O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), parece ter transformado a PEC do fim da escala 6×1 num objeto de decoração no gabinete da presidência. A proposta, que já foi aprovada pela Câmara dos Deputados e pode mudar a vida de 37 milhões de trabalhadores brasileiros, chegou ao Senado no fim de maio. Desde então, Alcolumbre não a enviou para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), não nomeou relator e, para não deixar margem a dúvidas sobre sua intenção, simplesmente deixou de convocar a reunião de líderes que poderia destravar a pauta.
Enquanto o recesso parlamentar se aproxima, o senador coleciona adiamentos e escadas para não ter que votar uma das pautas mais populares entre a classe trabalhadora. A situação escalou a ponto de o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), perder a paciência e chamar Alcolumbre de “inimigo dos trabalhadores” em público.
“Inimigo”: o PT perde a linha com Alcolumbre
Nesta terça-feira (7), Uczai deu um ultimato ao presidente do Senado.
“Se ele não colocar para tramitar até semana que vem, nós vamos elegê-lo como inimigo também, inimigo dos trabalhadores”, disparou o petista.
A declaração reflete a insatisfação crescente da base governista com a lentidão de Alcolumbre, que parece mais preocupado em agradar a oposição e o Centrão do que em pautar um direito fundamental dos brasileiros.
A reação de Alcolumbre foi imediata e, como de costume, vitimizada. Em nota, o senador afirmou que “esse tipo de ameaça e tentativa de intimidação não será mais tolerado” e que a pauta “é prerrogativa do presidente da Casa” e “não se submete a ultimatos ou pressões político-eleitorais”. Traduzindo: Alcolumbre não gostou de ser chamado pelo nome que a história está prestes a lhe dar.
O verdadeiro jogo de Alcolumbre
A justificativa oficial para o travamento é que Alcolumbre aguarda uma conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os dois não se falam pessoalmente desde que o Senado rejeitou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF), em abril. O presidente do Senado reclama, reservadamente, de ataques que o governo petista supostamente promove contra ele nas redes sociais.
O problema é que, enquanto Alcolumbre espera o telefone tocar, 37 milhões de trabalhadores que cumprem jornadas superiores a 41 horas semanais continuam esperando uma pauta que poderia reduzir sua carga para 40 horas e acabar com a escala 6×1 — aquela em que o trabalhador labuta seis dias para descansar um. Teresa Leitão (PT-PE), líder do governo no Senado, resumiu bem o momento em entrevista à Folha de S. Paulo:
“A direita vai dar um tiro no pé ao dizer que quer se eleger para fazer impeachment de ministros. O que é que o povão sabe disso? O povão sabe da PEC, 80% sabem da PEC, sabem o que é que ela vai mudar na sua vida.”
O contraste é claro: enquanto a base governista tenta aprovar uma pauta popular e estruturante, Alcolumbre faz jogo de cena, refuga reuniões e diz a aliados que a PEC só deve ser votada após as eleições. O senador parece ter esquecido que foi eleito para representar o povo.





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