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Alexandre de Moraes na sessão plenária do STF na última terça-feira: de juiz a investigado no caso Master. Foto: Gustavo Moreno/STF
BRASIL

Moraes editou contrato de R$ 131 mi da esposa com banco corrupto

Mesmo banco que bancou Flávio e o Centrão pagava Viviane Barci

O escândalo Master explodiu de vez. Relatório de 218 páginas da Polícia Federal (PF), enviado ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do Caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), detalha a relação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. E o que aparece é um emaranhado de dinheiro, jantares, jatos e um apelido que diz tudo: “o careca”.

O banqueiro corrupto que financiou o Centrão e a extrema direita — o mesmo que repassou R$ 61 milhões para a cinebiografia de Jair Bolsonaro a pedido de Flávio Bolsonaro — também pagava o escritório de advocacia da esposa de Moraes. E o ministro, segundo os metadados de um documento extraído do celular de Vorcaro, editou a versão final do contrato.

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O contrato que Moraes editou

O acordo entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, que tem como sócia Viviane Barci de Moraes, previa R$ 3,6 milhões mensais, contando impostos. Em três anos, o montante chegaria a R$ 131 milhões, dos quais R$ 108 milhões seriam a remuneração líquida da banca. A minuta foi enviada por Viviane a Vorcaro pelo WhatsApp em 11 de janeiro de 2024. Quatro dias depois, o banqueiro devolveu o arquivo com uma cláusula incluída. E a versão final, enviada em 17 de janeiro às 10h03, foi aberta e modificada no sistema Office 365 por uma conta identificada como “Ministro Alexandre de Moraes”, às 23h04 de 15 de janeiro.

O escritório confirmou que o ministro acessou e editou o contrato. A justificativa: o setor de compliance da banca pediu a Moraes, “na condição de marido da sócia diretora”, informações sobre possíveis impedimentos legais. A nota afirma que o ministro “jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master” e que o contrato foi assinado e os serviços “devidamente prestados”. A Frente Livre já apontou a falha lógica dessa defesa: como uma consultoria tão cara, com 15 advogados, 94 reuniões e 36 pareceres de compliance, não freou a fraude bilionária que quebrou o banco? Ou o compliance era de fachada, ou a banca foi omissa. Nenhuma das hipóteses justifica a cifra.

“O careca não pode atrasar”

A relação não era só contratual. Era pessoal. Em 15 de março de 2024, Fábio Faria, ex-ministro do governo Jair Bolsonaro, cobrava Vorcaro sobre a demora em quitar os pagamentos ao escritório. “Depois vê aí que preciso retornar o careca”, escreveu o ex-deputado. Diante da resposta do banqueiro, Faria insistiu: “Manda pagar a ele”. E completou: “O careca não pode atrasar”. Faria ainda pediu o contato de Angelo Silva, responsável por liberar os pagamentos dentro do banco: “Passa o contato do Angelo que passo pra ele”.

No mesmo dia em que a minuta do primeiro contrato foi enviada, Faria avisou Vorcaro que Moraes confirmara um jantar dali a duas semanas. “Fala pra patroa aí que o Careca confirmou o jantar com a gente no dia 02/02. Os 3 casais”, escreveu. O banqueiro comemorou: “Boaa”. Em 23 de janeiro, dia em que Vorcaro assinou formalmente o contrato, Faria voltou ao assunto: “Sexta-feira dia 02 temos jantar com o Alex… E as esposas. Bom que ela já vai conhecer Patrícia e a Vivi”.

Pix não, por favor

A discrição era método. Em 1º de outubro de 2025, Vorcaro orientou que os pagamentos ao escritório não fossem feitos por Pix. O relatório da PF não explica o motivo. Em julho de 2025, após um pagamento de R$ 3,42 milhões ao Barci de Moraes, o ex-banqueiro orientou que ninguém tivesse acesso ao contrato. A relação também envolveu R$ 40 milhões em ativos ligados a um jato e um helicóptero. “Já usaram aviões e helicópteros”, disse Marcos da Mata. “Estão gostando da utilização das cotas de vcs”, perguntou. Viviane respondeu: “Sim, estamos gostando muito”. Havia ainda uma fatura de R$ 22,8 milhões e a menção a um “risco reputacional grande”.

O sistema que se devora

A ironia é completa. O mesmo Vorcaro que financiou o Centrão e a extrema direita, que pagou a cinebiografia de Bolsonaro, que foi preso por fraude bilionária, também era o “cliente” da banca da esposa do ministro que se tornou símbolo do combate ao golpe. O mesmo sistema que investiga a direita está enredado no dinheiro do banqueiro que financiou a direita. O “careca” jantava com o banqueiro, editava o contrato da mulher e recebia os pagamentos que “não podiam atrasar”. A PF ligou os pontos. E o bicho pegou.

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