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A suntuosa sede do BRB em Brasília: R$ 12 bilhões em títulos falsos e 15 anos de arrocho sobre a população. Foto: Paulo Henrique Carvalho/Agência Brasília
BRASIL

Roubalheira bolsonarista no BRB entra na fase de caça aos culpados

Assembleia do dia 24 pode abrir ações contra gestores de Ibaneis

O Banco de Brasília convocou uma Assembleia Geral Extraordinária para o dia 24 de agosto, às 10h, em formato digital. Os acionistas irão deliberar sobre a autorização para que a instituição proponha ações de responsabilidade civil contra ex-administradores no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura negócios envolvendo o Banco Master e empresas ligadas ao grupo Reag. O edital foi publicado no Diário Oficial do Distrito Federal desta segunda-feira (3). Em bom português: o banco que foi saqueado vai tentar processar os saqueadores. O problema é que os saqueadores foram colocados no banco pelo próprio controlador, o governo do Distrito Federal, então comandado por Ibaneis Rocha (MDB), o governador bolsonarista que renunciou em março e deixou o DF quebrado para Celina Leão (PP), sua vice, que era parte da gestão o tempo inteiro e agora diz “precisamos melhorar” depois de seis mortes no SUS.

A assembleia do dia 24 é o primeiro passo formal de responsabilização civil dos ex-gestores que conduziram o BRB ao abismo. Mas não é o primeiro passo da investigação. A investigação já corria há meses, e o que ela revela é um quadro de corrupção bolsonarista tão vasta, tão profunda e tão bem documentada que a assembleia do dia 24 mais parece o começo do fim de um enredo que já tem começo, meio e fim conhecidos. Falta apenas a sentença. E a sentença, quando vier, terá nomes: Ibaneis Rocha. Celina Leão.

O governador que sabia de tudo

A blindagem política de Ibaneis no escândalo do BRB ruiu de vez em 8 de janeiro de 2026, quando o ex-presidente do banco, Paulo Henrique Costa, preso e recolhido à Papuda, disse em depoimento ao Supremo Tribunal Federal que o governador foi informado sobre a operação de R$ 12,2 bilhões com o Banco Master. Questionado diretamente pelo ministro Dias Toffoli, então relator do caso, se Ibaneis sabia do negócio, Costa confirmou: o governador era comunicado sobre investimentos desse porte. Em uma tentativa de se proteger e, ao mesmo tempo, dividir responsabilidades, Costa afirmou que a decisão de comprar os ativos foi sua, baseada em uma avaliação “técnica”, e que o governador confiava em seu julgamento. Chegou a dizer que, em sua opinião, o negócio teria sido positivo se o Banco Central não tivesse liquidado o Master. A frase é de um homem que comprou R$ 12,2 bilhões em papéis falsos e ainda tenta convencer alguém de que fez boa compra.

Mas a gravidade ganhou contornos de fraude explícita com a revelação de que Daniel Vorcaro, o corruptíssimo ex-banqueiro do liquidado Banco Master, confirmou à Polícia Federal, em depoimento cujo sigilo foi retirado por Dias Toffoli, ter se reunido pessoalmente com Ibaneis. A admissão do banqueiro derruba a tese de que o governador desconhecia as tratativas que geraram um rombo bilionário no banco estatal. Vorcaro confirmou o encontro. Costa confirmou a ciência. Dois depoimentos, dois testemunhos, uma conclusão: Ibaneis sabia.

O terreno de 430% e o duplex de R$ 10 milhões

E há mais. Entre os ativos “podres” entregues pelo Master ao BRB para cobrir o buraco, está um terreno em Minas Gerais com valor inflado em mais de 400%. O Banco Master adquiriu o imóvel por R$ 22 milhões. Pouco tempo depois, repassou ao BRB atribuindo-lhe o valor de R$ 118 milhões. Como se a supervalorização contábil não bastasse, o ativo é um “mico” jurídico: trata-se de um loteamento embargado pela prefeitura local devido a irregularidades ambientais. Ou seja, a gestão do BRB, nomeada por Ibaneis, aceitou trocar dinheiro público por um terreno impedido de ser construído e com preço anabolizado em cinco vezes o seu valor real. R$ 22 milhões viraram R$ 118 milhões por mágica contábil, e o contribuinte do DF pagou a conta.

E há o duplex. A Polícia Federal investiga a compra de um imóvel de R$ 10 milhões no Noroeste, área nobre da capital, pelo filho de Ibaneis, o advogado Caio Carvalho Barros, que atua no escritório Ibaneis Advogados e Consultoria. Documentos revelam que Barros adquiriu o imóvel de 467 metros quadrados por R$ 9,25 milhões em março de 2025. Parte do pagamento utilizou verbas de um fundo da gestora Reag. Uma semana antes da aquisição, Barros contraiu um empréstimo de R$ 5,9 milhões junto ao BRB, instituição controlada pelo governo de seu pai. A operação imobiliária ocorreu logo após o escritório de advocacia da família fechar um contrato de R$ 38 milhões com um fundo ligado à Reag para a venda de honorários de precatórios. O negócio foi firmado pouco antes de o BRB iniciar a compra de carteiras de crédito do Banco Master, instituição que tem a gestora como uma de suas estruturas centrais.

Aqui é preciso um esclarecimento. A Reag foi descoberta em outra operação da Polícia Federal, a Operação Carbono Oculto, que apurou uma zorra de bancos e fintechs da Faria Lima lavando dinheiro sujo do PCC. O Banco Master estava no meio dessa barafunda, porque usava a mesma encanação financeira da Reag para movimentar dinheiro de um lado para o outro. Ou seja, o esquema do Master usou o mesmo cano que o PCC usava para transmitir a grana. Mas isso não significa que haja ligação entre Ibaneis, ou seu filho, e o PCC. O dinheiro que chegou ao duplex era do Master, que circulava pela infraestrutura da Reag. A Reag era o cano. O PCC também usava o cano. Mas quem bebeu da água do Master não é, por isso, sócio do PCC. São duas águas diferentes no mesmo cano, e confundir uma com a outra é desonesto. O que existe, e basta, é o dinheiro do Master chegando ao filho do governador através da estrutura da Reag, com o empréstimo do BRB completando a compra. Isso já é suficiente.

Em bom português: enquanto de um lado o BRB pagava bilhões ao Master por papéis que não valiam nada, de outro, o governador, que mandava no BRB, recebia milhões de um contrato privado pago por um fundo ligado ao próprio Master. O escritório de Ibaneis recebeu R$ 38 milhões. O filho comprou um duplex de R$ 10 milhões com dinheiro da Reag, que era o cano do Master. O BRB emprestou R$ 5,9 milhões ao filho do governador uma semana antes da compra. A cadeia é esta: Master, Reag, BRB, Ibaneis, filho, duplex. Cada elo é documento. Cada documento é prova. E nenhum deles precisa do PCC para ser grave. Já é grave demais sem ele.

A captura privada do banco

Uma auditoria interna contratada pelo BRB, revelada em 25 de abril de 2026, reforçou a tese de que a relação entre o banco público e o Banco Master não foi acidente administrativo, mas parte de um esquema premeditado. O documento mostra que acionistas ligados ao Master aumentaram sua participação no capital do BRB de apenas 0,0007%, no início de 2024, para 23,5% ao final de 2025. O salto de 33 mil vezes, promovido por estruturas pulverizadas e uso de “laranjas”, coincidiu exatamente com o período de compra de carteiras podres do Master pelo BRB. Para investigadores da Operação Compliance Zero, o movimento é prova de fraude estruturada: ao infiltrar acionistas privados no banco público durante a fusão de ativos, os beneficiários garantiram influência direta e lucro sobre operações hoje sob investigação. O relatório cita Vorcaro e outros nomes já identificados pela PF como centrais na engenharia do esquema, que prosperou durante a gestão de Paulo Henrique Costa, preso desde 16 de abril.

O banco zumbi e o BC de mãos amarradas

O Banco Central pediu explicações ao BRB. Quer saber quanto do capital de giro diário do banco é composto atualmente de recursos do Tesouro do Distrito Federal, controlador da instituição. O regulador não justificou a finalidade da pergunta, o que, no jargão dos corredores de Brasília, significa que já sabe a resposta e quer ver se o banco tem coragem de dizer. O BRB negou que sua liquidez decorra de “medidas extraordinárias” e afirmou que “honra compromissos.” A frase é de quem sabe que está sendo observado e precisa parecer normal. Não está. Não é.

O BC não liquida o BRB por três razões, e nenhuma delas é bonita. A primeira é o risco sistêmico: se o BRB cai, o Fundo Garantidor de Créditos, que protege o dinheiro depositado por milhões de brasileiros em bancos de todo o país, pode evaporar. O rombo é tão grande que pode furar a almofada. A segunda é a proteção política: o caso corre no STF por meio de dois ministros. Luiz Fux homologou o acordo de socorro de R$ 6,6 bilhões com o FGC. André Mendonça investiga o crime do Caso Master. Os dois processos correm no mesmo tribunal, no mesmo prédio, no mesmo andar, sem que um converse publicamente com o outro. A terceira é o custo humano: se o BRB for liquidado, o balanço terá que ser publicado, a iliquidez será confessada, e a cadeia que liga o dinheiro do Tesouro distrital ao buraco do Master, e o buraco do Master à falta de médicos, as mortes nos hospitais e UPAs do DF, ficará nua, crua, irreversível.

O arrocho de 15 anos

A Câmara Legislativa do DF, em votação conduzida às escuras na noite de 9 de junho, aprovou por 11 votos a 9 o projeto que autoriza o governo de Celina Leão a contrair o empréstimo de até R$ 6,6 bilhões para salvar o BRB. A oposição denunciou a falta de transparência da manobra, que não apresentou informações básicas sobre juros, garantias ou impacto fiscal. O deputado Fábio Félix (Psol-DF) protestou: “A gente não tem anexos e sequer o presidente do BRB veio aqui e sentou nessa bancada para se explicar. Não dá para votar mais um projeto de lei às escuras.” O deputado Gabriel Magno (PT-DF) resumiu a tragédia: “São 15 anos sem reajuste para 79 mil servidores públicos. O jovem de 16 anos que sonha em ser servidor público não ingressará até os 31 anos de idade. Estamos condenando essa cidade por uma geração inteira.” A deputada Dayse Amarílio (PSB-DF) alertou: “Esse orçamento pode e vai sair da saúde e da educação.” E o deputado Chico Vigilante (PT-DF) foi categórico: “O projeto está autorizando a privatização do BRB.”

A fatura do desastre financeiro será paga com o sacrifício da classe trabalhadora. A base bolsonarista local joga a conta da corrupção no povo. 15 anos de arrocho fiscal. 79 mil servidores sem reajuste. Saúde e educação esvaziadas. Enquanto o ex-presidente do banco segue preso e a direita distrital garante que os banqueiros do Master saiam ilesos, transferindo o prejuízo bilionário para a população que depende do Estado.

A conexão bolsonarista

E é aqui que o caso do BRB deixa de ser um escândalo financeiro local e se revela como capítulo da roubalheira bolsonarista. O Banco Master, de Daniel Vorcaro, é o mesmo banco que, segundo reportagem da revista Veja, pagou 30 milhões de dólares em propina a Alcolumbre, presidente do Senado. É o mesmo banco que tem áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro para pagar a produção do filme “Dark Horse”, que romantiza a eleição do golpista Jair Bolsonaro. O Intercept Brasil revelou que Flávio negociou US$ 24 milhões (R$ 134 milhões) com Vorcaro, dos quais US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) teriam sido transferidos em seis operações. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”, escreveu Flávio a Vorcaro em 16 de novembro de 2025, um dia antes de o banqueiro tentar fugir do país. A “luz” era dinheiro para o filme do pai.

O mesmo Vorcaro pagava mesada ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-chefe da Casa Civil no governo Bolsonaro, para representá-lo no Senado. O mesmo Master aplicou R$ 1 bilhão da RioPrevidência, administrada pelo bolsonarista Cláudio Castro. O mesmo Master cedeu avião para Nikolas Ferreira (PL-MG) rodar o país na campanha de 2022 pedindo votos para Bolsonaro. O mesmo Vorcaro se reuniu com Ibaneis, governador bolsonarista, que nomeou o presidente do BRB que comprou os papéis podres, e cujo escritório recebeu R$ 38 milhões de fundo ligado ao esquema, e cujo filho comprou duplex de R$ 10 milhões com verba da Reag.

A cadeia bolsonarista é esta: Vorcaro, o banqueiro corrupto, financiava Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira, Nikolas Ferreira, Cláudio Castro e Ibaneis Rocha. O BRB, banco estatal controlado por Ibaneis, repassou R$ 12,2 bilhões ao Master em papéis falsos. O escritório de Ibaneis recebeu R$ 38 milhões da Reag, ligada ao Master. O filho de Ibaneis comprou duplex com dinheiro da Reag. Paulo Henrique Costa, nomeado por Ibaneis, levou pelo menos R$ 140 milhões para fazer o que fez. O Banco Central exige provisionamento de até R$ 8,8 bilhões. O DF tem rombo de R$ 1 bilhão no caixa. O empréstimo de R$ 6,6 bilhões com o FGC não saiu porque bancos privados não aceitam as garantias. E a conta vai sobrar para o contribuinte do DF, que terá 15 anos de arrocho, saúde esvaziada, educação esvaziada, e seis mortes no SUS que não podem ser desfeitas.

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O cerco que fecha

A Polícia Federal já considera ter elementos para acusar Ibaneis de corrupção nas operações do BRB com o Banco Master. Ele tinha comando sobre Paulo Henrique Costa e pleno conhecimento de tudo o que estava acontecendo. Mais: seu escritório de advocacia recebeu dinheiro, o que confere materialidade. Uma operação de busca e apreensão contra Ibaneis já foi pedida pela PF à ministra Maria Isabel Galotti, do STJ, mas ela negou. Ex-presidente da OAB-DF e advogado prestigioso em Brasília, Ibaneis sempre se gabou do poder que detém nos bastidores do Poder Judiciário. Mas o poder de bastidor não protege contra depoimento de preso que entrega tudo. Paulo Henrique Costa chegou a instruir seus advogados a entabularem negociação de delação premiada. A coisa não andou por mau caratismo. Costa queria entregar todos os diretores do BRB, chefes de departamento, gerentes e assessores que o ajudaram a fazer a tramoia prosperar. Ouviu que delações premiadas só existem quando o delator entrega alguém acima, não abaixo. Acima de Costa, há um nome: Ibaneis.

E agora, no dia 24, o BRB convoca assembleia para autorizar ações de responsabilidade civil contra ex-gestores. O banco que foi saqueado vai tentar processar os saqueadores. Os saqueadores que foram colocados no banco pelo governador que controlava o banco. O governador cujo escritório recebeu R$ 38 milhões do esquema. O governador cujo filho comprou duplex com dinheiro do esquema. O governador que sabia de tudo, segundo o depoimento do homem que ele nomeou e que está preso. O governador que renunciou e deixou o DF quebrado para a vice que era parte da gestão e que agora aprova arrocho de 15 anos para pagar a conta da roubalheira.

A assembleia do dia 24 é o banco tentando se limpar. Mas a sujeira não sai. A sujeira é a gestão bolsonarista que capturou o banco público, injetou R$ 12,2 bilhões em papéis falsos, recebeu R$ 38 milhões em honorários de precatórios, comprou duplex com dinheiro de fundo ligado ao PCC, superfaturou terreno em 430%, já deixou pelo menos seis mortos na fila do SUS e impôs 15 anos de arrocho a 79 mil servidores e aos mais de dois milhões de brasileiros que habitam no DF. A sujeira tem nome: Ibaneis Rocha. Tem partido: MDB, aliado de Bolsonaro. Tem ideologia: bolsonarismo. E tem data para começar a ser lavada: 24 de agosto. Se os acionistas autorizarem as ações, o banco poderá ingressar contra ex-dirigentes identificados como responsáveis. E o primeiro nome da lista, se a Justiça funcionar, será o do governador que sabia de tudo e cujo escritório recebeu pagamentos que cheiram a propina. O cerco fecha. A assembleia é o começo. O fim, quando vier, terá o nome de quem começou.

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