, que usou o nome de Lulinha para abrir portas, fez 40 visitas, enviou minuta de contrato a Marcola, e recebeu do governo, em troca, um rotundo não. Do outro, um esquema bilionário, profissional e comprovado: R$ 12,2 bilhões do Tesouro distrital injetados no buraco do Master pelo banco do governador bolsonarista Ibaneis Rocha, R$ 61 milhões para o filme do herói Dark Horse com áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro, propina de US$ 30 milhões delatada contra Alcolumbre, seis mortes no SUS do Distrito Federal por falta de verba que foi parar no banco falido, e uma rede de mídia, Globo, Metrópoles, CNN, financiada, saboreada e editada pelo próprio banqueiro preso na Papuda.
O escândalo real de 2026 não é a lobista que grita “canalha” no palco pago pela grana do canalha dela. É a assimetria: três inquéritos correndo contra o filho de Lula com vazamentos diários, enquanto o inquérito Dark Horse, que investiga o dinheiro de Vorcaro que alimentou a família Bolsonaro, dorme em gaveta desde 23 de julho sem uma única diligência. E a rede que deveria escarafunchar essa aritmética foi, por anos, fedida, alimentada e penteada pelo próprio réu.
A entrevista de Roberta Luchsinger, portanto, deve ser lida pelo que é: não uma acusação, mas um anúncio de campanha, veiculado por uma emissora que, segundo os próprios arquivos do banqueiro, discutia pergunta antes de entrevista, evento antes de pauta, cota-fundador antes de notícia. Chama-se jornalismo de balcão. E o balcão, agora está provado, aceitava cartão de crédito do Master.

