O sobrevoo dos ministros João Paulo Capobianco, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e Waldez Góes, da Integração e do Desenvolvimento Regional, sobre as áreas mais atingidas pelos incêndios na flotesta amazônica, sobretudo na região metropolitana de Manaus, capital do Amazonas, neste domingo (11), trouxe uma constatação que muda a leitura da crise: o fogo está queimando dentro da floresta, não nas beiradas de fazendas. Focos isolados em áreas preservadas e de difícil acesso, segundo o próprio Capobianco, indicam ação humana intencional para degradar o bioma e preparar o terreno para o desmatamento futuro.
Tradução sem meias palavras: tem gente sendo paga para entrar na mata e tocar fogo lá dentro. O incêndio não é acidente de estiagem — é obra, com orçamento e dono.
A resposta de quem está no comando
Enquanto o fogo avança, o governo Lula responde com máquina de guerra. Duas aeronaves KC-390 Millennium, da Força Aérea Brasileira, chegaram a Manaus nesta segunda (12) — uma delas equipada com o Sistema Modular Aerotransportado de Combate a Incêndios, capaz de lançar 12 mil litros de água pressurizada em um único voo, com três lançamentos por dia. “É uma aeronave multimissão configurável e uma das missões que ela faz é o combate a incêndios”, explica o tenente-coronel Daniel Souza, comandante do Esquadrão Zeus.
Ao todo, são 290 brigadistas federais em campo, seis aeronaves adicionais e o reconhecimento federal da emergência feito em caráter sumário, poucas horas depois do decreto do governador Roberto Cidade, que atingiu 36 municípios. O Amazonas recebeu, de 2023 até agora, R$ 372 milhões do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) para socorro e reconstrução, além de R$ 45 milhões do projeto ProAmazon para equipar o Corpo de Bombeiros.
O ministro Waldez Góes foi direto: “Não vai faltar nada: equipamentos, veículos, homens, recursos, tudo o que for preciso será disponibilizado. É assim que o Governo Federal vem fazendo desde 2023”. E rebateu os que tentam negar o esforço:
“Aproveito para refutar qualquer manifestação inverídica e mentirosa sobre o apoio do Governo Federal”.
Essa fala é uma referência a uma entrevista do comandante do Corpo de Bombeiros do Amazonas na última quinta-feira. Ao vivo, numa entrada do jornal local da TV Globo, ele afirmou que o Governo Lula se negara a auxiliar o estado no combate aos incêndios. Era mentira, feita sob encomenda. Minutos depois, cortes nas redes sociais da extrema direita pululavam com a tal entrevista. Naquele momento, porém, o Governo do Amazonas sequer decretara a situação de emergência. E ele próprio, o dito bombeiro, recusara pessoalmente o envio de homens e equipamentos oferecidos pelo IBAMA três semanas antes, em 25 de setembro.
Ministros João Paulo Capobianco e Waldez Góes sobrevoam as áreas mais atingidas pelo fogo nas cercanias de Manaus. Foto: Rodrigo Hanna/MIDR
O fogo que aposta na volta da impunidade
A pergunta que a Frente Livre faz é a que o sobrevoo não respondeu: por que agora? E a resposta está no calendário político. O governo Lula apertou a fiscalização, voltou a aplicar e cobrar multas milionárias sobre o desmatamento ilegal, e a derrubada da floresta caiu cerca de 50% entre 2023 e 2026, segundo dados do MapBiomas e do Ministério do Meio Ambiente. A impunidade encolheu — e o crime sentiu.
Mas veio o primeiro turno, e a votação inesperada de Flávio Bolsonaro acendeu a luz verde para o desmatador. Com a mera possibilidade de o candidato vencer e reeditar o desligamento da fiscalização ambiental e o perdão das multas — como o pai fez ao longo dos quatro anos em que governou —, a floresta voltou a queimar. O fogo dentro da mata é o ensaio do que o crime espera de um governo Bolsonaro: a caneta que apaga a multa e desliga o satélite.
Capobianco deixou o recado:
“É fundamental que as pessoas que estão agindo criminosamente vejam que serão punidas”.
A frase é a senha da disputa. Enquanto o governo Lula manda avião lançar 12 mil litros de água sobre o fogo, o mercado do desmatamento aposta em quem promete apagar a fiscalização. A Amazônia, mais uma vez, virou campo de batalha entre o Estado que protege e o capital que queima. E o voto de outubro decide qual dos dois vence.
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