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GEOPOLÍTICA

EUA atual e Gilead: a realidade caminha rápida para a distopia

Tudo começa com as deportações e prisões. Daqui a pouco, mulheres serão declaradas escravas sexuais de "famílias de bem"

A distopia não nasce de repente. Ela se insinua nas frestas da democracia, na normalização do absurdo e na instrumentalização do medo. The Handmaid’s Tale, a obra-prima de Margaret Atwood, nos apresentou Gilead, país nascido depois de uma guerra civil em que conservadores tomaram o poder à força nos EUA. Dominando toda a costa leste, construíram uma sociedade teocrática, totalitária e ultraconservadora, onde a liberdade foi esmagada e corpos femininos viraram propriedade do Estado.

Observando os eventos recentes nos Estados Unidos sob a batuta de Donald Trump – a guerra no Oriente Médio, as deportações em massa, a militarização interna e o aumento da violência política – somos forçados a indagar: será que o império está começando a olhar para o próprio reflexo em Gilead? A Frente Livre desvenda as perturbadoras semelhanças que transformam a ficção em um aviso sombrio.

Em Gilead, o controle sobre os indivíduos é absoluto, sustentado por uma força militar onipresente que impõe “ordem” através da brutalidade. Nos Estados Unidos de hoje, vemos um movimento perigosamente semelhante com a militarização das políticas internas. O governo Trump lançou uma campanha de deportações em massa de trabalhadores indocumentados em Los Angeles, uma cidade de maioria latina, não mirando criminosos violentos, mas locais de trabalho e espaços públicos. Para atingir a meta ambiciosa de um milhão de deportações anuais, o governo não hesitou em mobilizar as Forças Armadas em solo americano, “federalizando” a Guarda Nacional da Califórnia contra a vontade do governador e da prefeita. O pretexto de “restaurar a ordem” após protestos – que poderiam ser contidos por forças policiais locais – serviu apenas como desculpa para usar os militares em apoio logístico a uma agenda repressiva de imigração. Essa ação ecoa a forma como Gilead emprega seus “Olhos” e “Tias” para controlar cada aspecto da vida de seus cidadãos, transformando a segurança em um instrumento de opressão.

A supressão da dissidência e a erosão dos direitos fundamentais são pilares de Gilead, onde qualquer voz que se levante contra o regime é silenciada com violência. No cenário norte-americano, apesar das promessas de “democracia”, os protestos massivos, como as manifestações “No Kings”, que reuniram 5 milhões de pessoas em 2 mil pontos, foram recebidos com a militarização do espaço público. Embora a maioria das demandas fosse legítima – de cortes no Medicaid a desmantelamento de programas governamentais – a resposta foi o envio de tropas. A judicialização de decretos presidenciais arbitrários e a tentativa de “federalizar” a Guarda Nacional em outras cidades lideradas por democratas são ataques diretos aos governos locais e às “Cidades Santuário”, que se recusam a compactuar com a caça a trabalhadores indocumentados. Essa imagem de um governo que vê o próprio povo como “inimigo” a ser contido pela força lembra a brutalidade de Gilead em suas “Salvagings” (execuções públicas) e a forma como a liberdade de expressão e reunião são sistematicamente esmagadas.

A política externa de Gilead é expansionista e justificada por uma ideologia distorcida. Da mesma forma, a guinada de Trump para o apoio militar ofensivo a Israel contra o Irã, utilizando bombardeiros B-52, revela uma política externa perigosamente similar. Apesar de anos de críticas às intervenções inúteis no Oriente Médio, Trump agora adota a estratégia de “mudança de regime”, um eco direto da farsa das “armas de destruição em massa” que justificou a invasão do Iraque. A retórica de Trump, questionando a capacidade do Irã de se “TORNAR GRANDE NOVAMENTE” para justificar uma intervenção, é a materialização da falácia de que se pode “impor” a democracia pela força. Assim como Gilead busca expandir sua “ordem” por meio da guerra e da subjugação, os EUA e Israel perseguem o objetivo de um Irã “fragmentado, fraco, caótico, desestabilizado e marcado por uma guerra civil” para garantir que ele “não ofereça resistência ao projeto colonialista israelense na Palestina e ao seu papel como agente do poder imperialista dos EUA na região”.

A hipocrisia e a instrumentalização da vida humana são traços marcantes de ambas as realidades. Em Gilead, as aias são meros vasos reprodutores, e a vida é descartável em nome de uma ordem religiosa. Nos EUA de Trump, o desdém explícito por soldados mortos em combate, chamados de “perdedores” e “idiotas”, contrasta cinicamente com a ostentação de desfiles militares custosos. Essa instrumentalização das Forças Armadas para um espetáculo pessoal, enquanto se desvaloriza a vida de quem serve, reflete uma mentalidade que vê pessoas como peças em um tabuleiro de poder. O aumento da violência política, exemplificado pelo assassinato de Melissa Hortman, a presidente da Câmara de Minnesota, por um evangélico pró-Trump que mantinha uma lista de políticos democratas a serem executados, mostra como a polarização extrema pode degenerar em terrorismo doméstico, um espelho das perseguições e execuções sumárias em Gilead.

Em suma, embora os Estados Unidos de hoje não sejam, em sua totalidade, a teocracia de Gilead, os paralelos traçam um mapa perigoso. A militarização da vida civil, a supressão de direitos sob o pretexto de “ordem”, a política externa agressiva mascarada de “liberdade” e a instrumentalização das pessoas e da verdade são os ingredientes de uma distopia. The Handmaid’s Tale é um alerta, e a Frente Livre está aqui para garantir que a sociedade brasileira não ignore os sinais quando o império do Norte começa a espelhar a ficção mais sombria. A vigilância e a luta por uma democracia radical e justa são mais urgentes do que nunca.

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