Flávio Bolsonaro quer transformar o Brasil na Venezuela. Não é exagero de campanha. É leitura de documento, de discurso e de geopolítica — e os elementos estão todos na mesa. Basta olhar para o que aconteceu com o ouro venezuelano, para o que Flávio prometeu em Washington e para o que o Brasil tem que o mundo quer. O retrato está pronto. Falta o Brasil enxergar.
O ouro que deixou de ser do país
Comecemos pelo exemplo que não deixa dúvida. As 31 toneladas de ouro da Venezuela — avaliadas em US$ 4 bilhões — estavam congeladas no Banco da Inglaterra desde 2018. Agora serão transferidas. Mas o destino não é Caracas. É o Federal Reserve de Nova York. Pelo acordo entre a oposição venezuelana, o Departamento de Estado e o governo interino, a Venezuela recupera o “direito legal” sobre as reservas — mas não pode vendê-las, nem movê-las, nem usá-las fora do controle americano. Pode apenas usá-las como garantia para empréstimos que os EUA autorizarem.
Isso é o que acontece com um país que se curva. A potência não precisa invadir. Não precisa ocupar. Ela administra. Decide o orçamento, controla a receita, guarda o ouro em Nova York e devolve ao “dono” o direito de usar o próprio patrimônio — só se a potência deixar. Desde o sequestro de Maduro, é o governo Trump que dá as cartas na Venezuela. O país é soberano no papel. Na prática, é uma colônia financeira.
E é exatamente isso que Flávio está oferecendo ao Brasil.
O candidato que antecipa a submissão
Na quinta-feira (17), foi revelado o documento em que o governo Trump apresenta 21 exigências ao Brasil nas negociações do tarifaço. O levantamento do ICL cruzou o plano de governo de Flávio, suas declarações e as posições do entorno dele. O resultado: coincidência com 16 das 21 exigências.
Não é coincidência. É programa.
- Terras raras e minerais críticos: em 26 de maio, recebido por Trump na Casa Branca, Flávio anunciou “parceria estratégica de longo prazo” no setor — e apresentou o Brasil como alternativa para reduzir a dependência americana da China.
- Pix: em 2 de julho, ofereceu ao USTR um “compromisso legislativo” para impedir a integração do sistema a mecanismos de compensação “não ocidentais”. Ou seja: o candidato se ofereceu para desconectar o Pix brasileiro de qualquer rede que não seja a americana.
- Comércio: defendeu a AFTA, área de livre comércio com os EUA, com abertura a produtos importados.
- Liberdade de expressão: prometeu o “Tesouraço na Censura” e a revogação de atos considerados restritivos.
- Sanções: Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo atuaram em Washington pela aplicação de sanções americanas.
- Eleições: Flávio pediu “pressão diplomática” e monitoramento internacional do pleito brasileiro.
- Anistia: em 10 de julho de 2025, depois do tarifaço, Flávio foi direto: “O governo tem que aceitar o que foi imposto por Trump.” E apresentou a anistia como o primeiro sinal de disposição para negociar.
Flávio não esperou a lista chegar. Ele já estava vendendo a submissão antes de ela ser exigida. Não é um candidato que coincide com a agenda americana. É um candidato que a antecipa — e que se ofereceu para entregar o que o Brasil tem em troca do que a potência quer.
A rede dentro do QG
E não é só discurso. A gente já documentou a estrutura. Pedro Sang, articulador no Brasil da Rockbridge Network — a rede de financiadores da extrema direita americana fundada por J.D. Vance — trabalhava dentro do comitê de campanha de Flávio em São Paulo, numa sala no segundo andar do QG, ajudando a montar a estrutura física do comitê. O memorando “Prosperity Partnership”, escrito em inglês, propõe a parceria de um governo Flávio com os EUA para exploração de minerais críticos e terras raras. O documento fala inglês, termina numa reunião com Vance, e o operador da rede trabalha no comando da campanha.
A rede americana dentro do QG. O candidato que coincide com a agenda americana. O país vizinho que já se curvou. As três camadas da mesma história.
O vazamento como manobra
Aqui, o zelo que nos separa do adversário. Lula disse que o documento é do ano passado, que não chegou a ser negociado e que o vazamento visa prejudicar sua campanha. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo: o documento pode ser antigo e a coincidência de Flávio com ele pode ser real e o vazamento pode ter timing eleitoral. O que não muda é o conteúdo: Flávio coincide com 16 das 21 exigências, e isso está documentado em discursos, propostas e registros públicos — independentemente de quando o papel foi escrito.
O vazamento é a manobra. A coincidência é o fato. A gente não precisa escolher entre os dois para ver o desenho.
O contraste que define a eleição
E é aqui que a eleição se define. No mesmo dia, dois candidatos olham para o mesmo documento e respondem de formas opostas.
Lula chamou as exigências de “inaceitáveis” e “ultrapassadas”. Defendeu a industrialização local das terras raras — “explorar aqui e vender o produto acabado aqui” — e sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos, que condiciona a participação estrangeira à transformação industrial no território nacional. E fechou com a frase que resume o contraste:
“O Brasil não se curvará à arrogância de nenhum presidente de nenhum país do mundo.”
Flávio, do outro lado, prometeu a parceria de terras raras a Trump, ofereceu o Pix, defendeu a AFTA, pediu pressão diplomática sobre as eleições e disse que o Brasil “tem que aceitar o que foi imposto por Trump”.
Um quer transformar o que o Brasil tem em indústria. O outro quer entregar o que o Brasil tem em troca de alinhamento. Um responde com soberania. O outro responde com submissão.
O ouro de Nova York como espelho
A Venezuela é o espelho. O ouro dela está indo para Nova York porque o país se curvou. O orçamento é administrado de fora porque o país se curvou. A receita do petróleo é controlada pela potência porque o país se curvou. E o “direito legal” de usar o próprio patrimônio virou uma licença concedida por quem manda.
Flávio está oferecendo ao Brasil exatamente esse caminho. A parceria de terras raras, o Pix desconectado, a abertura comercial, a pressão sobre as eleições, a anistia como sinal — tudo isso é a Venezuela em versão brasileira. O país que entrega o minério, o sistema e o voto, e fica com o direito legal de usar o que é seu — se a potência deixar.
Temos todos os elementos. O ouro que deixou de ser do país. O candidato que antecipa a submissão. A rede dentro do QG. O presidente que responde com soberania. E uma eleição que vai decidir se o Brasil vira o espelho — ou se quebra o espelho.
O ouro da Venezuela está indo para Nova York porque um país se curvou; o Brasil tem a mesma escolha a duas semanas do voto.
