O povo venceu: a escala 6×1 está morta

Mas a luta não para nem na vitória: aliados de Flávio Bolsonaro avisam que proporão a 7x0

Por Frente Livre
fim da escala 6x1
Foto: Ricardo Stuckert

Dia 14 de outubro de 2026. O plenário do Senado Federal guardava silêncio quando o painel acendeu: 75 votos favoráveis, 1 contra, em cada um dos dois turnos. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que acaba com a escala 6×1, está finalmente aprovada. Para os 79 senadores presentes, era uma votação. Para 26,8 milhões de trabalhadores, era o fim de uma sentença que durava gerações. Foi o fim da escala 6×1.

A jornada de seis dias de trabalho para um de descanso é, hoje, uma coisa do passado. O trabalhador brasileiro terá dois dias de folga por semana e a carga máxima cai de 44 para 40 horas — sem reduzir um centavo do salário. É a maior mudança na vida do trabalhador brasileiro desde a Constituição de 1988.

A luta que começou num balcão de farmácia

Nenhuma epopeia começa no Senado. Esta começou num balcão de farmácia, com um balconista cansado de doze anos de sucateamento. O vereador Rick Azevedo (Psol), do Rio de Janeiro, fundou em 2023 o movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e transformou a exaustão de uma classe em bandeira nacional. Em 2025, o movimento reuniu mais de 2 milhões de assinaturas e entregou tudo na mão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

O movimento cresceu porque encontrou um parceiro no poder. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez da redução da jornada uma das bandeiras centrais do governo — coerência de quem foi operário de chão de fábrica e sindicalista. A deputada Erika Hilton (Psol-SP) encabeçou a articulação na Câmara. Em 27 de maio de 2026, a Câmara aprovou em dois turnos com maioria histórica: 472 votos a favor e 22 contra no primeiro turno; 461 a 19 no segundo.

E, no Senado, havia um acordo: Lula, Alcolumbre e o presidente da Câmara, Hugo Motta, se reuniram em 27 de agosto, no Palácio da Alvorada, e destravaram a pauta. O texto chegou ao plenário como item único da pauta de quarta-feira.

 

 

Os senhores da resistência

A oposição bolsonarista usou tudo: 36 emendas ao texto, a maioria assinada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), relator da reforma trabalhista de 2017 e coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro. Todas rejeitadas. O plano de forçar o retorno à Câmara fracassou.

O fascista Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato a presidente, não apareceu no plenário — votou online, da casa do pai. O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), ex-vice de Jair Bolsonaro, foi o único a votar contra. O mesmo Mourão que já disse que não dá para o país sustentar o 13º, comparado a um pé de jabuticaba que produz só 12 frutos no ano. Preferiu defender o turno de doze horas contra 26,8 milhões de trabalhadores — o número do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

As palavras que ficaram

Lula, na rede X:

“É oficial: a escala 6×1 acabou! Hoje é dia de comemorar uma conquista histórica de milhões de trabalhadores e trabalhadoras. O fim da 6×1 é mais do que uma mudança na jornada. É mais tempo para viver, descansar, estar com a família, acompanhar os filhos crescerem, cuidar de si e aproveitar a vida. Quem trabalha tanto para construir o Brasil também merece ter tempo para viver. É uma vitória dos trabalhadores e trabalhadoras. É o Brasil pronto para mais!”

Rick Azevedo:

“Chegou o nosso momento. Depois de três anos de luta intensa, chegamos à conclusão dessa guerra com uma vitória histórica. Um balconista de farmácia, revoltado com 12 anos de sucateamento, liderou a maior revolução trabalhista das últimas décadas. Juntos, transformamos nossa exaustão em combustível e marcamos nossos nomes na história desse país. A classe trabalhadora mudou a constituição. Vocês ainda ouvirão muito os nossos nomes.”

Erika Hilton: “para todos aqueles que duvidaram, pra extrema direita e os aliados do Flávio, que articularam o tempo inteiro para que isso não acontecesse: amarguem essa derrota, essa vitória dos trabalhadores. Nós vencemos, a voz do povo venceu. nós não arredamos o pé nenhum minuto”. E cravou: “Sequer pisou nesse plenário. Tá usando a vida, o cansaço dos trabalhadores, como manobra eleitoreira. A gente não vai esquecer tudo que vocês fizeram, na Câmara e no Senado, para que os trabalhadores não tivessem esse direito.”

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), ao votar: “Sim, principalmente pelas trabalhadoras, mães atípicas, que serão as mais beneficiadas”.

Davi Alcolumbre: “À primeira vista, pode parecer uma mudança sutil. Mas, para quem acorda cedo, pega ônibus lotado, cumpre sua jornada e volta para casa no fim do dia, essa mudança é gigante”.

Paulo Paim chorou na tribuna: “Eu tenho certeza de que, neste momento, milhões e milhões de brasileiros estão acompanhando essa votação aqui no Senado”.

Lula ainda avisou os jovens no Planalto: “Fazer é difícil, para destruir, é apenas um passo”. E avisou o país: “Mas essa gente não tardará, se algum dia acontecer de eles ganharem no Brasil, porque eles preferem o sistema do Milei de 12 horas por dia de trabalho”.

A conquista e o que vem depois

O relatório do senador Omar Aziz (PSD) garante dois dias de repouso semanal remunerado, um deles preferencialmente aos domingos. A redução vale para todos os contratos vigentes, sem corte salarial. As empresas têm 60 dias após a promulgação para adotar a escala 5×2 e a jornada de 42 horas; em 14 meses, 40 horas. Se a PEC for promulgada em outubro, as regras valem já em dezembro de 2026. Segundo o Dieese, são 22 milhões de trabalhadores formais — 54% dos empregados com carteira — e 4,8 milhões de informais que já cumprem jornadas acima de 40 horas.

O aviso final é do próprio plenário. A senadora Teresa Leitão, líder do governo, alertou: “Tem votos que estão vindo agora [para a PEC do fim da 6×1] para Flávio melhorar na eleição, mas depois esses votos vão mudar na posição de uma nova PEC”. O senador Carlos Portinho (PL-RJ) confirmou: o PL vai trabalhar para mudar o que foi aprovado, em um eventual governo de Flávio. E o deputado Sóstenes (PL-RJ) não escondeu: “Queremos redução da jornada de trabalho e liberdade para o trabalhador. Como o governo só quer fazer demagogia eleitoral, votamos o fim da jornada 6×1 e ano que vem aprovamos o pagamento por hora trabalhada”.

A lição da epopeia é a de Rick Azevedo: a luta venceu. A conquista foi arrancada de três anos de luta, 2 milhões de assinaturas, atos nas ruas, vigília no Senado e um presidente que se recusou a aceitar que doze horas de trabalho é destino. Ficou, também, o aviso: a direita já anuncia que vai tentar reverter. O povo que conquistou vai precisar defender — “para destruir, é apenas um passo”.

Canal no whatsapp

Receba notícias da Frente Livre direto no celular.
Seguir