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Flávio Bolsonaro na entrevista ao Jornal Nacional. Foto: Reprodução Twitter
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Flávio mente, nega e joga Vorcaro no colo da Globo

Pacto de silêncio da máfia: Flávio ataca a Globo para se salvar

O candidato neofascista à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) participou da sabatina do Jornal Nacional nesta sexta-feira (28) com três palavras escritas na palma da mão esquerda: “Mudança”, “Futuro” e “7/set”. O recurso repete o pai, Jair Bolsonaro, que em 2022 levou “Nicarágua”, “Argentina”, “Colômbia” e “Dario Messer” anotados na mão e não tocou em nenhum dos temas durante os 40 minutos de entrevista. O filho manteve a tradição da família: a cola veio, as respostas, não.

Confrontado por César Tralli e Renata Vasconcellos, Flávio colecionou mentiras, desvios e um embaraço que ele mesmo provocou ao tentar jogar o peso da relação com o falido banqueiro Daniel Vorcaro no colo da própria Globo. Tutti buona gente, como sempre.

O pacto de silêncio da máfia

Flagrado em comunhão financeira com Daniel Vorcaro, o corrupto banqueiro do Banco Master, Flávio foi questionado sobre os cerca de R$ 61 milhões repassados para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia do pai. “Eu não recebi dinheiro nenhum”, negou o candidato, antes de dizer que o recurso foi destinado aos produtores do longa.

Renata insistiu sobre o contrato negociado por Flávio com Vorcaro e cobrou a divulgação dos termos. O candidato afirmou que não caberia a ele revelar detalhes caso outras pessoas não autorizassem. “A minha relação com ele, Renata, sempre foi relativa ao filme, absolutamente”, declarou. A investigação do Intercept Brasil revelou que Flávio negociou com Vorcaro um compromisso de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, e que pelo menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, foram pagos em seis operações entre fevereiro e maio de 2025.

Diante do cerco, Flávio recorreu à tática do pacto de silêncio da máfia: lembrou que a TV Globo também tem ligação com Vorcaro. O candidato afirmou que o banqueiro teria destinado R$ 160 milhões a um programa de Luciano Huck e R$ 50 milhões à Editora Globo e a eventos do Valor Econômico, incluindo uma palestra em Nova York. As cifras foram apresentadas por ele e não foram confirmadas durante a entrevista. O Will Bank, então controlado pelo grupo Master, patrocinou o “Domingão com Huck” em acordo estimado entre R$ 120 milhões e R$ 160 milhões, mas não há comprovação pública de um pagamento específico de R$ 50 milhões à Editora Globo nos termos apresentados por Flávio.

César Tralli rebateu a comparação e afirmou que as relações da Globo com anunciantes são pautadas pelo cumprimento das leis, pelas regras de autorregulamentação publicitária e pela transparência. Mas o contrangimento era palpável.  A confusão surtiu o efeito desejado. Ainda meio sem aturdido, o apresentador ainda lembrou que a proximidade de Flávio com Vorcaro é relevante para os eleitores porque o banqueiro é investigado no caso Master, descrito por Tralli como “a maior fraude financeira do sistema brasileiro”.

A TV Globo, Daniel Vorcaro, Banco Master e Flávio Bolsonaro todos juntos e misturados no horário nobre.

O livro que não fecha

Sobre a prestação de contas do “Dark Horse”, Flávio afirmou que “tudo já veio à tona” e classificou o episódio como “um livro fechado”. Disse que não assinou o contrato pessoalmente e que não caberia a ele torná-lo público. “Não firmei contrato com ninguém”, declarou.

A realidade é outra. Em 19 de maio, após a divulgação das conversas em que negociava recursos com Vorcaro, Flávio prometeu que a prestação de contas chegaria “a todo mundo” em até 30 dias e “de forma transparente”. O prazo passou sem a divulgação. O documento usado para sustentar que as contas foram prestadas é uma perícia privada contratada pela defesa de Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go Up Entertainment, apresentada em um inquérito da Polícia Civil de São Paulo. O laudo calcula que o filme consumiu cerca de R$ 75,2 milhões, mas não revela os nomes dos financiadores, contratos, notas fiscais ou pagamentos individualizados. O próprio perito admitiu que o trabalho não permite rastrear o destino final do dinheiro, e a Polícia Federal apura a destinação dos recursos, parte dos quais passou pelo fundo Havengate, nos Estados Unidos, ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro.

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O miliciano ‘exemplar’

Na área de segurança, Flávio tentou minimizar a relação com o ex-capitão da Polícia Militar Adriano da Nóbrega, apontado pelas autoridades como chefe do Escritório do Crime, grupo de matadores ligado à milícia do Rio de Janeiro. O candidato afirmou que Adriano era, na época da homenagem, um “policial exemplar” e que não poderia ser responsabilizado pelo que faria anos depois. “Me responsabilizar por uma pessoa depois de 5, 10, 15, 20 anos, vamos combinar que não está no meu controle”, afirmou.

O histórico é mais complexo. Adriano recebeu a Medalha Tiradentes por iniciativa de Flávio em 2005, quando estava preso preventivamente por homicídio. A mãe e a ex-mulher de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) por mais de uma década, até novembro de 2018, e a mãe do miliciano apareceu nas apurações sobre o esquema de “rachadinha”, com dados bancários apontando repasses a Fabrício Queiroz, então assessor de Flávio.

Como se as mentiras em série e a tática de mafioso não fossem o bastante, Flávio Bolsonaro revelou ainda um despreparo absurdo sobre um tema dos mais importantes da atualidade: o aquecimento global. Questionado por um artigo que escreveu em 2019, em que nega a emergência climática, o neofascista desconversou e disse que admite a existência de “eventos extremos”. E, num rasgo de pusilanimidade e idiotia, afirmou que num eventual governo seu o problema seria resolvido com saneamento básico.

A mentira sobre o voto

Flávio ainda tentou desqualificar o ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), Carlos de Almeida Baptista Júnior, afirmando que o depoimento sobre a tentativa de golpe “não é grave” porque o brigadeiro “hoje está pedindo voto para Lula”. A afirmação é contrariada pelas declarações públicas do próprio militar. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Baptista Júnior afirmou que votou em Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022 e que se considerou bolsonarista. O ex-comandante não apresentou apoio eleitoral a Lula, e criticou tanto Flávio por voltar a questionar o sistema eleitoral quanto Lula pelo discurso adotado na relação com os Estados Unidos.

O candidato não indicou entrevista, publicação ou qualquer outra fonte para sustentar a acusação. No fim, a sabatina deixou exposto o que a Frente Livre denuncia há anos: um candidato que mente sobre o dinheiro, defende miliciano, inventa voto alheio e, quando encurralado, apela ao pacto de silêncio da máfia jogando a culpa nos outros. A cola na mão tinha três palavras. As respostas, nenhuma.

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