O Brasil respondeu antes de ele abrir a boca. No momento em que a sabatina começou, São Paulo, Rio, Salvador e Recife já estavam na janela, com panela e colher, fazendo o som que não pede licença. O panelaco foi convocado de manhã, espalhado pelas redes, reforçado por André Janones, que escreveu: “Dilma Rousseff será vingada hoje”. E rolou durante a entrevista inteira — o coro das casas contra o filho do homem que, em 2015, mandou bater panela contra uma mulher eleita democraticamente. A história tem um senso de ironia que nenhum roteirista teria a coragem de escrever.
Lá dentro do estúdio, Renata Lo Prete fez o seu trabalho. E é o primeiro fato a registrar: houve, pela primeira vez em muito tempo, um confronto de verdade. Não uma conversa amistosa, não um duelo de discursos — uma jornalista que enunciou o princípio na primeira oportunidade: “Eu não vou me referir aqui a informações que não estão confirmadas.” O candidato acabara de entrar no estúdio trazendo um saco cheio de denúncias contra Lula — João Vaccari, um documentário de R$ 30 milhões, fundos de pensão — e a entrevistadora olhou para o saco e disse que ali não havia terreno firme para pisar. Essa é a cena que resume a noite: o candidato tentou vender mercadoria sem nota, e o jornalismo recusou a compra.
Porque o que a sabatina revelou, antes de qualquer conteúdo, foi um método. Chamo de método Flávio, e ele funciona em quatro movimentos, todos exibidos na mesma noite.
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Primeiro movimento: a pergunta vira contra-ataque. Perguntam sobre o pedido de R$ 134 milhões ao banqueiro Vorcaro, o corruptor-geral da República, para financiar o filme sobre o pai — dos quais, segundo o delator, R$ 72 milhões atravessaram o mundo até um fundo nos Estados Unidos —, e a resposta é Lula. Vaccari. O PT. Faixa azul em São Paulo. Empréstimo da prefeitura de Ricardo Nunes. O escândalo é dele; a acusação, sua. Assim funciona a trivela clássica: se eu responder à pergunta, eu perco; se eu mudar a pergunta, o tempo passa e o telespectador vai dormir.
Segundo movimento: o espelho torto. Confrontado com o patrocínio do banqueiro, ele respondeu com a Globo: “O programa de Luciano Huck recebeu mais de R$ 160 milhões para fazer propaganda do banco do Vorcaro. E o que tem de errado nisso? Nada.” Se não me engano, acrescentou, com a honestidade retrospectiva de quem cita números que não sabe. Lo Prete cravou a distinção que ele tentava apagar: “Compra de espaço comercial de patrocínios não é igual a financiamento de filme.” Dinheiro pago para exibir propaganda, com regras de transparência, é uma coisa. Dinheiro que atravessa um fundo no exterior para financiar a cinebiografia do ex-presidente, sem contrato público, é outra. O espelho torto só funciona quando ninguém descreve o espelho.
Terceiro movimento: a senhorinha com Bíblia. Perguntado diretamente sobre o 8 de Janeiro — e Lo Prete fez a pergunta como ela deve ser feita, listando a invasão dos três Poderes, a destruição das salas, os ataques a policiais com pedras, coquetéis molotov e barras de ferro, o roubo de armas do Gabinete de Segurança Institucional, e então perguntando: “O senhor considera que pessoas que fazem isso devem ser punidas de que forma?” — o candidato respondeu com uma senhora que segurava uma Bíblia. Com vendedores que estavam por ali. Com a tese do “golpe em prédios vazios”. Com o pai acusado de “destruir patrimônio por wi-fi, à distância”. E chamou de “farsa” a condenação definitiva a 27 anos e três meses — a condenação que reconheceu tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa armada. Reparem no tamanho da manobra: transformar o atentado mais documentado da história da República em ecoar de uma senhora sem ser um dia culpa. Isso não é negação — é a negação que precisa de um figurante para existir.
Quarto movimento: o desprezo disfarçado de realismo. Sobre a folga conquistada pelo fim da escala 6×1, ele disse que o trabalhador, mesmo descansando, “vai continuar andando de ônibus e sendo assaltado” — e completou: “você vai continuar dormindo preocupado, porque você tá devendo e o seu salário não tá durando até o dia 30, tá durando só até o dia 20”. Escutem essa frase com atenção, porque ela é o manifesto involuntário da candidatura. O direito conquistado pelo trabalhador é apresentado como cenário de crime e dívida. O descanso, como ocasião para o assalto. A folga, como ameaça. Quem governa para quem, quem enxerga o povo como gente ou como gasto — está tudo aí, numa única resposta que não responde.
E então veio o golpe do tempo. Aconteceu durante a própria noite: o liquidante da massa falida do Banco Master, Eduardo Bianchini, informou — em ofício à Câmara, revelado pela coluna da Mônica Bergamo — que não foram encontrados “documentos, registros contábeis ou contratuais” do patrocínio do filme nas contas do banco. Nenhum. O candidato tinha acabado de dizer, no ar, que tudo estava na prestação de contas da produtora. No mesmo dia, o responsável por vasculhar os restos do banco declarou que o patrocínio, simplesmente, não está lá. E a PF, que já tinha ouvido o delator “Mineiro” — o empresário que pagou US$ 12,3 milhões ao fundo Havengate, administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, acreditando fazer um investimento imobiliário — pediu ao ministro André Mendonça 90 dias a mais de inquérito. A única resposta sólida que a sabatina tentou dar morreu antes de o programa acabar.
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Fica, então, o perfil. O que resta do entrevistado depois de desmontados os quatro movimentos? Restam três declaracões que ninguém o obrigou a fazer — e que ele fez de propósito.
Resta a entrega. “O Brasil vai fazer parte do Escudo das Américas”, prometeu — o projeto de Trump que já coloca soldados estadunidenses no território de Colômbia, Equador e Paraguai. E mais: “Vou declarar PCC, CV e milícias como organizações narcoterroristas porque é o que eles são” — copiando a etiqueta que a Casa Branca usa para legitimar operações militares na América Latina sem pedir licença a ninguém. Na véspera, na mesma sabatina, Lula tinha rejeitado a categoria e lembrado que os EUA, quando falam em terrorismo, falam em terrorismo de Estado. O filho, na sua vez, entregou o mapa. Um candidato à Presidência da República prometendo soldados estrangeiros no território nacional: não é um detalhe da sabatina, é o programa. O resto é rótulo.
Resta a milícia. Ele declarou que vai classificar milícias como narcoterrorismo — as milícias do Rio, as que seu aliado-político protegeu, as que matam de quarteirão em quarteirão onde ele nasceu. O rapaz que cresceu na casa do capitão que fundou o seu passado político anunciando que vai perseguir as milícias é a mesma pessoa que, em toda a sabatina, não explicou por que o dinheiro que pediu a um banqueiro investigado não tem registro nenhum.
E resta a simetria: o homem que chama de “farsa” o julgamento do pai — condenado por tentar romper a democracia — propõe, para si, um país onde o julgamento dos Estados Unidos vale mais que a soberania, e onde a Bíblia de uma senhora vale mais que a perícia de um tribunal. Não é incoerência. É coerência: para quem não aceita ser julgado aqui embaixo, só sobra pedir julgado lá em cima.
A sabatina terminou e o panelaco terminou juntos. E a pergunta que fica não é sobre o candidato — essa já sabemos. É sobre nós: vamos responder com panela ou com urna? Porque a panela gera som; a urna gera poder. E o país, nesta eleição, tem 2 de outubro à frente para decidir qual dos dois é que muda o futuro.
Faltam poucos dias. O método Flávio está destrinado, gravado, documentado. Falta o veredito — e esse, dessa vez, não será dado por tribunal, nem por jornalista, nem por banqueiro: será dado pela urna.
Que a panela da sexta tenha sido o ensaio. E que a urna seja a última palavra.

