Quando alguém repete que o Estado brasileiro não funciona, vale lembrar estes cinco avanços do SUS. Eles não nasceram de favor de governo, nem de caridade empresarial. Foram conquistados por sanitaristas, trabalhadores, movimentos populares e pela pressão democrática que transformou saúde em direito na Constituição de 1988.
O Sistema Único de Saúde está longe de ser perfeito. Há filas, falta de profissionais em regiões inteiras, subfinanciamento e uma pressão permanente de grupos privados interessados em transformar doença em mercado. Mas apontar seus problemas sem reconhecer sua dimensão histórica é comprar a conversa de quem quer desmontá-lo. O SUS atende mais de 200 milhões de pessoas e sustenta ações que muita gente só percebe quando precisa delas.
Os cinco avanços do SUS que o mercado não entrega
1. Saúde deixou de ser privilégio formal
Antes do SUS, o acesso regular à assistência médica estava ligado à previdência social e ao emprego formal. Quem tinha carteira assinada podia contar com os institutos de assistência. Quem vivia de bico, estava desempregado, trabalhava no campo ou simplesmente era pobre dependia de filantropia, favor político ou de chegar a tempo a uma Santa Casa lotada.
A Constituição de 1988 rompeu, ao menos no papel e em boa medida na prática, com essa lógica cruel. A saúde passou a ser direito de todos e dever do Estado. As Leis nº 8.080 e nº 8.142, de 1990, organizaram esse princípio em um sistema público nacional, descentralizado e com participação social.
Isso parece óbvio para quem nasceu depois da redemocratização, mas não é. Em países ricos, milhões de pessoas adiam consulta, exame e remédio por medo da conta. No Brasil, uma pessoa sem plano pode procurar uma unidade básica, receber atendimento de urgência, fazer tratamento complexo e retirar medicamentos sem apresentar cartão de crédito. O direito não elimina automaticamente a desigualdade, mas cria uma obrigação pública que governos podem ser cobrados a cumprir.
2. Vacinação em massa virou patrimônio coletivo
O Programa Nacional de Imunizações é anterior ao SUS, criado em 1973. O salto dado com o sistema público, porém, foi transformar a vacinação em uma rede de alcance nacional, com postos, campanhas, equipes locais, monitoramento e capacidade de chegar onde o lucro não quer chegar.
Foi assim que o Brasil eliminou a poliomielite, reduziu drasticamente doenças como sarampo e difteria e construiu uma cultura sanitária reconhecida internacionalmente. Campanhas de vacinação não funcionam apenas com uma dose no braço. Elas exigem logística, comunicação confiável, profissionais treinados, cadeia de frio e presença territorial. Ou seja: exigem Estado.
A pandemia de Covid-19 expôs a força e as feridas dessa estrutura. Mesmo sabotado pelo negacionismo bolsonarista, por atrasos criminosos na compra de vacinas e por uma máquina de mentiras instalada no Palácio do Planalto, o SUS vacinou milhões em ritmo acelerado. A tragédia poderia ter sido ainda maior sem ele. A queda nas coberturas de rotina, porém, acende um alerta: vacina não se sustenta só pela memória das grandes campanhas. É preciso combater desinformação e financiar a atenção básica todos os dias.
3. A resposta à Aids mostrou que vida não pode virar patente
Nos anos 1980 e 1990, receber um diagnóstico de HIV era, para muita gente, uma sentença cercada de estigma, abandono e medo. Enquanto o mercado farmacêutico tratava os antirretrovirais como produtos caros para poucos consumidores, o Brasil construiu uma política pública que virou referência: acesso universal e gratuito ao tratamento.
A distribuição de antirretrovirais pelo SUS ganhou base legal em 1996, acompanhada de prevenção, testagem, assistência especializada e pressão pela produção nacional de medicamentos. O país enfrentou disputas internacionais e interesses de multinacionais para reduzir preços e ampliar o acesso a remédios. Não foi gentileza do capital. Foi decisão política, sustentada também pela luta de movimentos de pessoas vivendo com HIV/Aids.
Hoje, a política inclui ferramentas como a profilaxia pré-exposição, a PrEP, e estratégias para reduzir a transmissão. Ainda há racismo, LGBTfobia, desigualdade regional e preconceito atravessando o cuidado. Mas a lição permanece poderosa: quando o Estado coloca a vida acima da margem de lucro, uma epidemia pode deixar de ser condenação inevitável.
4. Transplantes passaram a ser uma política pública
Transplante é o tipo de procedimento que revela o absurdo da frase cada um por si. Sem coordenação nacional, equipes especializadas, hospitais públicos, laboratórios, transporte de órgãos e acompanhamento posterior, não existe milagre individual. Existe rede.
O Sistema Nacional de Transplantes, estruturado a partir do fim dos anos 1990, organizou a doação e as filas com critérios clínicos. O SUS financia grande parte dos procedimentos realizados no país, incluindo etapas que vão muito além da cirurgia: exames, medicamentos imunossupressores e acompanhamento contínuo.
Há problemas sérios, claro. A desigualdade entre estados, a escassez de equipes e a dificuldade de logística ainda pesam para quem espera por um órgão. Famílias também precisam conversar sobre doação antes da dor de uma perda. Ainda assim, o modelo público impede que a chance de continuar vivendo seja definida apenas pelo saldo bancário. Essa é uma escolha civilizatória, não um detalhe administrativo.
5. A saúde da família levou cuidado para perto de casa
Durante décadas, a saúde pública foi pensada quase sempre depois que a doença já tinha explodido. A Estratégia Saúde da Família ajudou a inverter parte dessa lógica. Com equipes multiprofissionais, agentes comunitários e unidades básicas, o SUS passou a acompanhar gestantes, crianças, idosos, pessoas com doenças crônicas e famílias inteiras nos territórios onde vivem.
A força desse modelo está no vínculo. A agente comunitária que conhece uma rua sem saneamento, a enfermeira que identifica uma gestação de risco, o médico que acompanha a pressão alta antes de ela virar um AVC: tudo isso evita sofrimento, internações e custos maiores. Saúde não começa na porta do hospital. Começa na comida, na moradia, no trabalho, na água limpa, no transporte e na renda.
É justamente por isso que a atenção básica costuma ser alvo fácil de cortes disfarçados de eficiência. Reduzir agentes, precarizar vínculos ou entregar unidades à lógica de organizações privadas pode até produzir planilhas bonitas para gestores, mas enfraquece o cuidado contínuo. E quem sente primeiro são as periferias, os municípios pequenos e as populações historicamente abandonadas pelo poder público.
Defender o SUS é disputar orçamento e projeto de país
Os avanços do SUS não autorizam complacência. Filas para cirurgias e exames são reais. Trabalhadores da saúde seguem exaustos e, muitas vezes, mal remunerados. A saúde mental ainda recebe menos atenção do que precisa. Povos indígenas, população negra, pessoas com deficiência e moradores de áreas rurais enfrentam barreiras que o discurso universalista, sozinho, não derruba.
Mas a resposta não é entregar a saúde à turma dos planos, dos fundos de investimento e das mensalidades impagáveis. É financiar o sistema de forma estável, fortalecer concursos e carreiras, ampliar a produção pública de medicamentos, garantir participação popular e cobrar gestão competente. Privatização vende a fantasia de agilidade para quem pode pagar e deixa a conta social para o resto.
Da próxima vez que alguém tratar o SUS como sinônimo de fila, vale fazer a pergunta que desmonta a propaganda: fila para quê, e causada por qual escolha política? Porque um sistema público subfinanciado não é prova de que o público fracassou. É prova de que há gente demais lucrando com a ideia de que direito deve virar mercadoria. Defender o SUS, na prática, é defender que ninguém precise escolher entre sobreviver e pagar uma conta.
