O papel do BNDES no desenvolvimento brasileiro

Entenda o papel do BNDES no desenvolvimento: crédito público para emprego, indústria verde

O papel do BNDES no desenvolvimento brasileiro

Quando um país deixa a indústria definhar, entrega sua infraestrutura ao lucro imediato e aceita que bancos privados só financiem quem já tem patrimônio, o resultado não é eficiência: é dependência, desemprego e desigualdade. É nesse terreno que o papel do BNDES no desenvolvimento volta ao centro da disputa brasileira. Não se trata de caridade estatal para empresários. Trata-se de decidir se o Brasil terá projeto nacional ou continuará exportando matéria-prima barata e importando tecnologia cara.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social nasceu para financiar aquilo que o mercado costuma evitar: investimentos longos, caros e decisivos para o futuro do país. Uma ferrovia, uma fábrica de equipamentos médicos, uma rede de saneamento, a transição energética ou a recuperação de uma cadeia industrial não amadurecem no ritmo da especulação financeira. Exigem crédito paciente, planejamento e Estado presente.

O papel do BNDES no desenvolvimento vai além do crédito

O BNDES é um banco público federal. Isso parece uma informação burocrática, mas tem consequência política direta: seus recursos podem ser orientados por metas coletivas, e não apenas pela taxa de retorno mais rápida. Quando atua bem, o banco ajuda a transformar poupança pública em capacidade produtiva, empregos qualificados, inovação e infraestrutura.

O setor privado tem um lugar na economia, evidentemente. Mas banco privado não existe para corrigir desigualdades regionais, sustentar pequenas empresas em momentos de crise ou financiar uma indústria nacional de baixo carbono. Sua lógica é reduzir risco e maximizar ganho. Em um país desigual como o Brasil, deixar todo o crédito estratégico sob esse comando é decretar que os ricos terão financiamento barato e o resto que se vire no cheque especial.

O BNDES pode oferecer crédito de longo prazo, participar de fundos, apoiar exportações, financiar máquinas e equipamentos e estruturar projetos de infraestrutura. Também pode induzir padrões. Ao liberar recursos, o banco pode exigir metas de conteúdo local, respeito ambiental, criação de empregos formais, inclusão de fornecedores menores e transparência nas contratações. Dinheiro público não deve funcionar como mesada para conglomerado privado. Deve cobrar contrapartida pública.

Indústria, emprego e soberania tecnológica

A reindustrialização brasileira não acontecerá por milagre nem por palestra de coach liberal sobre empreendedorismo. Ela depende de investimento coordenado. A indústria gera encadeamentos: uma empresa que produz ônibus elétrico, por exemplo, demanda baterias, software, componentes, pesquisa, manutenção e formação profissional. Cada elo pode movimentar empresas e trabalhadores em diversas regiões.

É aí que entra a capacidade de indução do BNDES. O banco pode apoiar setores nos quais o país precisa ganhar autonomia, como equipamentos para energia renovável, fármacos, saúde, agricultura de precisão, semicondutores em nichos viáveis, tecnologia da informação e mobilidade coletiva. Não significa apostar dinheiro sem critério em qualquer empresa que apareça de terno prometendo inovação. Significa identificar gargalos reais, estabelecer prioridades e acompanhar resultados.

Há um detalhe que a direita costuma esconder: países desenvolvidos não chegaram lá obedecendo ao receituário de Estado mínimo que hoje tentam vender ao Sul Global. Estados Unidos, Alemanha, Coreia do Sul e China usaram bancos públicos, compras governamentais, proteção estratégica e investimento em pesquisa. A conversa de que o mercado resolve tudo costuma ser aplicada com rigor seletivo: vale para nós, nunca para as potências que protegem as próprias empresas.

Infraestrutura não é só obra, é direito

Falar de infraestrutura imediatamente lembra rodovia, porto e usina. Mas desenvolvimento também é água tratada, esgoto, creche, mobilidade urbana, internet de qualidade e hospitais equipados. Sem isso, a vida cotidiana fica mais cara e a desigualdade se reproduz em escala industrial.

O financiamento do BNDES pode ser decisivo para ampliar saneamento e transporte público, sobretudo onde municípios não conseguem acessar crédito em condições razoáveis. Uma periferia sem coleta de esgoto não sofre por falta de “eficiência de mercado”. Sofre por abandono histórico e por escolhas orçamentárias que privilegiam rentistas enquanto serviços básicos viram promessa eleitoral.

O cuidado necessário é impedir que investimentos públicos virem privatização disfarçada, com lucro garantido para concessionárias e tarifa pesada para a população. Parcerias podem ter utilidade em casos específicos, mas não podem transferir o risco ao Estado e o ganho ao acionista. Em serviços essenciais, universalização, preço acessível e qualidade precisam pesar mais que a planilha de dividendos.

Transição ecológica com justiça social

O Brasil tem condições extraordinárias para liderar uma economia de baixo carbono, mas potencial não paga salário nem reduz emissão sozinho. A transição energética precisa de financiamento para energia solar e eólica, armazenamento, redes elétricas, biocombustíveis sustentáveis, recuperação ambiental e transporte coletivo limpo.

O BNDES pode fazer essa transição sair do PowerPoint. Ao direcionar recursos, o banco ajuda a criar mercado, reduzir custos e formar cadeias produtivas nacionais. Mas a palavra-chave é justiça. Não adianta chamar de verde um projeto que expulsa comunidades, precariza trabalhadores ou destrói biomas em nome de uma compensação ambiental de fachada.

A Amazônia, por exemplo, não pode ser tratada como depósito de carbono para empresas melhorarem a própria imagem. Desenvolvimento na região exige bioeconomia com ciência, proteção territorial, povos tradicionais como protagonistas, fiscalização e alternativas concretas ao desmatamento. Crédito público deve fortalecer quem produz preservando, e não premiar grileiro que descobriu o vocabulário da sustentabilidade.

O erro bolsonarista e o fetiche do Estado encolhido

Durante o bolsonarismo, a ideia de planejamento nacional foi atacada como se fosse pecado. O projeto era conhecido: vender patrimônio público, desmontar capacidades estatais, reduzir instrumentos de desenvolvimento e chamar isso de modernização. Na prática, modernizar significava aprofundar a submissão do país às commodities, aos juros altos e à lógica de curto prazo.

A tentativa de pintar o BNDES como vilão absoluto também serviu para confundir o debate. Sim, bancos públicos precisam de fiscalização severa. Sim, financiamentos a grandes grupos exigem transparência e critérios duros. Mas usar eventuais erros para defender a paralisia é truque velho. Quem pede o enfraquecimento do BNDES raramente explica como uma cooperativa, uma cidade pobre ou uma empresa industrial nascente conseguirá crédito barato em um sistema dominado por bancos privados.

Não há virtude em destruir instrumentos públicos só porque eles podem ser mal utilizados. Pela mesma lógica, seria preciso acabar com hospitais porque há má gestão em hospitais. O caminho sério é corrigir, auditar, abrir dados e punir desvios, não entregar a chave do desenvolvimento para meia dúzia de financistas.

Crédito público exige controle público

Defender um BNDES forte não é defender um cheque em branco. Quanto maior sua capacidade de financiamento, maior deve ser a transparência sobre beneficiários, condições, impactos ambientais, empregos gerados e retorno social. Trabalhadores, universidades, movimentos sociais e representantes de territórios afetados precisam ter espaço real no debate sobre prioridades.

Também é preciso enfrentar um vício histórico: concentrar recursos nas regiões e empresas que já concentram riqueza. Um banco de desenvolvimento digno desse nome deve reduzir distâncias entre Nordeste, Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, levando em conta as vocações locais sem aceitar a velha divisão colonial do trabalho. Não basta financiar a extração de riqueza em uma região para que o lucro e a tecnologia fiquem em outra.

O critério central deveria ser simples, ainda que sua execução seja complexa: cada real financiado precisa produzir benefício coletivo mensurável. Mais emprego formal, mais inovação nacional, menos emissão, serviços melhores, fornecedores locais fortalecidos e desigualdade reduzida. Se o projeto só melhora o balanço de uma empresa, talvez não mereça subsídio público.

O Brasil não precisa escolher entre Estado eficiente e participação popular. Precisa dos dois. Um BNDES orientado por planejamento democrático pode ser uma das ferramentas mais poderosas para tirar o país da armadilha do crescimento que enriquece poucos e deixa a maioria esperando migalhas. A pergunta não é se teremos política de desenvolvimento. Ela já existe, mesmo quando fingem que não: ou serve ao rentismo, ou serve ao povo.