Crise climática e a conta empurrada ao povo

A crise climática expõe um modelo que lucra com a destruição. Veja quem paga a conta e qua

Crise climática e a conta empurrada ao povo

O termômetro estoura, a chuva arrasta bairros inteiros, o preço da comida sobe, a luz pesa na fatura. A crise climática já não é uma ameaça distante narrada em relatórios para gente de terno em conferências internacionais. Ela entra pela porta de casa, interrompe o ônibus, alaga a escola pública e transforma o trabalho de milhões em uma prova de resistência cotidiana.

Mas há uma armadilha política no jeito como o tema costuma ser apresentado. Quando tudo vira “culpa da humanidade”, ninguém precisa apontar os verdadeiros responsáveis: grandes petroleiras, mineradoras predatórias, gigantes do agronegócio e governos que tratam a fiscalização ambiental como inimiga do lucro. O planeta não foi destruído igualmente por quem pega dois ônibus por dia e por quem transforma floresta em mercadoria.

A crise climática tem CEP, classe e cor

No Brasil, eventos extremos revelam uma desigualdade que já existia antes da primeira gota cair. Quem mora em encosta sem contenção, em beira de córrego, em periferia sem drenagem adequada ou em áreas indígenas invadidas não fez uma escolha livre de risco. Foi empurrado para lá por décadas de déficit habitacional, especulação imobiliária e ausência deliberada do Estado onde o povo mais precisa dele.

Quando uma enchente devasta uma cidade, não basta chamar de tragédia e fazer discurso emocionado diante das câmeras. Tragédia é o nome confortável para aquilo que permite esquecer as decisões políticas anteriores: o orçamento cortado, a obra adiada, o alerta ignorado, a licença concedida, a defesa civil sucateada. A emergência climática é natural em seus fenômenos, mas social em seus danos.

Os números de mortes, desalojamentos e perdas materiais nunca são neutros. Mulheres, população negra, povos indígenas, comunidades quilombolas, trabalhadores rurais, catadores e moradores das periferias carregam a maior parte do impacto. E ainda enfrentam uma segunda violência: a reconstrução lenta, burocrática e frequentemente condicionada a uma documentação que muita gente perdeu justamente na inundação.

A direita adora posar de defensora do “cidadão comum” até o momento em que esse cidadão exige moradia digna, transporte coletivo, água, saúde e proteção ambiental. Aí aparece o mantra do Estado mínimo, como se barragem, drenagem urbana, brigada de incêndio e prevenção de desastres fossem surgir por geração espontânea no livre mercado.

O negacionismo mudou de roupa

O negacionismo climático clássico ainda existe. Ele aparece em vídeos conspiratórios, ataques à ciência e na turma que vê comunismo até em termômetro. Mas a versão mais perigosa hoje é mais bem vestida: aceita que o clima mudou, faz post verde nas redes sociais e, na prática, defende mais petróleo, mais desmatamento e menos fiscalização.

É o cinismo da compensação de carbono usada como licença para continuar poluindo. É a empresa que planta algumas mudas enquanto expande atividades de alto impacto. É o político que lamenta queimadas e, no dia seguinte, trabalha para enfraquecer órgãos ambientais e criminalizar quem denuncia grilagem. A maquiagem verde não reduz emissões nem ressuscita rios contaminados.

Também é preciso recusar a saída individualista vendida como solução total. Separar resíduos, reduzir desperdício e consumir com consciência são atitudes válidas, especialmente quando combinadas com organização comunitária. O problema começa quando o debate termina na sacola reutilizável, enquanto corporações despejam poluição em escala industrial e transferem custos para a sociedade.

Não se combate um sistema fóssil com culpa individual. A dona de casa não pode ser responsabilizada pela embalagem excessiva escolhida pela indústria. O trabalhador não tem como abandonar o carro se o ônibus é caro, lotado e demora uma eternidade. A transição ecológica precisa ampliar escolhas reais, não distribuir sermões para quem já vive no limite.

Quem lucra com o colapso ambiental?

A resposta passa pela concentração de poder econômico. O modelo baseado em extrair, exportar e devastar gera dividendos para poucos e deixa passivos para cidades, comunidades e futuras gerações. Quando a floresta cai para abrir espaço ao gado, à soja ou à mineração ilegal, o lucro não fica com quem perde a água limpa, a terra e a segurança alimentar.

A Amazônia é decisiva, mas reduzir o debate a ela seria conveniente demais. Há pressão sobre Cerrado, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica e zonas costeiras. Há rios urbanos canalizados e contaminados, ilhas de calor nas metrópoles, pulverização de veneno perto de escolas, expansão imobiliária sobre áreas frágeis. A crise é nacional, embora seus efeitos não sejam distribuídos de maneira justa.

O agronegócio de exportação costuma ocupar o debate público com uma propaganda de eficiência patriótica. Produzir alimento é indispensável. O que não pode virar dogma é a ideia de que toda crítica ao setor é ataque à comida no prato. Boa parte da produção mais rentável atende commodities, enquanto a agricultura familiar responde por parcela relevante dos alimentos que chegam à mesa brasileira e precisa de crédito, assistência técnica e proteção contra eventos extremos.

Isso não significa que toda atividade produtiva deva parar ou que não existam dilemas. O país precisa de energia, emprego, moradia e infraestrutura. A questão é quem decide, quem lucra e quem arca com os riscos. Uma transição feita para proteger acionistas pode cortar postos de trabalho e aprofundar desigualdades. Uma transição justa protege renda, qualifica trabalhadores e inclui as comunidades nos processos de decisão.

O que uma resposta popular à crise climática exige

A resposta não cabe em uma campanha publicitária. Ela exige Estado, investimento público, regulação firme e participação social. Exige também enfrentar interesses poderosos que adoram falar em responsabilidade ambiental desde que a conta seja paga por outra pessoa.

Em primeiro lugar, adaptação precisa deixar de ser tratada como gasto dispensável. Cidades necessitam de planos de prevenção que funcionem antes do desastre: mapeamento de áreas de risco, sistemas de alerta acessíveis, drenagem, contenção de encostas, habitação segura e equipes públicas estruturadas. Remover famílias de áreas vulneráveis sem garantir casa perto de emprego, escola e rede de apoio apenas troca uma precariedade por outra.

A proteção dos biomas requer fiscalização com orçamento, autonomia técnica e punição para crimes ambientais. Não há política climática séria se garimpo ilegal, grilagem e desmatamento seguem compensando financeiramente. Povos indígenas e comunidades tradicionais não são obstáculos ao desenvolvimento. São guardiões de territórios e conhecimentos que o Brasil trata como detalhe quando deveria tratá-los como parte central da estratégia nacional.

A matriz energética também pede debate adulto. Fontes renováveis são fundamentais, mas projetos de energia eólica e solar não podem repetir velhas práticas de concentração fundiária e expulsão de comunidades. Energia limpa produzida com violação de direitos não é justiça climática. É apenas a mesma desigualdade com outra logomarca.

No cotidiano urbano, transporte público de qualidade é política climática e trabalhista ao mesmo tempo. Menos dependência de carros significa menos emissões, mas também menos horas perdidas no trânsito e mais dinheiro no bolso. Arborização, áreas verdes, saneamento e moradia bem localizada não são luxo de cidade rica. São infraestrutura de sobrevivência para um país que enfrentará mais ondas de calor e chuvas intensas.

A disputa climática é uma disputa por democracia

Há quem queira transformar a crise em desculpa para soluções autoritárias, tecnocráticas e distantes da população. Esse caminho é perigoso. Sem participação popular, a transição pode virar mais uma oportunidade para privatizações, tarifas abusivas e negócios fechados entre governos e grandes empresas.

O enfrentamento real passa por conselhos ativos, sindicatos, movimentos de moradia, coletivos periféricos, cientistas, juventudes e povos do campo e da floresta. Não porque toda decisão deva ser simples, mas porque ninguém conhece melhor o território ameaçado do que quem vive nele. Democracia climática é ouvir antes de remover, consultar antes de licenciar e garantir direitos antes de anunciar obras.

A crise climática não será resolvida por salvadores da pátria, nem por bilionários brincando de filantropia. Ela será enfrentada quando proteger a vida valer mais do que preservar privilégios. Cobrar prefeitos, governadores, parlamentares e empresas é parte da tarefa. Organizar o bairro, fortalecer movimentos e recusar a mentira de que não há alternativa é a outra parte. O clima mudou. A política precisa mudar de lado.