Derrotada, direita torna-se violenta

Perseguem pessoas e empresas, pregam envenanemento, assassinato e estupro de crianças

Por Frente Livre com Brasil de Fato
assédio eleitoral
Presidente do TST, ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho: "Trabalhadores, não temam!". Foto: Luiz Silveira/Agência CNJ

A eleição acabou no domingo (25), Lula foi reeleito e a direita descobriu uma nova vocação: cobrar a conta de quem votou no vencedor. E com tal virulência que já se falou em envenenar fontes de abastecimento de água e violentar crianças, filhas de eleitores petistas. Em três dias úteis, o Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 1.143 denúncias de assédio eleitoral — um terço de tudo o que registrou após o resultado. No total do ano, são 3.290 casos, mais do que os 3.373 de toda a eleição de 2022.

A vingança tem nome de campanha publicitária: “Demita um petista”. Passou por vereadora no Paraná pedindo que seguidores demitissem funcionários e rompessem com prestadores de serviço, por deputada estadual no Rio sugerindo que patrões fuçassem as redes sociais dos empregados, e chegou a um site que organiza boicote a empresas que tenham donos ou funcionários apoiadores de Lula.

E aí, o truque é sempre o mesmo: ninguém escreve na carta de demissão que a causa foi o voto — o que é crime. Escreve “corte de custos”, “reestruturação”, “não está performando”. O trabalhador que precisa pagar o aluguel no dia 5 sabe ler nas entrelinhas.

 

 

Em Macaé (RJ), a procuradora municipal Renata Pinto Rodrigues Pimentel Ribeiro foi afastada por 30 dias enquanto é investigada em processo administrativo disciplinar. A medida foi tomada após a repercussão de publicações nas redes sociais com ataques a petistas, nordestinos e mineiros.

Em uma das postagens, Renata afirmou que não faria políticas públicas para petistas e aconselhou empresários a não contratar “artistas, pobres nordestinos e mineiros”. Ela também se apresentou como “autoridade pública municipal” e escreveu que seus filhos continuariam tendo “tudo de bom e do melhor”.

O caso foi encaminhado à Procuradoria-Geral de Macaé. Com a repercussão, vieram à tona publicações antigas atribuídas à procuradora: em 2025, ela teria chamado pessoas de esquerda de “nazistas” e escrito que, se pudesse, “metralhava a todos”. Ao G1, Ribeiro alegou que as mensagens foram publicadas em perfis privados. O PT de Macaé afirmou que as declarações atingem a dignidade de pessoas que vivem e trabalham no município.

O Judiciário teve de ensinar o óbvio

A reação veio em três frentes. A 4ª Vara do Trabalho de Fortaleza determinou a reintegração imediata de 22 trabalhadores de uma fábrica de confecções demitidos sumariamente na segunda-feira (26), com multa de R$ 5 mil por funcionário e direito a retratação pública. A audiência inaugural ficou marcada para 13 de novembro.

A Justiça do Trabalho de São Paulo determinou que a Meta retire do ar, em 24 horas, publicações que incentivem patrões a vigiar, expor e demitir funcionários pelo voto — sob multa de R$ 500 mil por conteúdo mantido. A liminar do juiz Bruno José Perusso, da 77ª Vara do Trabalho de São Paulo, atendeu ação civil pública do MPT, que pede R$ 50 milhões de indenização por danos morais coletivos. A Meta também terá de exibir aviso por cinco dias seguidos no Instagram, Facebook e Threads informando que discriminação política é proibida.

O texto da decisão vale ser lido devagar:

Uma coisa é externar opinião política ou crítica partidária. Outra, inteiramente distinta e ilícita, é utilizar as plataformas digitais para instigar a punição de trabalhadores por suas escolhas ideológicas”.

O Ministério da Justiça notificou ao menos quatro empresas que anunciaram boicote a apoiadores de Lula, por publicações em redes sociais ou placas dizendo que não atenderiam clientes de esquerda. Os estabelecimentos têm cinco dias úteis para se explicar. Um frigorífico de Goiânia, de dono próximo à família Bolsonaro, tinha cartaz com “Petista aqui não é bem-vindo” — trocou por “bandido aqui não é bem-vindo, e nem quem vota em bandido”, e o Tribunal de Justiça de Goiás viu ali tentativa de “manter, de forma implícita, a prática discriminatória”.

Das escolas aos terreiros, a onda é uma só

O veneno não ficou no escritório. No Rio, estudantes de uma escola na Barra da Tijuca foram expostos no Instagram, com ofensas sobre condição social e ameaças, por apoiarem Lula — os pais registraram ocorrência na Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV). Em outro episódio, o deboche virou sentença de classe: “Votou 13 porque é pobre”. No Pará, uma professora foi afastada após publicar mensagens incitando violência sexual contra filhos de eleitores de Lula.

E o ataque chegou ao território. O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) acionou a Polícia Federal (PF) para investigar a violência contra indígenas Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Na quinta (29), a casa da rezadeira Ñandesy Roberta, de 90 anos, foi incendiada na aldeia Jaguapiré, em Tacuru — e com ela queimaram os instrumentos sagrados do povo. Na quarta (28), um servidor da prefeitura foi afastado após sugerir envenenar a água dos indígenas da aldeia Sassoró. No domingo (25), uma família inteira foi assassinada em Naviraí e houve atropelamentos em Coronel Sapucaia, com uma morte. A deputada federal Célia Xakriabá (Psol-MG) denunciou ainda incêndio no território Tikm’n, o Maxakali, em Minas.

 

Os que fizeram o L

Enquanto isso, o outro lado da mesma história. Lula venceu no Rio com 1.898.391 votos (51,54%), e na Rocinha chegou a 71,8%, contra 28,2% de Flávio Bolsonaro — recorte que abrange 59 seções e 24.537 eleitores. A favela vota no PT 20 pontos acima da média carioca desde 2018, e a diferença em relação ao restante da cidade subiu de 10 pontos em 2006 para mais de 20.

“Fomos para a rua conversar com o morador, amigos, parentes, vizinhos, panfletar com a juventude do MST, conscientizar de que a gente precisava reeleger nosso querido Lula. Ele é sempre muito bem votado na Rocinha. Fizemos uma grande passeata no dia 24 e foi a coisa mais linda”, conta Lene da Rocinha, da coordenação do Movimento Brasil Popular no Rio. Neste sábado (31), a comunidade comemora com feijoada em homenagem “ao cidadão do mundo chamado Lula”.

O país tem os dois retratos lado a lado: de um lado, quem organizou passeata para explicar Bolsa Família, PAC das Favelas e saneamento. Do outro, quem organizou lista para demitir. A eleição terminou, mas a disputa sobre o que o Brasil será continua — e o que se vê não é uma nação dividida, é parte dela tentando punir a outra por existir.