Flávio foge para os EUA e vai tentar golpe com ajuda de Trump

Saiba o que está por trás da fuga do fascista derrotado por Lula na eleição presidencial

Por Frente Livre
Flávio Bolsonaro foge EUA
Jato apontado como veículo da fuga permanece aterrissado na Argentina, mas aliados confirmam que senador fascista já está a caminho dos EUA. Imagem: Roma News

Na noite de segunda-feira (26), pouco mais de 24 horas depois de perder a eleição por 4.430.191 votos, Flávio Bolsonaro fugiu do Brasil. Na terça (27), às 11h, venceu o prazo que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, havia lhe dado para entregar os passaportes — inclusive o diplomático. Os documentos não chegaram à Polícia Federal. O senador embarcou com a esposa, Fernanda, e as duas filhas, rumo aos Estados Unidos, onde pretende pedir asilo político ao governo de Donald Trump.

A Polícia Federal concluiu que ele não deixou o país por pontos regulares de migração. O portal argentino Infobae informou que ele cruzou a fronteira por terra, usando um documento de identidade, e de lá seguiu em jato. O governo argentino negou ter registro oficial da entrada. Damares Alves confirmou a fuga ao ICL. Uma autoridade do governo Trump disse estar “ciente da partida”. O Departamento de Estado não se pronunciou.

E o detalhe que define o personagem: antes de desaparecer, Flávio mandou uma mensagem ao senador Rogério Marinho, coordenador da sua campanha, dizendo que estava “esfriando a cabeça”. Não respondeu se havia saído do país. Esfriando a cabeça em outro hemisfério. É a única declaração de campanha que ele ainda consegue sustentar.

 

Flávio Bolsonaro fugiu EUA Internet brasileira recebeu enxurrada de memes sobre a fuga do fascista derrotado por Lula.

Flávio Bolsonaro fugiu EUA

 

Por que a fuga tem uma razão objetiva

Aqui é preciso ser didático, porque a direita vai tentar transformar isso em perseguição política. Não é. A fuga tem uma razão objetiva, mensurável em artigos do Código Penal e em datas de calendário judicial. São três camadas que se encaixam.

Primeira camada: o foro cai em 31 de janeiro

Flávio Bolsonaro é senador. O mandato termina em 31 de janeiro. Até lá, ele responde perante o Supremo Tribunal Federal por prerrogativa de função — o chamado foro privilegiado. A partir de 1º de fevereiro, sem mandato, os inquéritos perdem o abrigo do foro e tendem a descer para a primeira instância, onde o ritmo é outro, a exposição é maior e não existe a proteção institucional do Parlamento.

O professor de sociologia Thiago Esteves, da Universidade Federal de Ciência e Inovação do Rio de Janeiro, foi direto ao ponto:

Ele está fugindo porque sabe muito bem o que ele fez. Sem imunidade parlamentar, os malfeitos que ele, porventura, tenha cometido serão investigados.”

Leia o calendário como quem lê uma sentença. A fuga acontece exatamente na janela entre a derrota eleitoral e a perda do foro. Flávio tinha três meses de margem até 31 de janeiro. Não esperou nem três dias.

Segunda camada: os dois inquéritos que o esperam

O que exatamente pesa contra ele? Sem inventar, sem exagerar, sem transformar suspeita em condenação:

O inquérito da lavagem, com Willer Tomaz. É o mais grave e o mais recente. A Polícia Federal apontou Flávio como “usuário master” — o perfil de “nível elevado de acesso e gerenciamento”, com “acesso operacional relevante” — da conta bancária da Alcazar Holdings, offshore sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, de propriedade do advogado Willer Tomaz. A PF sustenta que essa condição “sustenta a hipótese de sua eventual participação econômica ou societária de fato na empresa”. O relator é Alexandre de Moraes. A investigação apura lavagem de dinheiro, evasão de divisas e apostas ilegais.

O contexto agrava. Tomaz — sócio, compadre e operador financeiro do senador — movimentou cerca de R$ 5 bilhões em apostas na Blaze em 2025, segundo nota técnica do Ministério da Fazenda, e foi apontado como a pessoa física que mais depositou em bets no país. Foram 629 apostas de R$ 500 mil ou mais. A PF investiga se as operações simularam apostas reais para ocultar dinheiro. E o salto que fecha a lógica: em 22 de maio de 2025, um mês após o estouro do escândalo do INSS, uma funcionária de Tomaz pediu ao Santander a desvinculação das contas — inclusive a de Flávio — e o banco executou a exclusão duas horas depois. Por determinação de Moraes, Flávio está proibido de manter contato com Tomaz. Foi essa a primeira ordem que ele desrespeitou ao fugir, porque fugiu para o mesmo país onde está o sócio.

O inquérito do Dark Horse. O filme sobre Jair Bolsonaro, financiado com dinheiro do Banco Master. A PF pediu apuração de lavagem de dinheiro e corrupção no financiamento. O áudio em que Flávio cobra do banqueiro Daniel Vorcaro o repasse de ao menos US$ 24 milhões (cerca de R$ 122,7 milhões) para a produção é matéria registrada. Relator: André Mendonça. Aqui, há suspeita de corrupção. Muito embora repita que o dinheiro vindo do Master é privado, na verdade, a tesouraria do banco de Daniel Vorcaro estava abarrotada de recursos postos lá por fundos de previdência de governos estaduais e prefeituras. Um dos que mais botaram grana foi a RioPrev, sob ordens do então governador Cláudio Castro, homem de Flávio Bolsonaro.

E há a terceira frente, aberta ontem. O ministro Flávio Dino determinou que a PF investigue financiamento estrangeiro na campanha de Flávio, incluindo o uso de plataformas digitais para beneficiá-lo e o interesse de grupos internacionais em minerais estratégicos e terras raras. A investigação que nasceu das apostas agora toca o ponto mais sensível da soberania brasileira.

Terceira camada: a rachadinha, para quem não conhece a história

É importante explicar, porque a defesa de Flávio usa isso como escudo e o eleitor precisa entender o que aconteceu de fato.

Quando era deputado estadual no Rio, Flávio foi investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro por um esquema de “rachadinha”: a prática de exigir que assessores do gabinete devolvessem parte dos salários ao parlamentar. O esquema envolvia seu então assessor Fabrício Queiroz, e a investigação produziu o que ficou conhecido como o relatório do Coaf sobre movimentações atípicas.

O caso não terminou em condenação. As provas foram anuladas pelo Superior Tribunal de Justiça e pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, que consideraram irregular a origem do material. O mérito nunca foi julgado. É um fato que a defesa invoca com razão do ponto de vista processual — e que aqui se registra com a mesma honestidade.

Mas há um detalhe que o eleitor precisa saber, e que liga a rachadinha ao presente: a fuga de hoje tem o mesmo método da rachadinha de ontem. Fabrício Queiroz, o operador do esquema, foi escondido por meses na casa do advogado Frederick Wassef — e Wassef foi, segundo o ICL Notícias, a última pessoa que visitou Flávio na segunda-feira (26), horas antes da fuga. O advogado que escondeu o operador é o que se despediu do senador. Não é coincidência: é procedimento.

O que a fuga diz sem dizer

Agora, o argumento mais duro, e o mais simples: quem é inocente não foge.

Se Flávio tivesse razão — se a eleição tivesse sido fraudada, se fosse perseguição política, se não houvesse nada a esconder nos dois inquéritos —, o caminho era o oposto. Ele tinha um palco perfeito: a tribuna do Senado, o mandato até 31 de janeiro, o foro no Supremo, o partido que reconheceu o resultado, os aliados que pediram prudência. Poderia ter enfrentado cada apuração com a imunidade intacta e transformado o martírio em capital político. É o que qualquer político com uma tese faria.

Ele não fez isso. Ele rompeu uma ordem judicial, saiu por um ponto irregular de migração, atravessou um país vizinho e foi pedir asilo ao governo de um presidente estrangeiro. O sociólogo Thiago Esteves resumiu o gesto: “Ele assinou sua sentença de culpa.”

Não é uma sentença jurídica — e esta matéria não a pronuncia. É a sentença que ele mesmo assinou, com o próprio corpo, ao trocar o Senado por um aeroporto.

E o que ele vai fazer lá

Aqui começa o efeito colateral contra o qual é preciso lutar desde já. Flávio não fugiu para defender um projeto de Brasil. Fugiu para não ser preso — e o papel dele no exterior será mobilizar os Estados Unidos contra o Brasil governado por Lula.

O modelo já está em operação, e o operador já está lá. Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos desde o início do ano, perdeu o mandato por faltar ao trabalho e atua como lobista do clã em Washington. Seu braço mais visível é o blogueiro Paulo Figueiredo, e a dupla teve papel direto na articulação do tarifaço contra o Brasil. A previsão dos aliados é que Eduardo encontre o irmão na Flórida nesta quarta-feira (28). A fábrica de pressão contra o Brasil não precisa ser construída: ela já funciona, com endereço, quadros e financiamento. Agora ganhou seu nome mais pesado.

E há a voz que antecipou o roteiro. Steve Bannon, ex-assessor da Casa Branca no primeiro mandato de Trump, disse à Folha na segunda (26) que acredita que Trump vai pressionar para anular a eleição brasileira — “isolar o regime marxista de Lula” — e afirmou, sem apresentar uma única prova, que Flávio venceu e vai assumir a presidência. Bannon repete a tese de fraude sem saber nem do que está falando, com a mesma segurança com que repete tudo. Não é análise. É promessa de operação.

O cálculo perigoso: Trump, o prazo e as terras raras

E aqui está o motivo pelo qual essa fuga é mais perigosa do que parece — e onde a leitura fácil falha.

Trump é, hoje, é um presidente enfraquecido e encurralado: com a eleição de meio de mandato em novembro de 2026 se aproximando, com a possibilidade de perder o Congresso, com a base cobrando resultado, e com a necessidade de exibir vitórias rápidas e visíveis para seu eleitorado. Já demonstrou o método: a 4 de outubro, quando o vencedor era o candidato dele, elogiou publicamente a rapidez e a lisura da apuração brasileira. Depois da derrota, chamou a mesma eleição de “fraudada” e “tão, tão corrupta”.

Um presidente em fim de ciclo, com pouco tempo e muita pressa, é mais perigoso do que um presidente em início de mandato. Não tem horizonte para construir; tem urgência para arrancar.

E ele tem uma razão material para querer o Brasil na mão. É aqui que ficam as terras raras. O Brasil está no centro da disputa global por minerais críticos — os insumos de ímãs permanentes, semicondutores, tecnologia militar e a transição energética. O governo americano já se comprometeu a comprar pelo menos US$ 300 milhões em produtos de terras raras, dentro de um esforço declarado para reduzir a dependência da China. E o que o Brasil fez em 16 de setembro foi exatamente o que Washington não queria: Lula sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que subordina o setor aos princípios da “soberania nacional” e da “supremacia do interesse público” — e a mineradora americana que explora terras raras no Brasil passou a classificar publicamente a eleição brasileira como “risco” para os seus negócios.

Agora junte as peças. Um ex-candidato derrotado, foragido de uma ordem do Supremo, com dois inquéritos por lavagem, pedindo asilo político. Um presidente americano enfraquecido, com prazo curto, eleição no mês, dependência de terras raras e nenhum escrúpulo demonstrado em chamar de fraude a eleição que elogiou três semanas antes. E uma investigação recém-aberta no Brasil para apurar financiamento estrangeiro na campanha de Flávio e o interesse internacional em terras raras.

O asilo político não é um pedido de proteção humanitária. É um instrumento de barganha. O que Flávio oferece em troca não precisa ser dito em voz alta: ele é o homem que já prometeu a Trump uma “parceria estratégica de longo prazo” em terras raras na Casa Branca, em maio, e cujo plano de governo coincidia com 16 das 21 exigências do tarifaço.

Não é fuga. É continuação por outros meios.

Há um erro de leitura que a imprensa vai cometer nas próximas horas: tratar a fuga como o fim melancólico de uma carreira. Não é. É uma mudança de teatro de operações.

Daqui pra frente, Flávio não fará política no Brasil. Fará política contra o Brasil — de fora, com um passaporte estrangeiro na mão, um irmão lobista ao lado, um Bannon na linha e um presidente americano com pressa de mostrar força aos seus. A cada dia de governo Lula, ele terá um motivo para ligar para alguém em Washington. A cada decisão soberana brasileira sobre o subsolo, ele terá uma oferta para fazer. A cada crise, ele será o interlocutor “confiável” que Washington preferirá ouvir a Brasília.

E o clã tem forma nesse tipo de tarefa. O irmão já provou que funciona. O pai está preso — 27 anos e três meses — e a família inteira já aprendeu que a política, para ela, não termina na urna: continua no tribunal, no lobby, na embaixada, no asilo.

É por isso que a fuga de Flávio não é uma rendição. É o começo da próxima tentativa de golpe.

O Brasil precisa de três coisas, e rápido. Primeiro: a prisão preventiva (o pedido de Lindbergh Farias, Rogério Correia e Ana Elisa já está no gabinete de Moraes) e o alerta vermelho da Interpol — que não garante extradição, mas coloca um mandado em circulação em 195 países. Segundo: reconhecer que a extradição não vai acontecer de graça — o mesmo Trump que abriga Eduardo hoje é o que barganha terras raras amanhã, e um pedido de extradição será, na prática, uma nova rodada de negociação sobre o subsolo brasileiro. Terceiro, e mais importante: não deixar que a fuga passe como piada de rede social.

Porque é isso que a farsa de 26 de outubro já ensinou: o bolsonarismo não precisa vencer para continuar existindo. Precisa apenas manter viva a suspeita. Agora ele tem um exilado, um passaporte violado e um inquérito por lavagem. Isso não é o fim de um político. É o começo de um problema internacional — e o Brasil tem que tratá-lo como tal.

 

 

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