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Cena de 'O Agente Secreto'. Foto: Frame do Trailer Original
BRASIL

O cinema desnuda a ditadura empresarial-militar

Escândalos como o Banco Master mostram como o compadrio persiste

A ditadura militar brasileira, de 1964 a 1985, não foi apenas um regime de quartel: foi uma estrutura profunda de poder compartilhado entre militares e elites empresariais, uma aliança que transformou o Estado em instrumento de concentração de riqueza e repressão. Essa visão, explorada no filme “O Agente Secreto” (indicado ao Oscar e dirigido por Kleber Mendonça Filho), revela como o golpe de Estado serviu para blindar interesses econômicos, esmagando qualquer resistência popular ou trabalhista. Mais que um capítulo histórico, essa dinâmica empresarial-militar persiste no Brasil de hoje, como mostram escândalos recentes que ecoam as mesmas práticas de compadrio e impunidade.

O filme, ambientado no Recife dos anos 1970, reconstrói com maestria o ambiente de medo e controle, inspirado em eventos reais como o roubo de uma pesquisa acadêmica por um empresário paulista com cargo no governo. Essa narrativa não é ficção distante: reflete a essência da ditadura como projeto de classe.

Os militares, com o AI-5 e a censura, garantiram o terreno fértil para que conglomerados industriais e financeiros se expandissem sem freios. Grandes empresas, como as do setor automotivo e bancário, lucraram com contratos estatais superfaturados e mão de obra barata, enquanto sindicatos eram dissolvidos e trabalhadores, perseguidos. A repressão não visava só opositores políticos: protegia um modelo econômico que beneficiava uma minoria.

Historiadores como Elio Gaspari e Maria Helena Moreira Alves já apontavam essa face empresarial da ditadura. Os generais, longe de serem isolados, contavam com o apoio de entidades como a Fiesp e o Ciesp, que financiavam a propaganda anticomunista e pressionavam por reformas que facilitavam a entrada de capital estrangeiro.

O “milagre econômico” dos anos 1970, vendido como progresso, foi construído sobre dívida externa e exploração, com o PIB crescendo às custas de direitos sociais. A tortura e os desaparecimentos, documentados no “Brasil: Nunca Mais”, serviam para silenciar quem questionava essa engrenagem.

Hoje, essa herança se manifesta em escândalos como o do Banco Master. O banco, controlado pelo bon-vivant Daniel Vorcaro, explodiu de 25 milhões para 60 bilhões em capital durante o bolsonarismo — um período que reviveu tons da ditadura, com desregulamentação e proximidade entre poder e finanças.

Operações lunáticas, como CDBs pagando até 140% do CDI, atraíram depósitos públicos, como os 16 bilhões do BRB (banco do DF, sob influência bolsonarista). Quando o esquema ruiu, afetando 1,5 milhão de investidores e consumindo um terço do Fundo Garantidor de Crédito, a resposta foi sigilo judicial e tentativas de resgate via bancos estatais. É a mesma lógica: o Estado socorre os privados, enquanto o povo paga a conta.

“O Agente Secreto” não é só entretenimento; é uma denúncia sutil de como essa aliança empresarial-militar se perpetua. No filme, o medo da “Perna Cabeluda” simboliza o terror cotidiano, enquanto personagens como Dona Sebastiana (Tânia Maria) representam a resiliência nordestina contra o preconceito e a opressão. Kleber Mendonça Filho reconstrói o Recife com frevo, mangues e xenofobia do Sul, tornando a obra ferozmente regional e universal.

Para romper esse ciclo, o Brasil precisa desmontar as raízes dessa ditadura híbrida. A Comissão da Verdade de 2014 reconheceu 434 mortos e torturas sistemáticas, mas a justiça seletiva e a impunidade empresarial mantêm o fantasma vivo. Filmes como esse iluminam o caminho: entender o passado para não repeti-lo.


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