Em 8 de janeiro de 2023, Brasília mostrou, em escala brutal, o que está em jogo na democracia brasileira: prédios podem ser depredados em horas, mas a destruição política vinha sendo ensaiada havia anos, em grupos de WhatsApp, quartéis, púlpitos, gabinetes e telas de celular. Não foi uma explosão espontânea de gente “insatisfeita”. Foi uma operação política alimentada por mentira industrial, nostalgia autoritária e proteção institucional demais para quem atacava a própria República.
A tentativa de golpe fracassou porque houve reação de instituições, da imprensa profissional, de movimentos sociais e de uma sociedade que já conhecia o tamanho do abismo. Mas seria um erro confortável tratar aquilo como página virada. A extrema direita perdeu a Presidência, não perdeu sua capacidade de mobilizar ressentimento, explorar inseguranças reais e transformar frustração popular em ódio contra pobres, mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+ e trabalhadores organizados.
A democracia não se resume à urna, embora a urna seja inegociável. Ela depende de comida no prato, emprego com direitos, escola pública viva, informação confiável e Estado capaz de proteger quem sempre foi deixado do lado de fora. Quando a maioria sente que votar não muda sua vida, o vendedor de soluções autoritárias aparece com uniforme, Bíblia, arma, algoritmo e uma mentira embalada como coragem.
Democracia brasileira não nasceu pronta
A Constituição de 1988 foi uma conquista monumental. Depois de duas décadas de ditadura empresarial-militar, o país reconheceu direitos sociais, ampliou liberdades e desenhou instrumentos para que a cidadania não fosse privilégio de poucos. O problema é que texto constitucional, por si só, não desmonta uma estrutura social fundada na escravidão, no mandonismo e na concentração obscena de terra, renda e poder.
O Brasil entrou na redemocratização sem fazer justiça de transição à altura. Torturadores não foram responsabilizados como deveriam. Arquivos ficaram escondidos ou negligenciados. A violência de Estado nas periferias continuou recebendo tolerância social, como se democracia valesse para uns e bala para outros. A conta chegou: setores das Forças Armadas preservaram prestígio político indevido, e a tortura foi relativizada por figuras que chegaram ao centro do poder.
Também não houve democratização efetiva da comunicação. Poucos grupos econômicos mantiveram influência gigantesca sobre o debate nacional, definindo quem parece respeitável, qual greve merece espaço e qual demanda popular vira sinônimo de “baderna”. As redes sociais romperam parte desse monopólio, mas não entregaram uma praça pública neutra. Trocaram o velho oligopólio por plataformas privadas que premiam escândalo, medo e desinformação porque indignação rende clique, anúncio e poder.
O voto é o começo, não a linha de chegada
Eleição limpa é condição básica. Sem ela, sobra farsa. Mas uma democracia que aparece apenas de dois em dois anos vira plateia: a população escolhe representantes e assiste, muitas vezes sem acesso real às decisões que afetam aluguel, transporte, salário, saúde e território.
Participação popular dá trabalho e produz conflito. Conselhos, conferências, sindicatos, associações de bairro, grêmios, movimentos por moradia e coletivos culturais não são enfeites da República. São lugares em que interesses diferentes se enfrentam às claras, e onde quem não tem lobby milionário pode construir voz coletiva. A direita adora chamar isso de aparelhamento quando trabalhadores ocupam espaços públicos. Curiosamente, não demonstra a mesma preocupação quando banqueiros, empreiteiras e plataformas digitais escrevem suas preferências nos corredores do poder.
Defender participação não significa romantizar toda instituição popular. Conselhos podem ser esvaziados, sindicatos podem se burocratizar, partidos podem se afastar de suas bases. O antídoto não é abandonar esses espaços e entregar o campo para os de sempre. É disputar transparência, renovação, formação política e mecanismos reais de controle social.
Justiça social é infraestrutura democrática
A desigualdade corrói a liberdade de forma silenciosa. Uma pessoa que trabalha doze horas, atravessa a cidade em ônibus lotado e ainda precisa escolher entre gás e remédio tem pouco tempo, energia e segurança para acompanhar audiências públicas ou participar de uma reunião comunitária. Formalmente, seu voto vale o mesmo que o de um bilionário. Na vida material, o poder de influência está muito longe de ser igual.
Por isso, políticas de transferência de renda, valorização do salário mínimo, moradia, creche, SUS, universidade pública e proteção trabalhista não são “gastos ideológicos”, como repete o catecismo fiscalista. São condições concretas para que milhões deixem de sobreviver no limite e possam exercer cidadania com autonomia.
A reforma trabalhista de 2017 vendeu precarização como modernidade. O resultado foi mais insegurança para quem vive do próprio trabalho e menos força coletiva para negociar. O trabalhador transformado em empreendedor de si mesmo, sem férias, previdência ou jornada previsível, fica mais vulnerável a promessas fáceis e menos disponível para a vida pública. Democracia sem direitos sociais vira um condomínio eleitoral com porteiro na urna e catraca na porta.
A extrema direita sabe explorar feridas reais
Não basta chamar todo eleitor bolsonarista de fascista e encerrar a conversa. Lideranças da extrema direita são responsáveis, sim, por organizar ataques às instituições, normalizar violência e disseminar mentiras. Isso exige investigação, julgamento e punição dentro da lei. Anistia para golpista é convite para o próximo golpe.
Mas parte de sua base nasce de problemas concretos: medo da violência, abandono de serviços públicos, precarização, sensação de perda de status e ausência de perspectivas. Quando a esquerda responde apenas com superioridade moral, deixa esse terreno aberto para charlatães que oferecem bodes expiatórios. Eles não resolvem a fila do posto de saúde, o preço da comida ou a falta de emprego. Apenas apontam um inimigo mais fraco e mandam a população descarregar nele a própria raiva.
A disputa, portanto, é material e cultural. É preciso defender políticas públicas que mudem a vida e, ao mesmo tempo, enfrentar a máquina de mentiras sem ingenuidade. Não há liberdade de expressão em jogo quando redes coordenadas fabricam fraudes, ameaçam autoridades e monetizam ataques contra crianças, mulheres e minorias. Há abuso de poder comunicacional, e ele precisa de regras democráticas.
Informação não é luxo de quem tem tempo
A desinformação prospera onde existe desamparo. Mensagens curtas, vídeos manipulados e teorias conspiratórias oferecem explicações simples para dores complexas. Elas dão pertencimento a quem se sente invisível. Combater isso não é só apagar conteúdo criminoso, embora isso seja necessário em casos claros. É garantir jornalismo local, educação midiática, comunicação pública e presença política organizada nos territórios.
A esquerda precisa falar de economia sem economês, de direitos sem burocratês e de democracia sem tratar o povo como aluno atrasado. Quem pega fila no posto sabe que o Estado falha. Quem sofre assalto sabe que segurança pública não pode ser slogan. Quem teme perder o emprego sabe que crescimento sem direito não é prosperidade. Escuta não é concessão de marketing: é método político.
Também é preciso rejeitar a falsa neutralidade. Não existe relato inocente quando um jornal escolhe tratar uma reforma que corta direitos como “ajuste” e uma greve como “transtorno”. Assumir posição não autoriza inventar fatos. Pelo contrário: aumenta a responsabilidade de apurar, corrigir e separar evidência de opinião. A disputa narrativa só fortalece a democracia quando não troca verdade por torcida.
Defender a democracia brasileira é organizar poder popular
Instituições democráticas precisam funcionar: Justiça independente, eleições auditáveis, Congresso fiscalizado, Ministério Público atuante e forças de segurança submetidas ao poder civil. Mas nenhuma delas substitui uma sociedade organizada. Foi a mobilização popular que pressionou pela Constituinte, resistiu à ditadura, construiu políticas sociais e impediu que o golpismo tivesse a última palavra.
O desafio agora é menos glamouroso e mais decisivo: reconstruir vínculos no trabalho, na escola, no bairro e no sindicato; cobrar políticas que cheguem antes do discurso de ódio; exigir responsabilização para quem conspirou; e não deixar que a defesa da democracia fique restrita a cerimônias em Brasília. República não se protege apenas com toga e solenidade. Protege-se quando a maioria entende que tem direitos, voz e força para não aceitar migalhas.
A democracia brasileira seguirá vulnerável enquanto tanta gente precisar escolher entre sobreviver e participar. Fazer essa escolha desaparecer é tarefa de governo, movimentos, imprensa e cidadania. E começa no lugar mais concreto de todos: onde o povo se reúne para transformar indignação em organização.
