Risco documentado de o crime chegar ao poder

O que o círculo de Flávio Bolsonaro revela ao Brasil a 48h da eleição presidencial

Por Frente Livre
crime organizado Flávio Bolsonaro
A famosa foto de Flávio Bolsonaro com Sicário, o chefe da milícia privada de Daniel Vorcaro, que se matou no dia em que foi preso. Foto: Reprodução Redes Sociais

Há um número que resume esta eleição e que quase ninguém conseguiu ouvir por cima do barulho: R$ 7,6 bilhões. É o volume que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf — o órgão estatal que existe justamente para rastrear dinheiro suspeito — apurou sobre um esquema de infiltração do crime organizado na política fluminense de que a Polícia Federal descreve, em documento, o papel de cada peça. Os homens que a PF diz que comandaram esse esquema não são desconhecidos do candidato Flávio Bolsonaro. São os nomes que ele apoiou, articulou e levou à disputa eleitoral neste ano — com a própria mãe na chapa de um deles. A pergunta que este texto faz ao eleitor, a dois dias da urna, não é partidária. É documental: o que um candidato à Presidência está dizendo sobre si mesmo quando os aliados que ele escolheu para concorrer são, segundo a Polícia Federal e o Ministério Público, o braço político do crime organizado?

A eleição que o crime quase venceu

Em 29 de setembro, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio liberou, apesar de parecer contrário do Ministério Público Eleitoral, o registro da candidatura de Márcio Canella a deputado estadual. Menos de uma semana depois, em 4 de outubro, o dia do primeiro turno, Canella foi eleito com 197.178 votos — o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro.

Pare nesse resultado e leia o que ele significa. Um levantamento do Centro de Segurança Pública e Analytics da Fundação Getúlio Vargas mostrou que 83% dos votos de Canella vieram de áreas controladas por grupos criminosos armados. Oitenta e três por cento. O candidato que a Polícia Federal descreve como — cito o documento — “patrono político e articulador de alto escalão da organização criminosa, exercendo papel de ligação entre os integrantes do núcleo econômico, agentes públicos e estruturas políticas” quase assumiu uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio carregado pelo voto que só existe onde o crime manda.

Onze dias depois, em 15 de outubro, Canella foi preso preventivamente na 8ª fase da Operação Unha e Carne. No mesmo dia e na mesma operação, foi preso Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil. Um fuzil de uso restrito havia sido apreendido no carro de Canella em julho, na 6ª fase da mesma operação.

A pergunta que ninguém na campanha respondeu: por que um candidato a presidente coloca a mãe como suplente na chapa de um homem que, meses depois, a PF apontaria como articulador de alto escalão do crime organizado?

O homem que o candidato apoiou “100%”

A relação não é invenção de oposição — está documentada em palavras do próprio Flávio. O senador prometeu “apoio integral, 100%” a Canella na disputa ao Senado. A mãe de Flávio, Rogéria Bolsonaro, seria a primeira suplente da chapa. Canella desistiu da candidatura ao Senado após a prisão de julho, mas manteve a disputa para a Assembleia — e venceu, com o voto do território que o tráfico domina.

Quando as prisões vieram a público, Flávio declarou, em 16 de outubro, que estava “surpreso” com elas, que as pessoas “têm direito de se defender e provar a sua inocência”, e que “quem comprovadamente tem envolvimento com coisa errada, com PCC, com Comando Vermelho, tem que pagar dentro da lei”.

Repare no que essa declaração não faz. Flávio não diz que se enganou sobre Canella. Não diz que cortou relações. Não explica o “apoio integral, 100%”. Ele simplesmente afasta a conversa para o futuro — “tem que pagar dentro da lei” — como se a escolha de quem ele apoiou não fosse a única coisa que ele pode explicar agora, antes do voto. O candidato que levou o pai à eleição de 2022 negando tudo o que depois se provou aprendeu a lição: nunca acusar, sempre adiar.

Mas o eleitor não é obrigado a adiar. O eleitor decide agora, com a informação na mão.

Os outros dois: o braço político e o gabinete

Canella não é caso isolado. É o vértice mais recente de um triângulo que a PGR e o STF já desenharam.

Rodrigo Bacellar. Era o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, e seria, segundo as informações disponíveis, o candidato do PL ao governo do estado. Em 20 de dezembro de 2025, foi preso em investigação sobre o vazamento de informações sigilosas de uma operação contra o Comando Vermelho. Em março de 2026, foi preso de novo, na 3ª fase da Operação Unha e Carne. Em 19 e 20 de agosto de 2026, por unanimidade, a Primeira Turma do STF recebeu a denúncia da PGR e o tornou réu por obstrução de investigação — junto com o deputado TH Joias e o desembargador federal Júdice Neto.

O que a PGR sustenta contra Bacellar: ele teria repassado informações sigilosas sobre a Operação Zargun — que apura organização criminosa ligada a tráfico de armas, drogas, corrupção e lavagem — permitindo que TH Joias retirasse provas de casa antes da chegada dos policiais. A PGR o aponta como suspeito de comandar o braço político da facção. O presidente da Assembleia que seria candidato a governador do partido de Flávio Bolsonaro: preso, réu no STF, apontado como o elo que a facção tinha na política.

TH Joias. Réu no STF e, desde 12 de setembro, réu na Justiça Federal por envolvimento com o Comando Vermelho. A acusação: ter usado o cargo e o gabinete na Assembleia para favorecer membros da facção, além de comércio ilegal de armas. É descrito nas fontes consultadas como aliado do senador Flávio Bolsonaro.

Três homens. As fontes consultadas não fixam a natureza exata da relação de Flávio com cada um — especialmente com TH Joias. Um ponto precisa ser dito com a honestidade que este momento exige: não há, nas investigações públicas, prova documentada de que Flávio soubesse, participasse ou tivesse ciência dos crimes desses três homens. A PF e o MP não o investigam por esses casos. Essa fronteira é inegociável — porque é exatamente aí que o adversário vai bater, e é exatamente essa honestidade que torna tudo o resto inatacável.

Mas a fronteira jurídica não apaga a pergunta política. E a pergunta política é esta: um candidato a presidente não pode escolher os próprios aliados? Ele pode. A questão é o que a escolha revela. Quando os três nomes que orbitam a candidatura — o apoiado “100%”, o articulado para o governo e o “aliado” — são, segundo a PF e a PGR, o canal de penetração do crime organizado na política, o candidato não precisa ser réu para carregar a pergunta: o que esse candidato faz com o poder de nomear?

O que a Presidência entrega a quem a ocupa

Porque é aqui que a eleição de 25 de outubro deixa de ser sobre o Rio e passa a ser sobre o Brasil inteiro. A pergunta não é só quem Flávio apoiou. É o que um presidente da República pode fazer com o Estado — e o que isso significa quando esse presidente escolheu, para o círculo político mais próximo, os homens que as investigações descrevem como o braço do crime.

Um presidente da República não governa sozinho. Governa pelo poder de nomear. E os três cargos que decidem a vida e a morte da apuração criminal no Brasil estão exatamente nessa mão:

➡️ O diretor-geral da Polícia Federal — a lei prevê que seja nomeado pelo presidente da República, entre os delegados da carreira. Quem manda na PF, manda na investigação que prendeu Canella, Bacellar e TH Joias.
➡️ O procurador-geral da República — indicado pelo presidente, sujeito à aprovação do Senado. Quem escolhe o PGR influencia quais denúncias chegam ao STF e quais morrem na gaveta.
➡️ Os ministros do Supremo Tribunal Federal — indicados pelo presidente, com aprovação do Senado. O mesmo STF que, por unanimidade, tornou réus os aliados de Flávio é renovado, ao longo de um mandato, pelos ministros que o presidente escolher.
➡️ A matemática é implacável: eleger Flávio é entregar, nas próximas legislaturas, a nomeação — direta ou indireta — de quem comanda a Polícia Federal, de quem escolhe as denúncias do Ministério Público e de quem julga no Supremo. E isso num país onde, segundo os dados do Coaf, o esquema de infiltração da facção na política fluminense movimentou R$ 7,6 bilhões em seis anos.

Não é teoria da conspiração. É a engenharia constitucional brasileira, e é a razão pela qual todo o sistema de apuração criminal — a PF, o MP, o STF — foi desenhado para ter autonomia: para que o poder de nomear não se transforme em poder de proteger.

O precedente que o eleitor não pode esquecer

O Brasil já viu, muito recentemente, o que acontece quando um governo usa o poder de nomeação para controlar a investigação de quem é próximo do próprio chefe.

Em 2020, uma decisão do ministro Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal, por considerar plausível desvio de finalidade — a suspeita era a de que o objetivo da nomeação fosse proteger a família do então presidente de investigações em curso. A decisão precisou ser submetida ao plenário do STF.

O mesmo inquérito que mirava o círculo do ex-presidente Jair Bolsonaro era o que apurava suspeitas de rachadinha — o esquema de devolução de parte dos salários dos assessores — atribuída ao senador, então deputado estadual, Flávio Bolsonaro. E, segundo relato da Polícia Federal, a Abin, a agência de inteligência do governo federal, chegou a espionar os auditores da Receita Federal que apuravam justamente essa suspeita de rachadinha contra Flávio.

Leia esse parágrafo com calma, porque ele liga o passado ao risco do futuro. O poder de inteligência e o poder de nomeação de um governo já foram usados para investigar — e tentar proteger — o círculo do chefe do Executivo. A Abin do governo de Jair Bolsonaro espionando quem investigava o filho de Jair Bolsonaro. Não é cenário hipotético. É documento.

Agora imagine esse mesmo poder nas mãos de quem teve a mãe como suplente na chapa de um preso apontado como articulador do crime organizado. Não precisa de imaginação para saber o que se procura proteger — a história já mostrou.

O risco das milícias: um mapa que ninguém fabricou

O outro braço do crime que atravessa o círculo do candidato não é facção de prisão — é a milícia, a forma de crime organizado que nasce do Estado, contra o Estado, que se financia com serviços públicos extorquidos e que cresce sob o manto da política e da polícia.

O mapa mais completo já feito sobre o tema, do laboratório da Universidade Federal Fluminense, o GENI, mostra que a área sob controle direto das milícias na região metropolitana do Rio cresceu 315% entre 2007 e 2024 — um aumento de 103 km². Em 2024, as milícias controlavam ou influenciavam 49,4% dos territórios classificados como sob domínio ou influência de grupos armados. A Zona Oeste é o coração desse domínio.

E a ligação do círculo de Flávio com o mundo que gerou a milícia é antiga e documentada. Dois nomes atravessam as duas pontas — o da política e o do crime:

👉 Fabrício Queiroz. O motorista e assessor de Flávio no gabinete da Assembleia foi o centro da investigação da rachadinha. Investigações policiais e do Ministério Público relataram pelo menos sete ligações entre Queiroz e o ex-capitão Adriano da Nóbrega — um dos nomes mais conhecidos da milícia da Zona Oeste. Queiroz foi nomeado para o gabinete de Flávio em 2007.

👉 Adriano da Nóbrega. O ex-capitão, chefe do antigo Escritório do Crime, o braço armado da milícia de Rio das Pedras, é o nome que une os dois mundos. As investigações relataram que a ex-mulher, a mãe e a mulher de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio na Assembleia. E, segundo o MP, Adriano ficava com parte dos pagamentos dessas contratações. Em 2005, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro foi o autor da proposta que concedeu a medalha Tiradentes a Adriano da Nóbrega — a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio. A resolução que comprova a homenagem é documento público.

Pare nessa medalha. A proposta de condecorar o homem que depois o MP descreveria como líder do braço armado da milícia — apresentada pelo deputado que se tornaria senador e hoje pede seu voto para presidente — não é prova de crime. É prova de escolha. E o padrão dessa escolha é o fio que atravessa toda a trajetória: Queiroz no gabinete, Adriano condecorado, os familiares de Adriano contratados, Canella apoiado “100%”, Bacellar articulado para o governo, TH Joias como aliado. O candidato não precisa ser membro do crime para ter, ao redor de si, uma constelação recorrente de protagonistas das investigações do crime.

O que os dossiês chamam — e o que o eleitor deve decidir

Aqui, a honestidade que protege este texto — e que é o que falta no noticiário de campanha. Há uma linha que separa o documentado da hipótese, e esta matéria não vai cruzá-la, porque cruzá-la seria entregar a derrubada ao adversário.

O que é fato documentado e verificável: os três aliados presos; dois réus no STF por unanimidade; o esquema do CV com R$ 7,6 bilhões movimentados segundo o Coaf; o “apoio integral, 100%” a Canella; a mãe como suplente; os 83% dos votos de Canella vindos de áreas sob controle do crime; a medalha Tiradentes para Adriano; a expansão territorial das milícias; e o poder constitucional de nomear PF, PGR e STF que a Presidência entrega.

O que seria desejável numa eleição presidencial é, dada a importância do que está em jogo e a folha corrida dos acontecimentos, “provar que Flávio é do crime”. Não há provas. Mas “mostrar que eleger Flávio cria um risco inaceitável de captura do Estado pelo crime” é perfeitamente certo e robustamente comprovado. O eleitor não é juiz — e não precisa se comportar como um. O eleitor vota por risco, não por sentença.

E o risco aqui é objetivo, não retórico. Um candidato com esse círculo — documentado — recebendo da Constituição o poder de nomear quem comanda a PF, quem acusa no Ministério Público e quem julga no STF. Um candidato cujo círculo político é, em larga medida, exatamente a constelação de nomes que as investigações apontam como o caminho do crime até a política. Um candidato que, na reta final, não abre o próprio sigilo — nem o das suas empresas — para dizer ao eleitor de onde veio o dinheiro que financia um círculo com a mãe na chapa de um réu.

A pergunta não é se Flávio Bolsonaro é criminoso. A pergunta é se o povo brasileiro vai entregar as chaves do Estado — a polícia, a acusação e o tribunal — a um homem cujo projeto político, na prática, foi levado adiante pelo braço político do crime que ele diz combater.

A escolha de domingo

Domingo, o Brasil vota. E o voto é a única decisão de governo que não passa pelo crivo de quem Flávio nomearia. É a última votação antes do poder de nomeação mudar de mãos.

O que está em jogo em 25 de outubro não é “Lula contra Flávio” como candidatos. É o desenho do Estado pelos próximos anos. É a resposta a uma pergunta que o eleitor precisa se fazer, com o dossiê na mão:

Se um candidato escolheu, para o círculo político mais próximo, os homens que a Polícia Federal e o Ministério Público descrevem como o braço político do crime organizado — o que esse candidato fará com o poder de nomear o diretor da Polícia Federal, o procurador-geral da República e os ministros do Supremo?

O mapa do crime não mente: 315% de expansão miliciana, R$ 7,6 bilhões do esquema da facção, 83% de votos de território dominado. E o candidato que esse mapa cerca pede seu voto com a mão que um dia condecorou Adriano e apoiou “100%” Canella.

Votar em Flávio Bolsonaro não é, nas palavras que este momento exige de nós com a precisão de um documento: é entregar ao risco documentado de captura do Estado tudo aquilo que o Estado tem de mais perigoso nas mãos erradas — a polícia, a acusação e o tribunal. A urna de domingo é o último lugar onde o voto ainda decide antes de o poder de nomear decidir tudo.

O eleitor não precisa provar que Flávio é do crime. Basta ver o círculo e perguntar a si mesmo: a essas pessoas, eu confiaria as chaves?

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