Política externa não cabe em complexo de vira-lata

Política externa afeta empregos, preços, clima e democracia. Veja por que a soberania brasileira exige cooperação, não submissão a potências estrangeiras.

Para quem pega ônibus lotado, faz conta no fim do mês e vê o preço dos alimentos escapar do carrinho, política externa pode parecer assunto de chanceler em sala acarpetada. Não é. Ela ajuda a decidir quanto custa o pão, para onde vai a riqueza produzida aqui, quais empregos sobrevivem, quem explora nossos minérios e se o Brasil fala de cabeça erguida ou abana o rabo para Washington e seus aliados.

A conversa sobre relações internacionais costuma ser sequestrada por uma linguagem burocrática, cheia de siglas e cerimônias. Conveniente para quem prefere esconder o essencial: toda política externa escolhe lados, interesses e prioridades. A questão nunca foi se o país terá uma posição no mundo. A questão é se essa posição servirá à maioria do povo brasileiro ou aos velhos grupos que transformam o Brasil em depósito de matéria-prima barata e mercado cativo para produto caro.

Política externa começa no prato e no contracheque

Quando o governo negocia acordos comerciais, participa de blocos econômicos ou define sua relação com China, Estados Unidos, União Europeia e países vizinhos, ele mexe em cadeias inteiras de produção. Uma abertura comercial sem proteção à indústria nacional pode colocar fábricas em risco e ampliar a dependência tecnológica. Por outro lado, fechar-se ao mundo como se fosse possível viver em uma ilha continental também não protege trabalhador algum.

O ponto é outro: comércio precisa ter regra, contrapartida e interesse público. Se uma empresa estrangeira quer acesso ao mercado brasileiro, o país tem o direito de exigir investimento produtivo, transferência de tecnologia, respeito ambiental e emprego decente. Isso não é radicalismo. É o básico que potências fazem há décadas enquanto seus porta-vozes liberais recomendam submissão aos países periféricos.

A dependência aparece também nos insumos estratégicos. Fertilizantes, combustíveis, semicondutores, medicamentos e equipamentos médicos não podem ficar inteiramente sujeitos ao humor de guerras, sanções ou especulação internacional. A pandemia deixou a lição de forma brutal: quando a crise aperta, cada país poderoso corre para proteger sua própria população. Quem desmontou capacidade estatal e industrial fica no fim da fila, implorando por vacina, respirador ou chip.

Soberania não é isolamento

A direita adora confundir soberania com bravata nacionalista. De um lado, vende patriotada vazia, bandeira na janela e continência para potência estrangeira. De outro, acusa de isolacionista qualquer governo que se recuse a aceitar imposições. O truque é velho e não merece aplauso.

Soberania, na prática, é capacidade de escolher. É diversificar parceiros, fortalecer o Mercosul, ampliar cooperação Sul-Sul, dialogar com todos os centros de poder e não se tornar satélite de nenhum deles. Um país soberano negocia com a China sem entregar seu território, conversa com os Estados Unidos sem pedir bênção e atua em organismos multilaterais sem confundir diplomacia com submissão.

Isso exige maturidade. Não há política popular baseada em idolatrar governos estrangeiros só porque entram em choque com Washington. Autoritarismo, violação de direitos e agressões contra povos civis devem ser criticados onde ocorrerem. A coerência, porém, exige denunciar igualmente as guerras ilegais, os bloqueios econômicos que castigam populações e a seletividade moral das potências ocidentais, sempre muito eloquentes quando o alvo é adversário e convenientemente silenciosas diante de aliados.

Comércio com regra e trabalho protegido

O Brasil não precisa escolher entre ser quintal geopolítico e virar uma caricatura autárquica. Precisa usar seu tamanho econômico, sua produção de alimentos, sua matriz energética e sua relevância ambiental para negociar melhor. Isso passa por financiamento à indústria, compras públicas, ciência, universidades e empresas nacionais capazes de disputar tecnologia de alto valor.

Também passa por cláusulas trabalhistas. Não faz sentido celebrar recorde de exportação enquanto a riqueza sai do país em forma de minério, soja ou petróleo bruto e as comunidades ao redor convivem com trabalho precário, contaminação e serviços públicos sucateados. Exportar pode ser necessário. Exportar desigualdade, não.

Clima, Amazônia e território

A Amazônia virou peça central da disputa global porque concentra biodiversidade, água, carbono e conhecimentos que empresas multinacionais enxergam como oportunidade de negócio. Há uma pressão real pela proteção ambiental, e ela é urgente. Mas existe também a tentação colonial de tratar a floresta como patrimônio disponível para decisão alheia, ignorando povos indígenas, ribeirinhos e brasileiros que vivem no território.

Defender a Amazônia não é autorizar garimpo, grilagem ou boiada do agronegócio predatório em nome de uma soberania falsificada. Tampouco é aceitar tutela estrangeira. A saída democrática combina fiscalização forte, demarcação de terras indígenas, combate ao crime ambiental, pesquisa pública, bioeconomia com repartição de benefícios e protagonismo das populações locais. Floresta em pé não pode ser slogan de conferência enquanto o lucro vai embora e a conta fica na comunidade.

Quem ganha quando o Brasil se ajoelha

O complexo de vira-lata tem custos bem concretos. Governos que adotam alinhamento automático a uma potência abrem mão de margem de negociação e transformam diplomacia em palco ideológico. Foi assim quando setores da extrema direita celebraram um vínculo servil com Donald Trump, atacaram parceiros comerciais estratégicos e trataram a política externa como extensão de guerra cultural de internet.

O resultado dessa lógica é previsível: menos credibilidade, menos diálogo, menos espaço para defender exportadores, brasileiros no exterior e interesses nacionais. Enquanto isso, os patriotas de fachada não hesitam em entregar refinarias, empresas públicas, dados, terras e recursos naturais para o capital internacional. A bandeira serve de fantasia. O patrimônio coletivo vira liquidação.

Não se trata de romantizar o Estado brasileiro, que historicamente também foi capturado por elites econômicas e interesses privados. Trata-se de disputar para que suas ferramentas sirvam ao povo. Um Itamaraty comprometido com a democracia deve defender paz, desenvolvimento, combate à fome, integração regional e regras internacionais menos desiguais. Deve também proteger cidadãos brasileiros vulneráveis fora do país, acolher migrantes com humanidade e enfrentar o racismo que estrutura boa parte das relações globais.

A disputa global é também democrática

A extrema direita aprendeu a operar internacionalmente. Ela compartilha desinformação, financia redes de ódio, ataca instituições eleitorais e recicla o mesmo repertório de pânico moral em vários idiomas. Bolsonarismo, trumpismo e seus clones europeus não são acidentes nacionais isolados. São uma rede política que lucra com medo, ressentimento e mentira industrializada.

Por isso, democracia não se defende apenas dentro das fronteiras. O Brasil precisa cooperar contra lavagem de dinheiro, plataformas que monetizam discurso de ódio, financiamento obscuro de campanhas e ataques coordenados às instituições. Mas essa cooperação não pode virar pretexto para vigilância em massa ou censura de movimentos sociais. Como sempre, o diabo mora na regra e em quem tem poder para aplicá-la.

Há ainda um desafio maior: a ordem internacional segue marcada por instituições desenhadas após a Segunda Guerra Mundial, quando grande parte do Sul Global não tinha voz. Países africanos, latino-americanos e asiáticos carregam as consequências de decisões tomadas por um clube pequeno de potências. Defender reformas nos espaços multilaterais não é vaidade diplomática. É cobrar que quem abriga parcela relevante da população, da produção e da biodiversidade mundial tenha direito real de participar das decisões.

O que cobrar de uma política externa popular

Uma política externa digna desse nome precisa ser julgada por perguntas simples. Ela gera emprego e conhecimento no Brasil? Protege a democracia e os direitos humanos sem seletividade? Amplia a autonomia nacional ou entrega decisões estratégicas? Respeita os povos indígenas e o meio ambiente? Fortalece a integração latino-americana ou deixa cada país disputar migalhas sozinho?

Também merece desconfiança qualquer discurso que apresente diplomacia como assunto exclusivo de especialistas. Especialistas são necessários, claro. Mas o rumo do país não pode ser decidido por meia dúzia de homens de terno, lobistas e donos de exportadoras. Trabalhadores, movimentos sociais, universidades, povos tradicionais e organizações ambientais precisam ter voz quando acordos internacionais afetam sua vida.

A boa política externa não produz manchete patrioteira todo dia. Ela constrói capacidade nacional, evita dependências perigosas e abre caminhos para uma vida mais segura e menos desigual. Cobrar isso é uma forma concreta de defender o Brasil – não o Brasil de propaganda de SUV e farda, mas o Brasil de quem trabalha, estuda, cuida e insiste em não aceitar a submissão como destino.