A armadilha fechou. Ontem (21), Flávio Bolsonaro respondeu ao desafio de abrir o sigilo com uma contraproposta — aceitaria, desde que Lula ampliasse o alcance da quebra: incluir os dados de Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete do presidente, tornar públicos os registros de entrada da empresária Roberta Luchsinger no Palácio do Planalto e abrir os sigilos de José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão de Lula, “entre outras condições”. A resposta da campanha de Lula veio na hora, pela boca do coordenador Camilo Santana:
Todas as condicionantes que ele [Flávio] colocou, a resposta do presidente é que ele não se opõe a absolutamente nada do que ele está propondo. Contanto que ele também cumpra e abra tudo que está no pedido protocolado junto ao TSE.”
E o prazo é hoje: quinta-feira (22), às 11h. Camilo estará no TSE protocolando a resposta de Lula — e esse mesmo dia e horário é o limite para Flávio abrir o sigilo bancário e telefônico dele e dos parentes. “É o prazo que ele vai ter para estar lá e abrir todo seu sigilo bancário e telefônico. Não pode deixar pra depois da eleição. O prazo é amanhã”, disse Camilo. “Se ele não deve nada, ele deveria ter aceito o desafio do presidente Lula naquele domingo.”
Leia a jogada com atenção, porque é uma obra-prima de xadrez. Flávio tentou aumentar a rede — arrastar mais nomes para dentro do pacote para disfarçar a assimetria: ele tem uma offshore, um áudio, um sócio bilionário e dois inquéritos no STF; Lula não tem nada disso a esconder. Quanto mais nomes na lista, mais parecia simétrico. Só que Lula aceitou todos os nomes. A estratégia de engordar o pacote virou estratégia de encurralar o próprio Flávio: agora quem emperra a apuração completa — dele, da família, das empresas, do ex-chefe de gabinete, do irmão do presidente — é um homem só. E o prazo dele vence hoje, às 11h, três dias antes da urna.
Por que a assinatura não sai: o que a PF achou esta semana
O silêncio de Flávio nunca foi mistério — é o som do dossiê batendo na porta. E a semana que antecede o prazo entregou mais três capítulos que explicam, cada um por si, por que abrir o sigilo seria o fim.
A sociedade oculta na BestBet. A revista Piauí revelou, e a Opera Mundi consolidou na terça (21): a PF pediu ao STF autorização para investigar a possível participação oculta de Flávio na BestBet, plataforma de apostas autorizada pelo governo Cláudio Castro (PL-RJ) da qual Willer Tomaz é sócio ostensivo — o mesmo homem que movimentou R$ 5 bilhões em apostas em 2025, o maior volume entre pessoas físicas no país. Tomaz sustenta que a BestBet “nunca chegou a operar”. O Internet Archive mostra o site ativo desde dezembro de 2023; e registros da Loterj registram, desde junho daquele ano, pagamentos de outorga variável correspondentes a 5% da receita da casa. A piauí trouxe ainda indícios de que a Cathedral Holding — a mesma empresa que financiou a Alcazar e intermediou os voos de Flávio a Cascais e Nice — é sócia da Rede Loto, a primeira operadora credenciada pela Loterj, que opera justamente pelo domínio BestBet. E a Alcazar Holdings, a offshore do “usuário master”, detém 6,25% de uma aeronave NetJets comprada em 2025 e usada por Flávio em deslocamentos entre Portugal e França. Cada vez que o operador diz “nunca operou”, um documento público responde.
A sala secreta do contador. Nesta quarta (22), o g1 revelou com imagens: a PF encontrou, em agosto, uma sala que considera secreta num hangar do Aeroporto de Brasília usado por empresas de aviação de Willer Tomaz. A entrada ficava atrás de um painel de madeira, com porta aparentemente blindada. Lá dentro: prateleiras, malas e uma máquina de contar cédulas. Não havia dinheiro no local. A descoberta veio após denúncia anônima, dentro da Operação Sem Desconto — a mesma que apura o esquema que teria beneficiado o senador Weverton Rocha (PDT). Na casa do próprio Tomaz, os policiais já haviam encontrado outra máquina de contar dinheiro, e apreenderam quatro aeronaves de empresas ligadas a ele. A defesa confirmou a existência do ambiente e diz que a estrutura serve “ao atendimento de transportadoras de valores clientes das empresas de aviação”, classificando a suspeita de “fantasiosa”. Um contador de cédulas atrás de um painel falso, numa porta blindada, num hangar do operador do candidato: o eleitor não precisa de doutrina jurídica para ler esse salão.
O endereço único. A Agência Pública cruzou, na terça (21), o relatório de análise da nuvem do celular de Tomaz — obtido com quebra de sigilo autorizada pela Justiça — e encontrou o que os investigadores chamam de coincidência que “reduz a força de uma leitura puramente casual”: a Foggo Entertainment, dona da Blaze no Brasil, que recebeu de Tomaz as transferências milionárias, usava o mesmo endereço comercial — Alameda Prudente de Moraes, nº 86, Mercês, Curitiba — que já foi sede da RioPag S/A, a processadora de pagamentos da Loterj, e de outras sociedades de ex-sócios de Tomaz. A PF suspeita que a Blaze não servisse a “apostas recreativas”, mas à “circulação intensiva, pulverização do dinheiro e eventual retorno de capital”. E a nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda, fechar a conta: Tomaz fez 629 apostas de R$ 500 mil ou mais em um ano (394 delas de exatos R$ 500 mil, quatro de R$ 1 milhão), girou R$ 5 bilhões, sacou quase R$ 200 milhões — e a Blaze o classificou como cliente de risco “médio” e comunicou ao Coaf apenas sete operações suspeitas em 2025, nenhuma acima de R$ 15 mil. Para a Fazenda, o padrão sugere “fracionamento ou dissimulação” e “possível uso de ferramenta automatizada” — o vocabulário técnico, assinado por um subsecretário de Estado, para o que o cidadão chama de lavanderia.
As mensagens que desaparecem e o Google higienizado
E o relatório da PF com base no iCloud de Tomaz guarda dois detalhes que valem uma geração. O primeiro: Flávio Bolsonaro era um dos contatos favoritados de Tomaz no aplicativo Confide — a plataforma cujas mensagens desaparecem após pouco tempo, sem histórico no aparelho. O homem que diz que “mantém apenas amizade” com o candidato mantinha com ele um canal de conversas efêmeras — a tecnologia preferida de quem não quer que a conversa seja encontrada. O segundo: os peritos acharam planilhas e comprovantes de pagamentos a prestadores de serviços contratados para remover reportagens e desindexar links do Google sobre Tomaz e Flávio — incluindo, especificamente, uma reportagem sobre a atuação do senador no projeto de lei dos jogos e sua presença em reuniões com operadoras de cassinos em Las Vegas. O candidato que acusa os outros de “censura” pagava, por planilha, para apagar reportagens sobre si mesmo. E o mesmo setor — apostas — que o dossiê documentou como a máquina de lavar, aparece na agenda pessoal do candidato em Las Vegas.
O tabuleiro de hoje
Enquanto o prazo corre, o adversário testou mais uma saída: na terça (20), pediu a Moraes acesso ao inquérito sobre Tomaz — olhar a investigação em vez de abrir o próprio sigilo. Não é a mesma coisa, e o TSE não vai se enganar: a apuração do sócio já corre no STF; o que falta é o que só Flávio pode liberar — os dados dele, da família e das pessoas jurídicas.
O quadro final, a três dias da urna: Lula protocolou o sigilo dele, de Janja e dos cinco filhos; o Lulinha se pôs à disposição do relator Mendonça; Lula aceitou todas as condições exigidas por Flávio — Santana Ribeiro, os registros de Luchsinger, Frei Chico, tudo. O pacote completo está pronto para apuração. Só falta um nome assinar o próprio nome: o do homem que escreveu “corrupto” na palma da mão.
Hoje às 11h, o relógio vence. Se Flávio assinar, abre o subsolo — e a campanha dele morre com o documento na mão da Justiça Eleitoral. Se não assinar, o silêncio se torna a última declaração de campanha: a única resposta que resta a quem já usou tudo — o “fake news”, a contraproposta, o pedido de acesso ao inquérito alheio — e nunca usou a única coisa simples: a assinatura.
“Não pode deixar pra depois da eleição”, disse Camilo. Não pode mesmo. Porque depois da eleição pode ser tarde: se eleito, o candidato ganha imunidade temporária contra processo por fatos anteriores — e a apuração inteira, da BestBet à sala secreta, do Confide à offshore, dorme atrás da faixa presidencial até o fim de um eventual governo. A assinatura de hoje às 11h não é burocracia. É a última janela antes da porta trancar. Quem não deve, assina. Quem assina com pressa de eleitor, não é candidato — é réu esperando a eleição passar.

