O ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou nesta quarta-feira (12) que mais de 5 milhões de brasileiros estão impedidos de apostar em plataformas de bets online. O número é composto por 1,2 milhão de pessoas que optaram voluntariamente pela autoexclusão, 800 mil que aderiram ao Desenrola e ficam impedidas por seis meses, e 3 milhões de inscritos no Bolsa Família ou que recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Durigan foi direto:
“A gente chega a mais de 5 milhões de pessoas excluídas do jogo no Brasil, nesse compromisso de tratar as bets como cigarro, no desincentivo ao jogo no país.”
O Estado descobriu que pode regular, bloquear e proteger. A pergunta é por que demorou tanto.
O Bolsa Família que financia a própria destruição
Três milhões dos 5 milhões de impedidos são beneficiários do Bolsa Família ou do BPC. Ou seja: o Estado brasileiro reconheceu que o dinheiro da transferência de renda — que deveria garantir comida, escola, dignidade — estava sendo desviado para plataformas de apostas. O Bolsa Família, que tira gente da miséria, estava colocando gente de volta na miséria via bet. O Estado criou o remédio e a doença. Agora está tentando separar os dois.
A comparação com o cigarro é exata — mas deveria ser levada às últimas consequências. O cigarro foi regulado, tributado, restrito em publicidade, proibido para menores e submetido a advertências obrigatórias. As bets estão no mesmo caminho. Mas o cigarro nunca foi proibido para beneficiários do Bolsa Família. As bets foram. Por quê? Porque o cigarro mata o corpo. As bets matam a economia familiar inteira — e o Estado, que paga o Bolsa Família, não pode financiar a própria destruição.
A medida é correta. Mas o diagnóstico é tardio. As bets operaram no Brasil durante anos sem regulação, sem controle, sem transparência. Empreiteiras de lavagem de dinheiro disfarçadas de entretenimento. O Estado fechou os olhos enquanto milhões de brasileiros — a maioria pobre, a maioria desesperada — perdiam o que não tinham em plataformas desenhadas para sugar até o último centavo. Agora bloqueia. Melhor tarde do que nunca. Mas a conta dos anos de omissão já foi paga — com dinheiro do Bolsa Família.
A lavagem que o Estado sabe rastrear — quando quer
O detalhe mais revelador do anúncio de Durigan não está nos 5 milhões de impedidos. Está na menção à lavagem de dinheiro. O ministro informou que as operações deflagradas envolvem investigações relacionadas a crimes como lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. A Fazenda divulgou pareceres sobre a origem dos recursos das empresas de apostas. Mais de 2 mil páginas de documentos sobre idoneidade de controladores e mecanismos de prevenção.
O Estado que protege — quando quer
O Estado brasileiro provou, nas últimas semanas, que pode proteger. Fez com as bets. Fez com o Pix pensão alimentícia — débito automático na conta do devedor, bloqueio de ativos em caso de saldo insuficiente. Fez com o Desenrola — renegociação de dívidas com bloqueio de apostas. Fez com a transparência das bets — 2 mil páginas de documentos publicados. Quando quer, age.
O ministro Durigan disse que trata as bets como cigarro. Bom. Mas o cigarro tem advertência obrigatória na embalagem. O Banco Master deveria ter também: “Este banco pode causar lavagem de dinheiro, prejuízo à previdência pública e financiamento de campanha eleitoral ilícito. Consulte seu ministro do STF antes de usar.”






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