A delação premiada negociada por Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e dono do Banco Master, virou alvo de descrédito dentro da própria investigação. Para a Polícia Federal e para o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), o material entregue é frágil, omisso e constrói uma narrativa que pinça inimigos úteis enquanto poupa aliados estratégicos — entre eles os senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Davi Alcolumbre (União-AP). A operação da PF contra endereços ligados a Ciro, realizada na quinta-feira, abriu caminho para que a delação seja simplesmente rejeitada.
Delação apontaria rivais e protegeria caciques aliados
Segundo a PF, há indícios de que Ciro recebia repasses mensais de R$ 300 mil a R$ 500 mil por meio do primo de Vorcaro, Felipe Vorcaro, preso na ação. O inquérito menciona crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A corporação afirma ainda que a equipe jurídica do Master redigiu a emenda apresentada por Ciro que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), favorecendo diretamente o banco. A defesa do senador nega.
Apesar disso, a delação de Vorcaro evita aprofundar o papel de Ciro e de Alcolumbre. Mendonça já sinalizou que não deve homologar o acordo porque o ex-banqueiro tenta proteger aliados e omitir relações relevantes, inclusive a sua ligação com o presidente do Senado. O ministro cobrou explicações detalhadas sobre essa relação — que não vieram.
Vorcaro também miraria ministros do STF
Nos bastidores, investigadores afirmam que a delação inclui personagens pinçados, entre eles os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
Toffoli está diretamente envolvido. Em 2021, a empresa de que é sócio, a Maridt Participações, vendeu parte do Resort Tayayá, no Paraná, ao fundo Arleen, que era, ao final de uma sucessão de participações, controlado por Daniel Vorcaro. O negócio foi grande, R$ 20 milhões, e sua concretização traça uma incrível teia política. O fundo Arleen era controlado pelo pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. E, além disso, dirigente da Igreja Batista da Lagoinha, a mesma que dá suporte político ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que fez campanha para Jair Bolsonaro em 2022 voando no jatinho de André Valadão, o chefão da Lagoinha.
O caso de Alexandre de Moraes é igualmente cabeludo. O escritório de advocacia da esposa dele, Viviane Barci de Moraes, foi contratada pelo Master por R$ 129 milhões para prestar-lhe consultoria jurídica. O valor por si só é suspeito, porque é muitos milhares de reais acima do valor de mercado. Segundo o próprio escritório explicou, o serviço que prestou entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025 foi a construção de uma política de compliance para o Banco Master. Sobre isso, o próprio nome dado pela Polícia Federal à operação revela-se profético: Compliance Zero. Ou seja, se prestou mesmo esse serviço, o escritório da esposa do ministro do STF é, no mínimo, péssimo naquilo que faz.
De toda forma, a queda de Moraes é ansiada pela extrema direita, cujo plano é defender o perdão a Bolsonaro, que, nesta narrativa, teria sido condenado por um juiz corrupto. Óbvio que se trata de uma maluquice. Mas a extrema direita já provou várias vezes que lucidez e coerência não é algo que valorize.
A leitura é de que Daniel Vorcaro tenta criar uma delação com alvos de alto impacto político para ganhar valor de troca, ao mesmo tempo em que preserva quem lhe garante influência e sobrevivência institucional.
Mesadas, viagens e o fio que segue puxando
A PF identificou que Vorcaro pagou despesas pessoais do senador e ex-chefe da Casa Civil da gestão Bolsonaro Ciro Nogueira em viagens internacionais, incluindo hospedagem no Park Hyatt, em Nova York, onde diárias superam R$ 130 mil, além de gastos em restaurantes e cartões usados para consumo privado.
Enquanto isso, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, teria reclamado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva das investigações. O senador teve aliados que investiram R$ 400 milhões em papéis de alto risco do Master. Nas semanas seguintes, atuou para barrar a indicação de Jorge Messias ao STF.
Diante da delação mandraque que está tentando emplacar, a PF pediu o retorno de Vorcaro ao sistema penitenciário federal. No campo político, o neofascista Flávio Bolsonaro chamou as revelações de “graves” — sem citar Ciro, que já foi cogitado como seu potencial candidato a vice — e aliados admitem danos à pré-campanha. Para analistas, a operação apenas começou a puxar o fio das relações entre o Master e o centrão.
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