O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, comemorou nesta terça-feira (8) o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada da Costa, determinado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão é uma encomenda sob medida para a candidatura neofascista: ao mesmo tempo em que fabrica uma crise que transforma o próprio Supremo em notícia, paralisa as investigações que podem atingir o clã Bolsonaro. O próprio beneficiário tratou de deixar isso claro a quem ainda não entendeu.
A comemoração que expõe a encomenda
Em publicação nas redes sociais, Flávio chamou o chefe da PF de “companheiro, camarada, amigo, irmão, brother, cupincha, parça, aliado, preposto, indicado, pau-mandado de Lula”. Ele afirmou que a Polícia Federal deveria retomar autonomia para investigar criminosos, e não adversários políticos de Lula, e classificou a corporação como um suposto “grupo especial de Lula na Polícia Federal” que teria sido “desmascarado oficialmente”.
Na mensagem, o senador escreveu na íntegra:
“Chefe da PF (companheiro, camarada, amigo, irmão, brother, cupincha, parça, aliado, preposto, indicado, pau-mandado de lula) acusado de liderar investigações clandestinas contra um ministro do STF. Grupo especial de lula na Polícia Federal desmascarado oficialmente.”
A dupla função da caneta
Mendonça afastou os dois diretores por até 90 dias, alegando ter sofrido “monitoramento sistemático e ilegal” por mais de 30 dias. A liminar saiu a menos de um mês das eleições de 4 de outubro, atendendo a pedido do partido Novo. O efeito é duplo: de um lado, incendeia o Supremo com uma crise fabricada e desvia a atenção do noticiário; de outro, decapita a cúpula da PF e retira da rua o que interessa — as apurações do caso Master e do caso Dark Horse que podem atingir o candidato neofascista.
A turma que referenda
Na Segunda Turma, os ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques votaram para manter a decisão e formaram maioria. Gilmar Mendes pediu vista e suspendeu o julgamento. Dias Toffoli não votou — o ministro, envolvido com o banqueiro Daniel Vorcaro a ponto de se declarar suspeito em desdobramentos do caso Master, preferiu o silêncio. O interino William Murad, diretor-executivo da PF, afirmou que a corporação não se deixará abalar por “ataques”.
Fachin tenta conter a crise
A decisão é vista até dentro do Supremo como crise a conter. O presidente do tribunal, ministro Edson Fachin, avalia retirar temporariamente de Mendonça a relatoria das investigações que envolvem o Banco Master e o INSS, segundo a Folha de S.Paulo. Fachin reuniu auxiliares no domingo (6) para discutir como conduzir a disputa. Na quinta-feira (3), ele já havia determinado que Mendonça, o ministro Alexandre de Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e Andrei Rodrigues prestassem informações em até cinco dias sobre o relatório da PF que citou as autoridades.
O histórico que condena
Mendonça é o relator do caso Master que já admitiu encontro privado com Daniel Vorcaro após o vazamento de áudios; retirou o sigilo de mensagens entre Vorcaro e Moraes no momento exato em que o bolsonarismo precisava de munição; e mantém a delação do caso Dark Horse guardada na gaveta. O instituto ligado ao ministro, segundo apuração, faturou R$ 10,8 milhões em 55 contratos públicos sem licitação.
As reações em três frentes
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ligou para Andrei Rodrigues e marcou reunião para esta terça-feira. A Advocacia-Geral da União (AGU) vai recorrer, alegando violação da competência privativa da Presidência da República. O PSOL-Rede articula, com partidos de esquerda, pedido de impeachment de Mendonça, apelidado nos bastidores de “Novo Moro”.
O plenário como última trincheira
Resta o plenário, onde o bom senso ainda reina — e Mendonça deve ser derrotado. Mas cada dia de liminar em vigor é um dia de investigação paralisada, um dia de crise fabricada roubando o noticiário, um dia de democracia sangrando. A comemoração do beneficiário entregou o jogo: não é reforma, é golpe sob encomenda. O país espera a resposta, e o relógio corre.
