No mesmo domingo, a Justiça prendeu Marco Antônio Heredia Viveros, ex-marido de Maria da Penha, em Natal (RN). O motivo: descumpriu medidas protetivas concedendo entrevista à TV Record sobre a tentativa de feminicídio que cometeu em 1983. A emissora vinha anunciando a reportagem com chamadas na grade de programação. Trechos circulavam nas redes sociais. O MPCE entendeu que a divulgação configurou descumprimento. A Justiça decretou prisão preventiva, determinou a retirada imediata do ar e proibiu a exibição em qualquer plataforma.
Enquanto especialistas explicavam como ensinar meninos a respeitar mulheres, uma emissora de televisão nacional dava palco ao homem que tentou matar a mulher que deu nome à lei de proteção às mulheres. O exemplo de cima é o que conta. E o exemplo de cima, neste domingo, foi a Record.
O crime que virou lei — e a lei que não prendeu o criminoso
O crime aconteceu em 1983, em Fortaleza. Maria da Penha era casada havia sete anos com Marco Antônio, de origem colombiana. Ele atirou nela enquanto dormia, deixando-a paraplégica. Em 1998, Maria da Penha levou o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. A lei que leva seu nome foi sancionada em 2006. Completa 20 anos este mês.
E o agressor? Continuou solto por quatro décadas. Não foi preso pelo crime de tentativa de feminicídio. Foi preso por descumprir medidas protetivas — porque abriu a boca na TV errada. A Justiça brasileira não prendeu o homem que tentou matar Maria da Penha. Prendeu o homem que não soube ficar calado. A diferença é abissal. E reveladora: o sistema não age contra o agressor. Age contra o escândalo.
A Record como cúmplice
Uma emissora de televisão, com alcance nacional, deu palco a um homem que tentou matar a esposa. Chamou de reportagem. Promoveu com chamadas. Circulou trechos nas redes sociais. Ninguém na emissora percebeu que aquilo violava medidas protetivas? Mais, que é promoção descabida de violência contra a mulher? Ou percebeu e fez mesmo assim, porque audiência pesa mais que a lei?
A Record não é vítima aqui. É cúmplice. E a Justiça, ao proibir a exibição e determinar a retirada do ar, reconheceu isso implicitamente: a entrevista era um crime. Não de opinião — de descumprimento de medida protetiva. A emissora que se apresenta como jornalismo serviu de instrumento para que um agressor violasse a lei que protege a mulher que ele tentou matar.
Ninguém na Record foi responsabilizado. Ninguém respondeu pela decisão de dar voz a um tentativa de feminicida. A reportagem foi tirada do ar. O agressor foi preso. A emissora segue no ar. O crime de 1983 segue impune. E a lei que leva o nome da vítima completa 20 anos sem conseguir prender o homem que a inspirou — só conseguiu prendê-lo porque ele abriu a boca na TV errada.
O exemplo que vem de cima
O combate à misoginia começa pelo exemplo em casa. Está correto. Mas o exemplo de casa é o primeiro passo, não o último. O exemplo de cima é o que conta. E o exemplo de cima, neste país, é devastador.
Um candidato à presidência tem um vice investigado por estupro de vulnerável — uma menina. O pai da rapaz, Jair Bolsonaro, acumula declarações misóginas que encheriam uma enciclopédia. Uma emissora de TV nacional dá palco a um tentativa de feminicida.
Como ensinar um filho a respeitar mulheres num país onde o Estado elege homens que não respeitam? A resposta não está no Dia dos Pais. Está na estrutura que permite que um investigado por estupro seja vice de um candidato à presidência. Que permite que uma emissora de TV dê voz a um agressor. Que permite que o homem que tentou matar Maria da Penha fique solto por 43 anos — e só seja preso quando vira escândalo.
O pai que ensina o filho a respeitar mulheres faz o certo. Mas esse filho vai crescer num país onde o exemplo de cima diz o contrário. O machismo não é falha de educação individual. É sistema. E o sistema tem emissora de TV, candidato e Justiça que age só quando é forçada.
A Lei Maria da Penha completa 20 anos. O agressor de Maria da Penha foi preso neste domingo. Não pela lei. Pela própria boca aberta na TV errada. A lei protegeu a vítima? Parcialmente. Prendeu o agressor? Não. Prendeu o escândalo. E enquanto o sistema prender escândalos em vez de criminosos, nenhum pai — por mais exemplo que dê em casa — conseguirá proteger a filha sozinho.





Deixe seu comentário