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Cleitinho é candidato, não é, nunca foi, e agora é de novo. Ou não

Extrema direita transforma eleição em MG em esculhambação

Cleitinho Azevedo Minas Gerais
Cleitinho, na convenção do Republicanos, depois de dizer que não queria ser candidato, dá o dito pelo não dito alegando que o espírito santo o fez mudar de ideia. Foto: Reprodução Redes Sociais

Minas Gerais é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil. São 15,6 milhões de eleitores, distribuídos em 853 municípios, do Triângulo ao Jequitinhonha, da capital ao sertão. Em toda eleição presidencial desde a redemocratização, o que acontece em Minas reflete no país inteiro, e o que acontece no país inteiro reflete em Minas. É o estado onde Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados no primeiro turno, 30% a 29% segundo a Genial/Quaest, e onde um palanque forte de governador pode fazer a diferença entre vitória e derrota em outubro. É neste estado, neste contexto, neste tabuleiro, que a extrema direita evangélica decidiu instalar o seu circo. E o mestre de cerimônias é o senador Cleiton Gontijo de Azevedo, conhecido por todos como Cleitinho, Republicanos-MG, o homem que lidera as pesquisas com 35% das intenções de voto, 23 pontos à frente do segundo colocado, e que mesmo assim conseguiu, em 48 horas, ser candidato, não ser, e não ser nada. Tudo isso enquanto conversava com o irmão morto por inteligência artificial. É preciso talento para afrontar sem aparentemente ser punido a inteligência e a paciência do eleitor. Ele tem.

O perfil da besta quadrada

Cleitinho, 44 anos, natural de Divinópolis, no centro-oeste mineiro, vem de família de comerciantes do varejão. É músico nas horas vagas, ou pelo menos se apresenta como tal. Foi eleito vereador em 2016 com 3.023 votos, deputado estadual em 2018, e senador em 2022 com 4.268.193 votos, a maior votação da história de Minas Gerais para o Senado. Tem 4,5 milhões de seguidores no Instagram. O site oficial do Senado lista seu nome civil como Cleiton Gontijo de Azevedo. O site do Republicanos diz que ele “vem de origem humilde” e “trabalhou com o pai e os irmãos no varejão da família.” A biografia oficial, que ele mesmo escreveu, diz que sua atuação política tem como foco “as críticas aos privilégios dos políticos.” A realidade é um pouco diferente.

A coluna Esquerdinhas, da Frente Livre, publicou em 16 de dezembro de 2025 um texto cujo título é o diagnóstico mais preciso que já se fez do personagem: “Senador Cleitinho é um besta quadrada e eu posso provar.” Doze dias depois, em 28 de dezembro, a mesma coluna publicou outro, com o título “É, Cleitinho é uma besta quadrada. Mas a gente já tá se repetindo.” A repetição não é preguiça. É necessidade. O senador não para. Em 14 de janeiro de 2026, nova coluna: “Cleitinho postando fake news de novo!” O “de novo” é a chave. Não é a primeira vez. Não é a segunda. É a enésima.

O histórico é farto. A Justiça determinou, em setembro de 2022, que Cleitinho apagasse um vídeo falso que havia postado. O UOL Confere, em 13 de janeiro de 2026, checou e desmentiu um vídeo em que o senador aparecia divulgando uma suposta indenização de até R$ 5 mil para brasileiros que tiveram dados vazados em 2019. O vídeo era manipulado por inteligência artificial. Na gravação original, ele falava sobre a proposta do governo de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. Alguém pegou o vídeo, alterou com IA, e ele circulou. Cleitinho, em vez de verificar, postou. Em abril de 2026, o senador desafiou publicamente o ministro Gilmar Mendes, do STF, a incluí-lo no Inquérito das Fake News. “Pode me investigar”, disse. O desafio é de quem sabe que a impunidade protege. E protege porque o tempo da Justiça é lento e o tempo da desinformação é instantâneo.

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A novela da candidatura

A saga de Cleitinho na disputa pelo governo de Minas Gerais é uma peça de teatro do absurdo que merece ser narrada em ordem cronológica, porque a ordem cronológica é a prova do caráter.

Na sexta-feira, 25 de julho, Cleitinho disse que seria candidato ao Palácio da Liberdade. Na segunda-feira, 27, avisou a uma liderança do PL e ao próprio irmão, o deputado estadual Eduardo Azevedo (PL), que seria candidato. A informação foi recebida com alívio pelo entorno de Flávio Bolsonaro, que precisa desesperadamente de um palanque forte em Minas para tentar sobreviver à própria candidatura. Na terça-feira, 28, um dia depois, Cleitinho publicou um vídeo feito com inteligência artificial em que aparece conversando com o pai, José Maria Azevedo, e com o irmão Matheus Azevedo, ambos mortos. Matheus havia falecido no dia 18 de julho, vítima de leucemia. Dez dias de luto. Na montagem, o irmão falecido diz a Cleitinho: “Vá e faça o que precisa ser feito. Nosso pai e eu estamos sendo muito bem cuidados aqui em cima, estaremos orgulhosos de você. Seja forte e corajoso. Não olhe nem para a esquerda nem para a direita, siga em frente.” É isso mesmo que você leu. Um candidato que não decide se é candidato usou inteligência artificial para fazer o irmão morto falar. Em vez de ir à convenção do partido, preferiu conversar com um cadáver virtual.

E aqui há algo que precisa ser falado. Se Cleitinho postou de boa fé acreditando mesmo que aquela fala pode de alguma forma ter alguma relação real com o irmão falecido, trata-se de algum grau de déficit de cognição. Agora se postou de má fé, usando IA para amplificar o próprio luto, ou seja, usou o irmão morto para comover o eleitorado, aí já é questão de mau caratismo mesmo. Das duas uma: o candidato que lidera as pesquisas em Minas ou é pateta ou é patife.

Na quarta-feira, 29, o presidente nacional do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), soltou uma nota informando que Cleitinho não seria candidato. O comunicado é uma peça rara de sinceridade partidária, e, por isso mesmo, uma facada nas costas. A legenda afirmou que “a ausência do senador na Convenção Estadual do Republicanos, apesar das justificativas pessoais, representou um fato político objetivo, que produziu consequências inevitáveis.” E continuou: “Uma candidatura exige, antes de tudo, a decisão firme de quem pretende disputá-la. Esse compromisso jamais pode ser substituído por sinais contraditórios, sucessivos recuos ou indefinições que acabam comprometendo a construção de um projeto coletivo.” A frase final é uma obra-prima da indireta partidária: “O partido trabalhou duro para que essa candidatura pudesse acontecer. O que faltou foi a decisão inequívoca de quem deveria ser, em primeiro lugar, candidato de si mesmo.”

Traduzindo: Cleitinho não teve coragem de se candidatar. E o partido cansou de esperar.

Na terça-feira, 4 de agosto, durante a convenção nacional do Republicanos, Cleitinho interrompeu o evento para pedir, publicamente, para ser candidato. Marcos Pereira o repreendeu na hora. O partido já tinha decidido que não ia contar com ele, temendo uma desistência durante a campanha de fato. E quem teme desistência durante a campanha é porque conhece o personagem. Na sexta-feira, 6 de agosto, o diretório estadual do Republicanos em Minas Gerais comunicou à Justiça Eleitoral que lançaria candidatos próprios a governador, vice e senador, sem Cleitinho. Chapa pura. Sem o senador. Fim da linha.

E então, no sábado, 7 de agosto, Cleitinho foi a São Paulo. Conversou com Marcos Pereira. E o partido recuou. Decidiu que vai liberá-lo para ser candidato ao governo de Minas. A justificativa de Marcos Pereira é de uma candura que beira o ridículo: o partido mudou de ideia “diante da ajuda que ele dá para eleger bancada” em Minas e “o aprendizado dele em respeitar o processo partidário.” Aprendizado. O senador que mudou de ideia três vezes, que faltou à própria convenção, que conversou com irmão morto em vez de comparecer à sede do partido, que foi rifado duas vezes pela própria legenda, aprendeu a respeitar o processo partidário. Em 24 horas. Aprendeu. O partido acreditou. Ou fingiu que acreditou, porque a alternativa era ficar sem candidato em Minas e sem bancada.

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A conta que Flávio paga

O caos em Minas não é problema só de Cleitinho. É problema de Flávio Bolsonaro. O PL apostava em Cleitinho como o palanque que impulsionaria o filho fascista do ex-presidente golpista no segundo maior colégio eleitoral do país. Diante da indisponibilidade inicial do senador, Flávio decidiu lançar o ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, ao governo. O partido também tem o deputado federal Domingos Sávio concorrendo ao Senado. Mas Roscoe não é Cleitinho. Não tem 4,5 milhões de seguidores no Instagram. Não tem 35% nas pesquisas. Não tem o apelo evangélico que move a base bolsonarista. E não tem, sobretudo, a capacidade de arrastar multidões no interior mineiro, onde o voto é de cabresto e o cabo eleitoral é tudo.

O Republicanos, enquanto Cleitinho decidia se decidia, já havia oficializado apoio ao ex-secretário de Governo de Minas, Marcelo Aro (PP), numa reunião com a participação de Aro, Flávio Bolsonaro e Marcos Pereira. Agora, com a reversão, tudo volta à estaca zero. Ou não. Porque Cleitinho, mesmo sendo candidato, é uma variável instável. O homem que mudou de ideia três vezes em duas semanas pode mudar uma quarta. E se mudar em setembro, a janela eleitoral fecha e o partido fica sem candidato. O risco é calculado, mas é risco. E o partido que o assume é o mesmo que, há três dias, dizia que “o que faltou foi a decisão inequívoca de quem deveria ser, em primeiro lugar, candidato de si mesmo.”

O método da besta quadrada

O que a Frente Livre chamou de “besta quadrada” não é apenas a incapacidade de decidir. É o método. Cleitinho é o tipo de político que usa a desinformação como ferramenta de construção de base, que transforma o luto em palanque, que faz do irmão morto um avatar de IA para pedir voto, que desafia o STF porque sabe que a impunidade protege, que lidera pesquisas sem ter projeto, sem ter programa, sem ter proposta. O que ele tem é o Instagram, o micro-ondas do marketing digital, e a igreja, o forno a lenha do voto religioso. Com esses dois instrumentos, construiu 35% das intenções de voto em Minas Gerais. O número é real. O método é obsceno.

E é aqui que a esculhambação evangélica se revela como fenômeno político de consequências graves. Cleitinho não é um caso isolado. É o produto de uma engenharia que vem sendo montada há anos no Brasil: a fusão entre púlpito e urna, entre Bíblia e Constituição, entre fé e Estado. O Republicanos, partido de Marcos Pereira, é o braço político desse projeto.

A extrema direita evangélica transformou a eleição em Minas Gerais numa esculhambação porque não tem projeto. Tem marca. Tem Instagram. Tem igreja. Tem IA. Mas não tem projeto. O candidato que lidera as pesquisas não sabe se quer ser candidato. O partido que deveria apoiá-lo foi rifado duas vezes pelo próprio apoiado. O irmão do candidato, que é do PL, diz que “estão tentando se recompor” após a morte do outro irmão. O pré-candidato a presidente, Flávio Bolsonaro, que precisa de votos em Minas, fica a ver navios. E o eleitorado mineiro, que em pesquisa diz que votaria em Cleitinho em 35%, assiste a tudo e talvez ainda vote nele, porque a pesquisa mede intenção, não discernimento.

Se a eleição fosse um teste de competência política, a extrema direita já teria perdido antes de começar. Mas não é. É um teste de capacidade de mobilização, e a direita evangélica mobiliza com IA, com Instagram, com desinformação e com o irmão morto falando. E enquanto a esquerda discute programa, proposta e gestão, a direita fabrica cadáveres virtuais que pedem voto. O método é nojento. Mas funciona. E funcionar é o que assusta.

👀 Veja o vídeo do presidente nacional do Republicanos esculachando Cleitinho

 

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