O problema de Flávio Bolsonaro com a verdade não é a mentira, é a sinceridade, que vez por outra escapa pela boca errada. Na segunda-feira (19), a boca errada foi a de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e hoje coordenadora do núcleo econômico da campanha, e a sinceridade foi esta: caso o patrão vença a eleição de domingo (25), o Bolsa Família terá uma “regra de transição” de dois anos e, findo o prazo, o beneficiário será desligado do programa. Foi o que ela disse à rádio CBN Bahia: “Após esse prazo, os beneficiários seriam desligados do programa”. É o fim do Bolsa Família.
A frase completa de Daniella merece ser lida inteira, porque cada palavra é uma aula sobre como se fala do pobre quando se fala dele de cima. “Vai ter regra de transição de dois anos para que possa abrir seu negócio, ou aceitar emprego de carteira assinada. Todo mundo merece sonhar com algo com mais oportunidade, dignidade”, declarou. “Quem está no Bolsa Família vai ter regra de transição, como teve na época do presidente Bolsonaro, de dois anos para que possa abrir o seu negócio ou aceitar um emprego de carteira assinada. Com uma regra de transição por dois anos e o retorno automático caso dê errado. As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família. Aquilo é uma proteção, mas é um início de uma jornada”.
O eufemismo da jornada
Traduzindo do gestorese para o português das ruas: a “transição” é o prazo de expulsão. O beneficiário, na gramática deles, não é cidadão titular de uma renda mínima garantida, é estagiário num programa de reabilitação com período probatório de dois anos, ao fim do qual, ou se emancipa, ou sai. O benefício deixa de ser direito e vira “proteção”, a renda vira “início de jornada”, e a expressão “presas para sempre”, que Daniella usou sem esforço, entrega o pressuposto: para o bolsonarismo, quem depende do Bolsa Família está encarcerado, e a solução para o cárcere da pobreza não é garantir renda, é abrir a porta e empurrar.
A história da “época do presidente Bolsonaro”, que a própria coordenadora invocou como modelo, merece ser lembrada com precisão. Naquela época, o programa passou três anos sem reajuste, de 2019 a 2021, congelado em R$ 189, com a inflação corroendo o valor e o próprio Jair Bolsonaro dizendo a apoiadores, em maio de 2019, que faria uma “desintoxicação” das pessoas do Bolsa Família, comparadas por ele, sem constrangimento, a animais no zoológico. Na época do presidente Bolsonaro, em 2022, às vésperas da eleição, o programa foi rebatizado de Auxílio Brasil, engordado para R$ 600 e depois reforçado para R$ 1.100 para metade das famílias em pleno segundo turno, o enchimento eleitoral de caixa mais escancarado da história do programa. Essa é a tradição que Daniella apresenta como referência de “transição”.
E há uma ironia técnica que os aliados apressados em apagar o incêndio confirmaram sem perceber. A regra de continuar recebendo o benefício por um tempo depois de conseguir emprego formal já existe, existe há anos, foi institucionalizada até como regra de permanência na lei que recriou o Bolsa Família como política de estado em 2023. Se o que Daniella quis dizer foi apenas isso, como correram seus interlocutores a explicar, então o anúncio não anuncia nada, e o que restou de genuinamente novo na fala dela é exatamente isso: o desligamento após dois anos.
A matemática da fila
A pergunta sem resposta continua sendo a única que importa: e depois dos dois anos? Não há documento, não há estudo, não há número. Ou o programa acaba de uma vez, com os dois anos servindo de cortina para a extinção, ou vira sistema de rotatividade, em que cada família “emancipada” abre vaga para a próxima, e o benefício funciona como poltrona de lotação com fila na porta. Nos dois cenários, a resposta à pergunta é a mesma: a ideia de que o Estado brasileiro garante a ninguém menos que o mínimo para viver, a renda mínima de cidadania, morre. Morre na extinção limpa, morre na rotatividade disfarçada, e morre sob o nome bonito de “regra de transição”, que é como se chama, no vocabulário da exclusão, o aviso de despejo com prazo.
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O pânico dos aliados
O que irritou os aliados de Flávio, conforme a coluna de Igor Gadelha no Metrópoles, não foi o conteúdo da fala, foi o timing. Daniella falou na mesma segunda-feira (19) em que o governo Lula anunciou a antecipação do calendário de pagamento do Bolsa Família na semana do segundo turno, e os bastidores não perdoaram: “Ela não precisa dizer o que está dizendo agora”, confessou um aliado do candidato, sob reserva, e lideranças próximas a Flávio afirmam que a declaração, mal colocada na reta final, “pode custar a eleição”. Leiam-se as duas frases em sequência, porque juntas elas dizem tudo o que precisa ser dito: o plano é esse, o erro foi ter falado. A fala da coordenadora custa votos precisamente porque é verdadeira, e o trabalho dos aliados, nas últimas 24 horas, não foi desmentir o desligamento, foi desmentir a sinceridade de quem o anunciou.
Heresia de segunda mão
O método, aliás, não é exclusividade do Bolsa Família. Na coluna publicada no O Globo desta terça (20), reproduzida pelo Diário do Centro do Mundo, Miriam Leitão demoliu o pacote econômico de Flávio Bolsonaro como “leilão de populismo”: o candidato copia as propostas de Lula, aumenta as ofertas e improvisa sem estudos prévios, prometendo ao mercado financeiro um corte de gastos de R$ 200 bilhões e, no debate da Band, reservando os mesmos R$ 200 bilhões, pescados numa “conta rápida” sobre a queda dos juros futuros, para anunciar: “Sabe o que eu vou fazer com isso? Eu vou ajudar você a pagar a sua dívida”. A colunista chamou de “heresia econômica e monetária” usar a redução do custo da dívida pública para ampliar gastos, e anotou a tática completa: fugir das perguntas pela tangente, repetir à exaustão propostas de segurança pública, partir para o ataque quando é confrontado com os indícios de corrupção dele e da família, copiar o adversário dizendo que fará tudo igual e mais.
O Bolsa Família com prazo de validade é a mesma engenharia em escala humana: uma promessa de dois anos sem custo estimado, sem público definido, sem plano para quem for desligado, sem resposta para a pergunta que ficou no ar. A propaganda chama de transição. O dicionário, mais honesto, chama de expulsão. Domingo (25) é o dia em que se assina, ou se rasga, o aviso de despejo.

