O vídeo em que Michelle Bolsonaro detona Flávio Bolsonaro não surgiu isolado. Ele é o desfecho de uma escalada pública provocada por uma publicação de Eduardo Bolsonaro, que compartilhou um vídeo de André Fernandes defendendo a aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará e ainda mandou um recado à madrasta: “não se faz política com o fígado”.
O que parecia mais uma troca de farpas sobre palanque regional virou a origem de uma ligação de Flávio para Michelle e, depois, de um relato público de humilhação feito pela ex-primeira-dama.
No post, Eduardo Bolsonaro atrelou a aliança com Ciro Gomes à possibilidade de obter “1 voto” para a aprovação da anistia de Jair Bolsonaro. Em seguida, elogiou Jair Bolsonaro e André Fernandes por, segundo ele, fazerem política com “inteligência”. O alvo implícito era Michelle, que vinha criticando o acordo com o ex-ministro no Ceará.
A publicação que Eduardo Bolsonaro respondeu também serviu para escalar a provocação. Nele, André Fernandes reafirma que vota em Ciro Gomes, descarta Eduardo Girão e reage às críticas de Michelle. Ao ser provocado sobre a ex-primeira-dama, o deputado diz que ela “faz o que ela quiser” e mantém o apoio ao cearense.
1. A aliança com Ciro Gomes no Ceará teve autorização de @jairbolsonaro. Ninguém me contou. Eu vi. Estava no almoço em Fortaleza quando isso ocorreu.
2. O @andrefernm está corretíssimo. Fazendo política como deve ser. Está sendo leal e pragmático. Pensando no Ceará e não nele. pic.twitter.com/KcaSsOacMJ
— Professor Carlos Barros (@profcabarros) June 23, 2026
Foi depois dessa sequência que, segundo Michelle, Flávio Bolsonaro a procurou por telefone. No vídeo publicado por ela, a ex-primeira-dama afirma que o senador foi ríspido, a desrespeitou e a maltratou durante a conversa. Ela também disse ter entendido que seu apoio à pré-candidatura presidencial dele era considerado irrelevante.
A frase mais danosa para Flávio Bolsonaro não é apenas a acusação de grosseria. É o sentido político que Michelle atribuiu à conversa. Ao dizer que foi tratada como alguém que “chegou ontem” e não entende de política, ela transformou a disputa sobre Ciro Gomes em uma denúncia de desprezo pela principal liderança feminina do bolsonarismo.
O estrago é maior porque Michelle não fala apenas como madrasta. Ela fala como presidente do PL Mulher, liderança evangélica e figura que construiu parte da ponte do bolsonarismo com mulheres conservadoras. A tentativa de enquadrá-la como alguém movida pelo “fígado” bate exatamente no eleitorado que vê nela fé, lealdade e autoridade moral.
Com isso, a postagem que pretendia justificar a aliança com Ciro Gomes acabou produzindo o efeito contrário. Em vez de isolar Michelle, abriu caminho para que ela expusesse publicamente a falta de unidade do clã e atingisse Flávio Bolsonaro no ponto mais sensível de sua campanha: a tentativa de herdar o capital político de Jair Bolsonaro sem perder o apoio da base feminina e evangélica.





Deixe seu comentário