O domingo 18 vai para a história como o dia em que o país viu, ao mesmo tempo e sem direito a ensaio, os dois Brasis que disputam o segundo turno: de um lado, o Brasil que ocupou ruas de capitais e cidades de todas as regiões, da Candelária de Chico Buarque à Copacabana de Caetano Veloso e Djavan, da Salvador de Gilberto Gil ao Belém do Arrastão do Pavulagem, com um milhão de estudantes entre a Candelária e a Cinelândia segundo os organizadores; do outro, o Brasil do míssil erguido em verde e amarelo na Avenida Paulista, com a inscrição em inglês “Trump nuke Brazil”, que traduzida diz ao dono da Casa Branca: ataque o Brasil com armas nucleares. Entre os dois, no telão da Band, o senador que fez seis viagens aos Estados Unidos em 2026, posou com Trump no Salão Oval em 26 de maio e vendeu as terras raras do país em plena CPAC foi desarmado em cadeia nacional pelo presidente que começou nervoso e terminou com propostas na mão. Ao final, não restou dúvida. Se houve vencedor no debate, esse foi Lula.
Antes de mais nada, uma constatação necessária. Durante o debate, Lula acusou Flávio várias vezes de estar mentindo. Flávio fez o mesmo na direação do presidente. Diante da troca de golpes, a agência de checagem Aos Fatos passou a limpo as declarações de ambos. Resultado: Flávio mentiu ou destorceu informação em 80% do tempo. Quanto a Lula, de 9 afirmações que fez, nenhuma era mentira.
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Trump jogue um missil núclear no Brasil, pediram os apoiadores de Flávio Bolsonaro na Avenida Paulista. Imagem: CUT São Paulo
O arrogante e o básico
A leitura mais nítida do debate veio do cientista político Paulo Roberto de Sousa, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, na transmissão do Brasil de Fato logo após o programa: “Foi um arrogante contra alguém que foi básico”. Para Sousa, Flávio passou o tempo inteiro “naquela provocação corporal”, andando atrás de Lula, fazendo gestos e tiradinhas, estratégia que aciona muito bem o eleitorado já engajado entre bolsonaristas e antipetistas, sedento daquela “virilidade, macheza”, mas que “vai pregar para convertidos” e tem “pouco efeito para os indecisos”, que o analista estima entre 5% e 7% do eleitorado e que, no julgamento dele, em grande parte desligaram o aparelho logo na primeira meia hora de baixaria. “Não mostrou um conhecimento mínimo da máquina”, disse Sousa, “falou muito mais como um prefeito do que propriamente como um presidente da República”. Na plateia, Pablo Marçal, que o professor apelidou de “um dos papagaios de pirata do Flávio”, e Sergio Moro, eleito governador do Paraná pelo PL no dia 4, na comitiva do senador.
Lula começou com “uma certa vacilação”, no registro de Sousa, parecia “assustado” sobretudo quando Flávio levou ao primeiro bloco, cujo tema eram as mulheres, o nome de Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva investigada pela Polícia Federal; o analista chamou o trecho de “lavagem de roupa suja” e “baixaria para lá de constrangedora”, e notou que a campanha petista deveria ter previsto o ataque depois da entrevista exibida pela CNN no sábado (17). Mas da metade para o fim, “ficou mais à vontade e aí sim ele fez um debate sobre quem conhece a máquina, sobre quem tem experiência, sobre quem tem propostas”, e “pontuou inclusive falhas do seu governo e aquilo que precisa e pode ser melhorado”.
No meio do caminho, a mediadora Adriana Araújo precisou parar o cronômetro e advertir: “Candidato Flávio, o senhor já respondeu essa pergunta. O senhor não tem o direito de se manifestar nesse momento. Vamos respeitar o candidato Lula, que está respondendo”, após o senador invadir o tempo reservado ao presidente, que perguntava “Será que ele quer privatizar o SUS?” diante do “padrão Einstein” prometido com Claudio Lottenberg no Ministério da Saúde, prontuário por CPF e telemedicina, tudo sem fonte de financiamento anunciada. “Não tem comportamento ético, não?”, cravou Lula, antes de defender a recuperação do sistema público:
Tenho muito orgulho de estar trabalhando para recuperar o SUS, de dar dignidade ao SUS, de dar dignidade aos médicos”.
Sigilos: o desafio sem resposta
O momento mais cirúrgico da noite veio no confronto sobre dinheiro. “Desafio você: amanhã, abrimos nossas contas bancárias e nossos sigilos telefônicos, para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão”, propôs Lula, oferecendo a entrega dos documentos ao presidente do Supremo Tribunal Federal e ao do Tribunal Superior Eleitoral, e elevando a aposta: “Abro os da minha família inteira, você abre os da sua”. Flávio disse que não tem nada a esconder, mas não aceitou a proposta e desconversou para o achincalhe de sempre: “O seu dinheiro é por fora sempre. Não está na sua conta, está sempre em outro lugar”. Bruno Guzzo registrou o clima nacional: “Lula mandou muito bem ao desafiar Flávio Bolsonaro a abrir os sigilos bancário e telefônico. Flávio desconversou e não respondeu ao desafio”. A pergunta que ficou no ar é a que o senador nunca responde: quem foge da abertura de sigilos no meio de uma crise com um banco liquidado?
O banqueiro e o prisioneiro
O caso Banco Master protagonizou o bloco mais tenso. “Você foi feito banqueiro no governo Bolsonaro e vai ser feito prisioneiro no meu governo, e ele está preso”, disse Lula, antes de cravar a frase que já correu o país: “Vocês fizeram ele um banqueiro e eu fiz ele um prisioneiro”. E insistiu:
Você tem que explicar 134 milhões do Vorcaro, que você disse que não pegou e pegou, disse que foi para o fundo e não foi. O que que você fez com 134 milhões?”
Flávio respondeu que o dinheiro foi para “o filme”, a cinebiografia “Dark Horse” e não detalhou o caminho dos recursos. Os documentos, esses, falam: a Polícia Federal descreve o senador como “interlocutor direto” de Daniel Vorcaro nas negociações de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) para o filme, com participação em cobranças de repasses, agendamento de encontros e acompanhamento das gravações; na sexta-feira (17), a corporação apontou “divergência contábil severa” de US$ 9,5 milhões (cerca de R$ 48,1 milhões) nas remessas, com mais de US$ 12,3 milhões saindo do país rumo ao fundo Havengate, no Texas, administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, e apenas US$ 2,8 milhões de entrada documentada no Brasil; investiga-se se o filme serviu de cobertura para ocultação e desvio de recursos, e a PF pediu ao ministro André Mendonça a prorrogação do inquérito por 90 dias. O liquidante do Master, Eduardo Bianchini, informa que não há registro de patrocínio do banco; os repasses partiram da Entre Investimentos, empresa de Vorcaro, que fechou delação premiada. A Aos Fatos havia contado, em levantamento de setembro, ao menos 43 mentiras de Flávio Bolsonaro sobre o caso.
Lula ainda abriu o espelho patrimonial:
Eu sou presidente há 12 anos e tenho um apartamento de 190 m² de R$ 1 milhão e meio. Esse cidadão, que ganha o mesmo salário que eu, comprou uma casa de R$ 10 milhões e pagou à vista uma parte dela com o dinheiro do BRB, que está metido no caso do banco do Vorcaro”.
Flávio contra-atacou sem apresentar prova nenhuma: mencionou suposto áudio de Vorcaro sobre “R$ 30 milhões para o Instituto Lula, por fora”, citou Rui Costa e Jaques Wagner, e sustentou que a prisão do banqueiro foi obra de Mendonça, não de Lula. Terminou no xingamento: o senador chamou o presidente para perto de seu púlpito e ouviu a recusa: “Quero distância com miliciano”. A réplica do herdeiro: “Estou sem carteira aqui, você não vai me roubar não”.
Pai que protege, filho que exila
Provocado sobre “Cadê o Lulinha?”, com a acusação de que Fábio estaria “fugido”, Lula respondeu com o dossiê da própria família Bolsonaro: “Eu não sou pai que protege o filho como você foi protegido pelo seu pai. Não escondo nem mudo diretor da PF nem mando ministro embora”. A frase remete à reunião ministerial de 22 de abril de 2020, cujo vídeo foi divulgado por decisão do ministro Celso de Mello, em que Jair Bolsonaro afirmou que não esperaria a família e os amigos serem prejudicados para trocar a “segurança” no Rio de Janeiro; dois dias depois, Sergio Moro pediu demissão acusando interferência na Polícia Federal, junto com a exoneração do diretor-geral Maurício Valeixo. Hoje, Fábio é alvo de três inquéritos no Supremo, abertos desde julho com autorização de André Mendonça e Flávio Dino por suspeita de tráfico de influência e corrupção, sem denúncia e sem rito, e a defesa nega irregularidades; já Eduardo tem mandado de prisão expedido em 8 de outubro pelo ministro Alexandre de Moraes, condenado a quatro anos e dois meses por coação no curso do processo, por articular sanções do governo Trump contra o Brasil para pressionar o Supremo no julgamento da trama golpista que condenou o pai, e vive nos Estados Unidos desde 2025 dizendo que não pretende voltar. “O que vocês estão fazendo é tramar contra o país, seu irmão está fugido nos Estados Unidos”, disse Lula. Flávio, o eufemismo: Eduardo está “exilado”. E quando o senador perguntou por que 73% dos presidiários teriam votado no presidente, falando em votos de “estuprador” e “assaltante”, Lula zombou com a calma de quem conhece a família: “Eu quero que votem 100%, até teu pai. Até teu pai (…) porque ele te conhece. E ele sabe que eu sou melhor do que você”. E o fecho: “Sabe por quê? Deixa eu lhe contar uma coisa. Seu pai votou em mim”.
A motosserra e a pobreza
Sobre o modelo que Flávio reivindica, Lula foi direto: “Você continua dizendo que o teu modelo é o modelo do Milei? A tua mulher da economia fala que o Milei é o modelo, a motosserra do Milei. Você sabe quanto é que está a pobreza da Argentina? O desemprego? (…) Se não, leia, pra você nunca mais dizer que vai acompanhar o Milei”. Os números do Indec, o instituto argentino de estatísticas, respondem por ele: 32,3% da população abaixo da linha da pobreza no primeiro semestre de 2026, alta de 4,1 pontos percentuais sobre o segundo semestre de 2025; desemprego em 7,9%; eliminação de cerca de 245 mil postos de trabalho formais entre 2023 e meados de 2026. O cardápio da motosserra, documentado pelo Brasil de Fato: a previdência respondeu por 19,2% da redução de gastos; o fim das moratórias fez o número de aposentados despencar 53% desde 2024; a AUH, o Bolsa Família argentino, sofreu redução real de 45,6%; as universidades públicas perderam 27,9% de repasses; os subsídios de transporte caíram 40% e os do setor elétrico 34%, com tarifas subindo mais de 100%; e a dívida com o FMI cresceu de US$ 57 bilhões herdados de Macri para mais US$ 20 bilhões tomados pelo próprio Milei.
A turba e a bomba
E então o espelho do bolsonarismo na rua. Na manifestação em apoio a Flávio na Avenida Paulista, com presença do senador e do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), manifestantes ergueram uma estrutura branca em formato de míssil com a inscrição “Trump nuke Brazil”, pessoas vestidas de verde e amarelo ao lado do objeto, bandeiras brasileiras em volta, o pedido formal, em inglês, para que o estrangeiro bombardeie a pátria com armas nucleares. A Opera Mundi registrou o óbvio: ao pedir que uma potência estrangeira ataque o próprio país, os manifestantes adotam “postura de lesa-pátria e afrontam a soberania brasileira”. Não é turba isolada, é política: na sabatina do Jornal Nacional da sexta (16), Flávio voltou a prometer a adesão ao Escudo das Américas, iniciativa de Trump que prevê cooperação em inteligência e a possibilidade de deslocamento de tropas estadunidenses para países participantes; esteve seis vezes nos Estados Unidos em 2026 e foi recebido por Trump no Salão Oval em 26 de maio para, segundo ele, tratar de crime organizado, tarifas e minerais críticos; em março, na CPAC do Texas, apresentou o Brasil como alternativa à dependência americana dos minerais chineses, o que levou a pesquisadora Nathália Francisco, do Observatório das Metrópoles e do Movimento pela Soberania Popular na Mineração, a avaliar que o alinhamento só aprofunda a dependência. Três senadores democratas denunciaram em carta a Marco Rubio uma campanha de interferência e desestabilização contra o Brasil, citando pressões econômicas e diplomáticas e o encontro Trump-Flávio; Eduardo mantém lobby contratado por fundação presidida por Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, João Figueiredo, para articular tarifas e sanções a ministros do Supremo; e o Planalto atribui às articulações da família parte do agravamento da crise comercial. A cena é velha: em 1964, os telegramas golpistas ao embaixador americano pediam apoio para derrubar João Goulart, e Carlos Lacerda pedia esquadra; sessenta e dois anos depois, o herdeiro político da mesma confusão ergue míssil de mentira na Paulista pedindo ogiva. Mesma mão, mesma bandeira, mesmo desígnio.
O Brasil nas ruas
Do outro lado do cordão, o país inteiro. A uma semana do segundo turno, apoiadores de Lula ocuparam ruas em capitais e cidades de todas as regiões, no registro da Mídia NINJA: em Brasília, concentração às 9h em frente ao Museu Nacional da República e caminhada até o Congresso, com Alexandre Carlo, do Natiruts; no Rio, de manhã a Candelária com a UNE e Chico Buarque, e à tarde a Copacabana do Ato Musical pela Democracia, com Caetano Veloso e Djavan dividindo o trio elétrico com João Bosco, Simone e Ivan Lins, além de Xamã, Edu Krieger e Natalia Voss, cerca de um quilômetro de Avenida Atlântica ocupados segundo a Folha de S.Paulo, mais o ato “Estudantes com Lula” que reuniu 1 milhão de pessoas da Candelária à Cinelândia, conforme os organizadores; em Salvador, a orla de Ondina ao Farol da Barra com Daniela Mercury, Gilberto Gil, Liniker e Zélia Duncan, o BaianaSystem levando o Navio Pirata, e os Filhos de Gandhy, o Ilê Aiyê e o Cortejo Afro na frente; em São Paulo, o Largo da Batata, Itaquera, o Grajaú e a Barra Funda, e a Vila Nova Cachoeirinha com o O Rap Convoca reunindo Emicida, Karol Conká e Rashid, a cantora à NINJA: “A união faz a força. O Brasil não vai ficar na mão deles, não! Democracia já!”. Belém teve Arrastão do Pavulagem, capoeira e carimbó às margens da Baía do Guajará; Belo Horizonte, o Ato da Virada na Praça da Estação; Porto Alegre, do Largo Zumbi dos Palmares à Redenção; Curitiba, Florianópolis, Balneário Camboriú, João Pessoa, Fortaleza com Fafá de Belém, Maceió, Teresina, Bauru, Nova Lima e Pouso Alegre tiveram seus atos; e Olinda fez o Bloco da Vitória com mais de 100 agremiações no frevo. O país espalhou-se pelo mundo: Paris, Lisboa e Londres ocupadas por brasileiros em defesa da reeleição. Parte da mobilização integra a “Bora Virar”, do PT, para o diálogo direto com eleitores na reta final.
EU TO CHOCADO COM COPACABANA…. LOTADO ATÉ NO MAR https://t.co/XXkXzWSk78
— Jeje ✨ (@jejezaum) October 18, 2026
🚨 URGENTE: A MANIFESTAÇÃO EM SALVADOR JÁ PASSA DE 800 MIL PESSOAS, É UM DOS ATOS MAIS EXPRESSIVOS JÁ VISTO AQUI!
Dia 25 é 13! POR VOCÊ 🗣️ https://t.co/y5qm3j0MRB
— Nordeste é 13 (@thiegocomenta) October 18, 2026
GIGANTE! Essa é a imagem aberta de Brasília (DF) neste 18 de outubro que a Globo não vai mostrar. Um dos maiores atos da história da cidade https://t.co/koV1vcBIRd
— Pragmatismo Politico (@Pragmatismo_) October 18, 2026
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O pedágio do império
Por trás do debate, a guerra comercial que os Bolsonaros ajudaram a acender.
A politice tem recibo. Marco Rubio declarou em julho: “Não haja confusão sobre o motivo: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé”. O contraprova: mais de 30 reuniões com autoridades americanas desde 2025, incluindo 11 com o próprio Rubio. E os números do comércio destroem a narrativa do déficit: nos últimos 15 anos, os Estados Unidos acumularam US$ 424,5 bilhões de superávit com o Brasil; em 2025, 76% das importações americanas entraram no país sem pagar imposto, com alíquota média efetiva de 3,1%. Na audiência pública do USTR, 63 das 78 intervenções do setor privado foram contrárias ao tarifaço; 43 empresas americanas se manifestaram contra; o Itamaraty entregou documento de 29 páginas alertando que a taxa encarece a indústria e o consumidor do próprio Estados Unidos. A lista de isentos, petróleo, carne bovina, café e minerais críticos, revela o medo: o império cobra pedágio, mas seletivo, “pero no mucho”. E a economia já respondeu ao primeiro tarifaço, em 2025: em outubro, as exportações cresceram 9,1%, recorde para o mês desde 1989, com vendas aos EUA em queda de 37,9% e compras chinesas em alta de 33,4%; Índia +55,5%, Cingapura +29,2%, Filipinas +22,4%; o ano fechou com superávit de US$ 68,3 bilhões, o terceiro maior da história, e o déficit americano com o Brasil explodindo de US$ 253 milhões para US$ 7,53 bilhões. O Ministério do Comércio chinês, em outubro do ano passado: “Nossa posição sobre guerras tarifárias é consistente: não queremos brigar, mas não temos medo de brigar”. A aritmética se repete: Trump bate, a China compra, o Brasil exporta mais.
O guarda-chuva com dentes
O debate não é ilha; navega no capítulo do intervencionismo que a Agência Pública documentou: na Bolívia, Rubio declarou apoio “inequívoco” ao governo de direita de Rodrigo Paz Pereira contra o levante popular, chamando civis mobilizados de “criminosos e traficantes de drogas” e dizendo que os EUA “não permitiriam” a derrubada do governo; em janeiro, os Estados Unidos invadiram Caracas para prender Nicolás Maduro à margem da lei internacional, deixando dezenas de agentes venezuelanos e cubanos mortos; em 12 de junho, executaram por ataque aéreo o “Niño Guerrero”, do Tren de Aragua, dentro do território venezuelano; e a vitória de Abelardo de La Espriella na Colômbia engrossa o cinturão conservador que cobre Bukele (El Salvador), Milei (Argentina), Noboa (Equador), Peña (Paraguai), Paz (Bolívia), Kast (Chile) e Fujimori (Peru). O precedente que assusta é o argentino: Trump condicionou um pacote gigantesco de auxílio à vitória de Milei e virou a eleição em 49 dias, como lembrou Talita Tanscheit, da PUC-Rio, citando Celso Amorim: “a paz é uma construção constante, né? E que é como o ar: de repente, se perde”. Lucas Leite, professor de Relações Internacionais da FAAP, definiu o método: “É um guarda-chuva ideológico com dentes militares”.
Fecho com sentença: Flávio entrou no debate pedindo tarifa ao estrangeiro e saiu devendo sigilos, devendo 134 milhões e devendo o respeito à mediadora; Lula começou nervoso e terminou com propostas, enquanto a turba dele terminava a noite pedindo bomba atômica sobre o próprio país. Sessenta e dois anos depois dos telegramas de 1964, o entreguismo trocou o pedido de esquadra pelo míssil de mentira na Paulista: mesma mão, mesma bandeira, mesmo desígnio. Trump tem ogivas; o Brasil tem povo, e o povo estava na rua, de Copacabana a Paris. No domingo que vem, escolhe-se entre a soberania e o pedágio.

