As pesquisas andam errando na Bahia. Não é opinião, é registro: os institutos não conseguem captar a força do PT no interior do Estado. Erram porque olham para a capital, para os condomínios, para o litoral — e esquecem que a Bahia é imensa, que é feita de gente que acorda antes do sol, que planta, que colhe, que vive onde o asfalto termina. Erram porque medem a Bahia de cima, do helicóptero, e não de dentro, da feira, da roça, da fila do posto.
E é exatamente aí que mora a ironia desta eleição. Porque o candidato que os institutos subestimam é o único que veio de lá — de onde a pesquisa não alcança.
Vejamos os dois homens. De um lado, Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto. ACM Neto. O nome já carrega a dinastia: neto de Antônio Carlos Magalhães, o ACM que mandou na Bahia por décadas, que fez e desfez governos, que transformou o Estado num curral eleitoral. O neto nasceu em Salvador, em 1979, advogado pela UFBA, três mandatos de deputado federal, prefeito de Salvador por oito anos, presidente do Democratas, criador do União Brasil, vice-presidente nacional da legenda. Uma trajetória de berço, de sobrenome, de palácio. O homem que, em 2022, chegou ao segundo turno e perdeu.
Do outro lado, Jerônimo Rodrigues. Filho de um agricultor familiar e de uma costureira. Nascido na zona rural de Aiquara. Engenheiro agrônomo, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, filiado ao PT desde 1990. Passou por secretarias estaduais e pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário antes de ser eleito governador, em 2022, com 52,79% dos votos válidos. Não herdou sobrenome. Herdou a terra — e a memória de quem trabalha nela.
Não é uma disputa de currículos. É uma disputa de classes. E a Frente Livre não tem pudor de dizer isso em voz alta.
Olhem para o plano de ACM Neto. Ele se chama “As Três Trindades da Mudança”. Trindades. Reparem na linguagem: é marketing, é slogan, é a estética do palácio tentando parecer novidade. O que há por trás? Comando pessoal da segurança pelo governador. Saúde com regulação em fila única. Revogação da aprovação automática escolar. Emprego regional, saneamento, reformas do “Morar Melhor”. Cultura, inovação, proteção dos três biomas.
Não é um programa. É um cardápio de promessas servido de cima para baixo, como quem distribui esmola. A “vida digna” proposta pelo neto do coronel é uma vida digna desenhada por quem nunca precisou esperar numa fila única — porque, para ele, a fila sempre foi dos outros.
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Olhem, agora, para o programa de Jerônimo. Não tem nome de trindade. Tem nome de coisa feita: Bahia Sem Fome. Escolas em tempo integral. A fábrica da BYD em Camaçari, trazendo emprego e indústria. O VLT do subúrbio começando a operar. E, para 2026, a continuidade: ampliar o ensino integral, regionalizar a saúde, fortalecer o Bahia pela Paz, avançar na ponte Salvador-Itaparica e no metrô até o Campo Grande.
Não é marketing. É continuidade. É o governo que existe sendo levado adiante — com os defeitos que tem, com as falhas que tem, mas com a direção que tem. E a direção, essa, é a diferença.
Porque aí está o ponto que separa os dois projetos de forma irreconciliável. ACM Neto fala em “comando pessoal da segurança” — a mão do governador sobre a polícia. Jerônimo enfrenta a segurança como o desafio que é: os policiais militares envolvidos em mortes de inocentes, a Bahia com a segunda maior taxa de mortes violentas do país, Salvador como a capital mais violenta, segundo o Atlas da Violência 2026. E a resposta socialista não é “comando pessoal” — é Bahia pela Paz, é responsabilização, é tratar a violência como problema de Estado e de justiça, não como espetáculo de força.
Não vamos romantizar. A segurança é o calcanhar de Aquiles do governo Jerônimo, e a Frente Livre não esconde isso. Mas há uma diferença entre um governo que enfrenta o problema e um que o transforma em palanque. Entre um que reconhece o erro dos seus policiais e um que promete “comando pessoal” como quem promete punho de ferro. Entre o filho da terra, que sabe que a violência mata primeiro quem é pobre e preto, e o neto do coronel, que enxerga a segurança como ordem a impor.
A eleição da Bahia é um espelho do Brasil. De um lado, o herdeiro do coronelismo, o sobrenome, o palácio, o slogan. Do outro, o filho do agricultor e da costureira, a roça, a universidade pública, o governo que existe. E as pesquisas, que erram, erram porque não enxergam o interior — porque não enxergam de onde veio o candidato que elas subestimam.
O interior, esse, sabe. O interior lembra quem nasceu lá. O interior lembra quem voltou para governar com o povo — e quem só aparece de quatro em quatro anos para pedir voto.
Faltam dias para a eleição. E na Bahia, a pergunta é a mesma de sempre, a mais antiga e a mais justa: quem é gente neste Estado? O neto do coronel, que promete vida digna de cima para baixo? Ou o filho da terra, que construiu a vida digna de baixo para cima, com as próprias mãos, com o próprio suor, com a própria história?
O interior já respondeu. As pesquisas é que ainda não aprenderam a ouvir.
