O que é fascismo e por que ele ainda ameaça

Entenda o que é fascismo, suas marcas históricas e como discursos autoritários tentam reci

O que é fascismo e por que ele ainda ameaça

Quando alguém pergunta o que é fascismo, não está pedindo apenas uma definição de dicionário. Está tentando entender por que tanta gente reconhece, em discursos atuais, ecos de regimes que transformaram medo, racismo e violência de Estado em programa político. E também por que chamar qualquer adversário de fascista, sem critério, ajuda mais a confundir do que a enfrentar o problema.

Fascismo não é sinônimo de “qualquer governo ruim”, nem uma palavra mágica para vencer discussão em rede social. Foi um movimento político organizado, nascido na Itália do pós-Primeira Guerra Mundial e levado ao poder por Benito Mussolini em 1922. Mas suas engrenagens – culto ao chefe, nacionalismo agressivo, perseguição a minorias, desprezo pela democracia e mobilização de massas contra inimigos inventados ou reais – continuam perigosamente reconhecíveis.

O que é fascismo, afinal?

O fascismo é uma ideologia e uma prática política ultranacionalista, autoritária e antidemocrática. Ele promete restaurar uma suposta grandeza nacional que teria sido roubada por elites corruptas, estrangeiros, movimentos populares, imprensa, artistas, professores ou minorias. Para isso, apresenta a violência como remédio e a obediência como virtude.

No fascismo histórico, o Estado não era apenas uma máquina administrativa. Era a encarnação da nação, acima dos indivíduos, dos direitos e da diversidade social. Quem discordava deixava de ser um adversário político legítimo e passava a ser tratado como inimigo interno. Daí para censura, prisão, tortura e assassinato, a distância pode ser curta.

O regime de Mussolini criou milícias, esmagou sindicatos independentes, perseguiu opositores e desmontou instituições democráticas. Na Alemanha, o nazismo levou essa lógica a um grau genocida, com o extermínio sistemático de judeus, povos ciganos, pessoas com deficiência, pessoas LGBTQIA+, comunistas e outros grupos perseguidos. Nazismo e fascismo não são termos idênticos, mas o nazismo é geralmente compreendido como uma forma radical, racista e genocida de fascismo.

As marcas que ajudam a identificar o fenômeno

Fascismo não aparece, em geral, anunciando que vai fechar o Congresso e montar campos de concentração no dia seguinte. Ele costuma avançar pela normalização: uma ameaça vira piada, uma agressão vira “opinião”, uma mentira vira estratégia eleitoral, uma tentativa de golpe vira “manifestação patriótica”.

Há sinais recorrentes. O primeiro é o culto ao líder, vendido como figura excepcional, incorruptível e capaz de resolver tudo sozinho. Instituições, imprensa, Justiça, ciência e eleições passam a ser tratadas como obstáculos quando não obedecem ao chefe. A política deixa de ser disputa de projetos e vira devoção pessoal.

Outro elemento central é a fabricação de inimigos. O fascismo precisa de bodes expiatórios para explicar problemas complexos. Em vez de discutir concentração de renda, precarização do trabalho ou falhas de políticas públicas, ele aponta o dedo para imigrantes, pobres, negros, indígenas, feministas, pessoas LGBTQIA+, comunistas, professores ou qualquer grupo que possa ser retratado como ameaça à “família”, à “ordem” ou à “nação”.

Também pesa o uso da violência, direta ou simbólica. Milícias partidárias, intimidação de jornalistas, ataques a movimentos sociais, defesa de armas como solução universal e celebração da tortura não são detalhes de estilo. São formas de acostumar a sociedade à ideia de que certos corpos e vozes podem ser eliminados do espaço público.

Por fim, há uma relação oportunista com a economia. Ao contrário do que dizem caricaturas fáceis, o fascismo não é simplesmente “Estado grande” nem “Estado pequeno”. Regimes fascistas podem intervir pesadamente na economia, mas preservando hierarquias sociais e negociando com grandes empresários. O objetivo não é igualdade: é disciplinar trabalhadores, enfraquecer sindicatos e organizar a sociedade em benefício do poder concentrado.

Fascismo não é qualquer autoritarismo

Todo fascismo é autoritário, mas nem todo autoritarismo é fascismo. Ditaduras militares, monarquias absolutistas e governos repressivos podem ter métodos brutais sem reproduzir todos os elementos fascistas. A distinção importa porque precisão não é frescura acadêmica: é ferramenta de análise política.

Um governo autoritário pode restringir liberdades para se manter no poder. O fascismo, além disso, busca mobilizar parcelas da população em uma cruzada nacionalista contra inimigos internos, glorifica a força e tenta reorganizar a vida social sob uma lógica de submissão coletiva. Não basta observar uma medida isolada. É preciso olhar para o projeto, para a linguagem, para as alianças e para o tipo de sociedade que se pretende construir.

Isso não significa esperar uma cópia perfeita da Itália de 1922 ou da Alemanha de 1933 para reagir. História não se repete como novela em reprise. Ela muda de roupa, aprende a usar aplicativo, explora algoritmos e transforma ressentimento em engajamento. Um movimento pode ter traços neofascistas sem reproduzir, ponto por ponto, o fascismo clássico.

O Brasil e o risco da reciclagem autoritária

No Brasil, a experiência bolsonarista trouxe à superfície uma gramática política que a extrema direita tenta apresentar como normal: ataques sistemáticos às urnas, hostilidade à imprensa, nostalgia da ditadura, exaltação de torturadores, demonização da esquerda, armamentismo e desprezo pelas mortes em massa. Não se trata de exagero chamar atenção para esses sinais. Trata-se de memória democrática.

Ao mesmo tempo, o país tem características próprias. A herança escravista, o racismo estrutural, a violência policial e o poder econômico das elites não nasceram com o bolsonarismo nem dependem exclusivamente de movimentos fascistas para produzir devastação. Reduzir toda a desigualdade brasileira ao fascismo seria um erro. Mas ignorar como setores da extrema direita exploram essas estruturas para avançar seria outro, bem mais conveniente para quem quer passar pano.

A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 mostrou que discursos antidemocráticos não são apenas bravatas de internet. Quando lideranças políticas deslegitimam eleições e estimulam uma base a tratar instituições como inimigas, criam condições para a violência. A defesa da democracia, nesse cenário, não pode ser só cerimônia institucional. Precisa envolver informação, responsabilização e proteção concreta dos direitos sociais.

Por que o fascismo seduz?

Nenhum movimento fascista cresce apenas pela imposição. Ele oferece pertencimento, respostas simples e uma sensação intoxicante de poder a pessoas frustradas ou inseguras. Em tempos de crise econômica, desemprego, medo e descrédito na política, a promessa de ordem pode parecer sedutora.

O truque é que essa ordem vem acompanhada de hierarquia. Alguns ganham o direito de mandar; outros recebem o dever de obedecer. A raiva popular, que poderia se voltar contra banqueiros, oligopólios, patrões exploradores e políticas de austeridade, é desviada para alvos mais vulneráveis. É uma operação velha: proteger os de cima fazendo os de baixo brigarem entre si.

Por isso, combater o fascismo exige mais do que derrotar um candidato nas urnas, embora derrotá-lo seja indispensável. Exige enfrentar a desinformação, fortalecer educação crítica, garantir trabalho digno, valorizar cultura, proteger movimentos sociais e ampliar a participação popular. Democracia sem pão, direitos e voz para a maioria fica vulnerável ao vendedor de soluções violentas.

Nomear para enfrentar, sem banalizar

Usar a palavra fascismo com responsabilidade é recusar duas armadilhas. A primeira é a banalização, que chama de fascista qualquer pessoa conservadora ou qualquer decisão impopular. A segunda é o eufemismo covarde, que enxerga ataques evidentes à democracia e responde com linguagem de assessoria.

A pergunta certa não é apenas se alguém usa uniforme preto ou repete frases de Mussolini. É se há um projeto que transforma desigualdade em destino, violência em política, mentira em método e pluralidade em ameaça. É se o líder pede lealdade acima da lei. É se a sociedade está sendo treinada a aceitar que alguns direitos podem ser suspensos para que outros se sintam protegidos.

Reconhecer essas dinâmicas cedo não é paranoia. É uma forma de impedir que o autoritarismo deixe de ser ameaça e vire rotina. Democracia não se sustenta por inércia: ela precisa ser defendida no voto, no trabalho, nas ruas, nas escolas e em toda conversa em que o ódio tenta se fantasiar de coragem.