O escândalo do Banco Master entrou em uma nova e decisiva fase. Com a troca de relatoria no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro André Mendonça reverteu as restrições impostas anteriormente por Dias Toffoli, rebaixou o grau de sigilo do processo e devolveu à Polícia Federal (PF) a autonomia total para conduzir perícias e depoimentos. A decisão destrava a análise de cerca de 100 dispositivos eletrônicos apreendidos e acelera a investigação de um colapso financeiro que já custa R$ 52 bilhões aos cofres do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A mudança de postura no STF ocorre no momento em que o Banco Central (BC) aperta o cerco administrativo. A autoridade monetária instituiu uma comissão de inquérito para apurar, em 120 dias, as causas da ruína do conglomerado. O alvo inclui seis instituições ligadas ao grupo, além do recém-liquidado Banco Pleno. Controlado por Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro (dono do Master), o Pleno foi a oitava instituição do ecossistema a sofrer intervenção, adicionando R$ 4,9 bilhões à conta do FGC, que já arcava com os rombos do Master (R$ 40,6 bilhões) e do Will Bank (R$ 6,3 bilhões).
A fábrica de bilhões: de usinas falidas a cemitério superavaliado
Com a PF de mãos livres, os detalhes da engenharia financeira que sustentou a farsa começam a vir à tona. Uma nova frente de investigação revelou um esquema de R$ 8,7 bilhões focado na compra de “títulos podres”. Fundos de investimento ligados a Vorcaro adquiriram direitos creditórios de antigas usinas de açúcar e álcool que processavam a União por perdas nas décadas de 1980 e 1990.
Esses créditos, de liquidação altamente incerta, foram usados para inflar artificialmente o balanço do Banco Master. A manobra contábil permitia que a instituição aparentasse solidez financeira perante os reguladores, enquanto operava, na prática, um esquema fraudulento de captação de recursos.
A tática de forjar lastro com ativos de valor questionável, contudo, é um modus operandi antigo da instituição. Anos antes, quando o Master ainda operava sob o nome de Banco Máxima, a gestão de Vorcaro utilizou um cemitério em Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, exatamente para o mesmo fim.
O “Cemitério Parque” foi registrado no balanço do banco por astronômicos R$ 181 milhões, após uma negociação suspeita com o ex-cartorário Maurício Borges Sampaio. Assim como ocorre agora com os papéis das usinas falidas, o cemitério superavaliado serviu de maquiagem contábil para cobrir um rombo milionário e evitar, à época, uma intervenção imediata do Banco Central.
A contaminação do Judiciário
O rastro do dinheiro do Master também expôs uma grave crise institucional no Judiciário. O corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell, intimou cinco Tribunais de Justiça (Maranhão, Bahia, Paraíba, Alagoas e Distrito Federal) a explicarem depósitos judiciais que podem somar R$ 30 bilhões.
Os recursos foram direcionados ao Banco Regional de Brasília (BRB), instituição que está na mira da PF por tentativas de compra de carteiras do Master. O nível de ousadia nas operações chamou a atenção dos investigadores, especialmente após o presidente do TJ do Maranhão, desembargador José Ribamar Froz Sobrinho, assumir pessoalmente a responsabilidade pela transferência de R$ 2,8 bilhões ao BRB, declarando publicamente que “o risco era dele”.
Pressão política e depoimentos no Congresso
No Congresso Nacional, o clima é de tensão. O depoimento de Daniel Vorcaro à CPMI do INSS e à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, marcado para a próxima semana, tornou-se facultativo por decisão de André Mendonça. O ministro do STF, no entanto, negou o pedido do banqueiro — que usa tornozeleira eletrônica — para viajar a Brasília em seu jato particular, determinando o uso de voo comercial ou aeronave da PF.
Enquanto senadores como Carlos Viana (Podemos-MG) celebram o avanço das investigações em defesa dos aposentados lesados, a oposição acusa líderes do Centrão, como Ciro Nogueira e Arthur Lira, de atuarem nos bastidores para esvaziar a oitiva de Vorcaro. A teia de influências do banco também esbarra em figuras de governos anteriores, com os ex-ministros Guido Mantega e Ricardo Lewandowski citados como consultores bem remunerados pela instituição.
Diante da magnitude do desastre, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) acionou o Ministério da Fazenda exigindo uma revisão urgente nas regras do FGC. Para o subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado, o modelo atual permitiu a ocorrência de fraudes sistêmicas, comprometendo a credibilidade de todo o sistema financeiro nacional.






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