Armas, jornada 7×0 e submissão: o pacote dos Bolsonaros

Todos armados, ninguém ataca: a balela que mata crianças

Por Frente Livre
doutrina armamentista de Flávio
Assista na Frente Livre o último episódio da 1ª temporada da séria Revelando: a balela da política armamentista dos Bolsonaros.

O último episódio de Revelando, “Uma Dor Familiar”, lançado neste sábado (24), parte de uma tragédia pessoal: Marcos, tio da diretora-geral Alessandra Orofino, foi assassinado aos 24 anos ao sair de moto para trabalhar. É desse lugar que a série desmonta a política armamentista de Flávio Bolsonaro. A Frente Livre vai além: o que o bolsonarismo vende não é fetiche, é doutrina. Uma doutrina obtusa, equivocada, idiota e pusilânime, que importa para o Brasil um modelo de país que neste momento está em plena falência nos Estados Unidos.

 

>> O documentário sobre a Política de Armas do Bolsonarismo, produzido na série Revelando Brasil, está disponível ao fim deste texto.

 

O que o bolsonarismo chama de segurança não é, sequer, doutrina nova: é o velho argumento do lobby armamentista americano, que há décadas vende a fantasia de que sociedade armada é sociedade protegida. A biologia evolutiva já desmontou essa lógica com nome e sobrenome. Em 1973, John Maynard Smith e George Price publicaram na Nature o modelo Falcão-Pomba.

O dilema central

Imagine dois animais disputando a mesma comida. Um deles, o falcão, está disposto a brigar até o fim. O outro, a pomba, só faz pose: ameaça, exibe força e recua se o outro partir para cima.

Se o falcão encontra uma pomba, ele leva o prêmio sem esforço. A pomba foge e não se machuca. Ótimo para o falcão, razoável para a pomba.

Se duas pombas se encontram, elas fazem pose uma para a outra, percebem o impasse e dividem a comida. Nenhuma se machuca. Ótimo para as duas.

Mas se dois falcões se encontram, começa a briga de verdade. Ninguém recua. Os dois se ferem, às vezes gravemente, e o prêmio — quando sobra algum — é dividido entre feridos.

Onde está o dilema

Aqui está o nó: nenhuma das duas estratégias vence sozinha.

Se todo mundo fosse pomba, um único falcão teria festa. Ele levaria todas as refeições sem levar um arranhão. A agressão compensa.

Mas se todo mundo virasse falcão, a briga seria constante e o custo de brigar superaria o valor da comida. Aí a pomba, que recua e vive mais, passa a se dar melhor.

O dilema é que o sistema nunca chega a um equilíbrio confortável. Ele fica preso num meio-termo: sempre existe uma fatia de falcões, e essa fatia nunca é zero. Sempre vai haver alguém disposto a atacar, e todos pagam a conta — inclusive os que preferiam a paz.

Por que isso importa para a política de armas

Aqui a metáfora deixa de ser metáfora.

O lobby armamentista vende a ideia de que, se todos estiverem armados, ninguém ataca — porque o ataque custaria caro demais. Isso seria um mundo só de pombas com força suficiente para dissuadir.

Mas o modelo mostra o contrário: quando todos se armam, o custo do confronto sobe para todos, e o prêmio também sobe — porque a arma deixou de ser proteção e virou mercadoria. É o dado que o Revelando trouxe: quase nove em cada dez armas apreendidas com criminosos no Rio foram vendidas legalmente antes. A arma que deveria proteger virou o objeto do roubo.

Num sistema assim, a fração de falcões não cai. Ela se estabiliza e se multiplica, porque agora há mais armas circulando, mais alvos valiosos e mais motivos para atacar primeiro.

A conclusão que o modelo entrega, sem nenhuma equação: não existe sociedade armada “estável e segura”. O que existe é um sistema em que a agressão sempre encontra lugar — e o preço é pago por todos, inclusive por quem nunca quis brigar.

Isto é, quando o custo do confronto é maior que o prêmio disputado, o equilíbrio não é a paz, é a escalada. Não existe estratégia pura vencedora. O resultado é uma população em que uma fração sempre aposta no ataque — e todos pagam a conta em sangue. Traduzindo: armar a todos não produz dissuasão, produz um sistema em que a violência deixa de ser exceção e vira regra de convivência.

A evidência empírica fecha o caixão. Revisão que examinou 61 pesquisas recentes sobre armas, crimes e violência apontou que 90% das revisões de literatura contrariam a tese “mais armas, menos crimes”. Estudo do National Bureau of Economic Research (NBER) estimou que, dez anos após a adoção de leis permissivas de porte nos Estados Unidos, os crimes violentos cresceram entre 13% e 15%. No Brasil, cálculo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública estima 6.379 homicídios a menos se não houvesse o aumento de armas em circulação a partir de 2019. A política de Flávio não protege família nenhuma: ela amplia o mercado da indústria americana e transfere o custo para o cemitério.

A balela do cidadão armado

A tese é conhecida: sociedade armada é sociedade segura, porque ninguém ousaria atacar quem está armado. É balela. Quando todos apontam armas uns para os outros, o nome disso é duelo mexicano — e o desfecho costuma ser a morte de todos. O lobby da indústria de armas dos Estados Unidos dissemina essa fantasia há décadas, com dinheiro e think tanks.

Os números do episódio desmentem a promessa. Uma investigação parlamentar rastreou mais de 10 mil armas apreendidas com criminosos no Rio de Janeiro: quase nove em cada dez foram vendidas legalmente antes de chegar ao crime. Sob Jair Bolsonaro, o limite anual de munições de atiradores saltou de 20 mil para 180 mil, e o número de armas com CACs quintuplicou desde 2018.

O voto que revela o método

Em 2009, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Flávio foi o único a votar contra retirar a arma de policiais acusados de violência doméstica quando havia medida protetiva. Alegou que policiais poderiam perder o instrumento de trabalho por acusações injustas.

Em 2024, assumiu a defesa do policial Bruno Dias Delaroli, que matou Ana Clara, de cinco anos, com tiros de fuzil em Niterói, e apresentou recurso para evitar o júri popular. No debate da TV Globo, na sexta (23), Cristiane Gomes da Silva, mãe da menina, reagiu ao ser chamada pelo nome da filha: “A Ana Clara morreu!”. Depois, o chamou de “monstro, igual ao monstro que matou a minha filha”. O julgamento foi remarcado para 5 de maio de 2027.

A mesma prateleira de importados

A submissão aos Estados Unidos não se limita às armas. A PEC da jornada flexível é a importação do modelo trabalhista americano: pagamento por hora, zero previsibilidade, nenhum encargo. É o mesmo pacote que adoece a sociedade mais rica do mundo — e a que consome mais drogas do planeta, porque o jovem periférico foge de uma realidade cruel.

Armas na mão e direitos no chão são a mesma mercadoria. Em 2023, o governo Lula derrubou 80% dos registros de novas armas. Flávio quer retomar e aprofundar. É uma escolha de país.

 

Canal no whatsapp

Receba notícias da Frente Livre direto no celular.
Seguir