O novo Datafolha caiu como um banho de água fria sobre a tentativa da campanha de Flávio Bolsonaro de reorganizar a disputa presidencial em torno de Donald Trump, da segurança pública e de uma guerra moral sobre soberania. A estratégia tenta manter a direita mobilizada, compensar o desgaste com Daniel Vorcaro e transformar críticas a interferência estrangeira em disputa entre “bem” e “mal”. O problema é que Lula segue à frente e ainda consegue empurrar sobre o adversário rótulos como “Tariflávio”, “Bolsomaster” e a submissão do pré-candidato a presidência aos interesses dos Estados Unidos.
O levantamento mostra Lula com 41% no 1º turno, contra 31% de Flávio Bolsonaro. No 2º turno, o presidente também aparece numericamente à frente, com 47% a 43%. O dado não elimina a competitividade do senador do PL, mas frustra a expectativa bolsonarista de que a sequência de ataques, o apoio externo de Trump e a exploração do caso Master contra o governo produziriam uma virada de ambiente.
A campanha de Flávio vinha tentando deslocar o centro do debate. Depois do desgaste com Daniel Vorcaro e o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, o senador passou a apostar mais fortemente em uma pauta de segurança linha-dura, com defesa de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. A proposta conversa com a gramática trumpista, mas abre um flanco: Lula passou a tratar o tema como ameaça à soberania nacional e risco de intervenção estrangeira em assuntos internos do Brasil.
É nesse ponto que a operação encontra seu teto. O apoio de Trump pode eletrizar a base bolsonarista, mas o Datafolha mostra que ele tem pouca força para ampliar o alcance de Flávio Bolsonaro fora do eleitorado já convertido: para 65% dos brasileiros, a bênção do presidente dos Estados Unidos seria indiferente na hora do voto. Além disso, 15% dizem que teriam menos vontade de votar em um candidato apoiado por Trump, dado que reforça o risco de a aposta em Washington cristalizar rejeição em vez de abrir caminho para o centro.

O mesmo ocorre no campo econômico e simbólico. A marca “Tariflávio” sintetiza a tentativa de associar o bolsonarismo a pressões comerciais dos Estados Unidos contra o Brasil. Já “Bolsomaster” busca manter vivo o elo entre Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e o caso Master, em contraste com a tentativa do senador de deslocar o escândalo para o governo Lula após a operação que mirou Jaques Wagner.
A pesquisa, portanto, não é apenas uma fotografia numérica: ela expõe a dificuldade operacional da campanha de Flávio Bolsonaro. A direita tenta trocar desgaste por radicalização, Vorcaro por Trump e soberania por guerra cultural. Até aqui, porém, o Datafolha indica que Lula segue mais bem posicionado para definir os termos da disputa e transformar os ativos do adversário em passivos eleitorais.





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