Você abre o Google pra fazer uma pesquisa. Joga algum termo ali na barra de busca, lê o resumo gerado por inteligência artificial, fecha o site e toca a sua vida. Você não clica para ler a fonte original, não acessa o site de notícia que publicou sobre o seu tema de interesse, fica só ali, no Google mesmo.
Se reconheceu? Você não está sozinha ou sozinho. E eu não estou te julgando ou culpando. Você só está fazendo exatamente o que o Google quer que você faça. É intencional.
Esse comportamento é o que vem sendo chamado por especialistas em economia política, direitos digitais e regulação concorrencial de zero-clique. É zero-clique porque as pessoas não clicam em nenhum outro link. E é, assim, que o Google está condenando o jornalismo à morte.
Mas talvez a partida ainda não esteja encerrada. Na semana passada, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, decidiu por unanimidade abrir uma investigação contra o Google para apurar se práticas como essa, de exibir resumos gerados por IA, configuram abuso ou comportamentos anticoncorrenciais.
É uma decisão histórica. Ainda que o instrumento seja o direito concorrencial, um mundo extremamente técnico e hermético, as implicações vão muito além.
Sobrevivência e sustentabilidade do jornalismo
Estamos falando sobre a sobrevivência e sustentabilidade do jornalismo, sobre o direito das pessoas à informação livre, plural e de qualidade. Estamos falando, afinal, de democracia.
Uma pessoa com quem falei, que está bastante envolvida nesse caso, me disse que, se o imbróglio jornalismo brasileiro vs. Google fosse a partida do Brasil contra Alemanha na semifinal da Copa do Mundo de 2014, essa seria a hora do gol do Brasil no 7×1. Eu ri, mas disse que espero que o desfecho seja melhor do que foi para a nossa seleção.
O impacto desse fenômeno zero-clique não é nada trivial. Um estudo realizado pela Authoritas e submetido ao Cade por organizações de sociedade civil demonstrou que veículos jornalísticos podem perder pelo menos 20,6% de tráfego por causa dos AI Overviews (aquele resumo gerado por inteligência artificial).
Esse mesmo estudo também identificou que, dos domínios de site exibidos nesse resumo, o Google privilegia o YouTube por uma ampla margem. Em 90% das categorias de notícias analisadas pelo estudo, o YouTube é o principal domínio. Ah, importante: o Google é o dono do YouTube. Conveniente, não?
Roubo de notícia
“Roubo de notícia”. Foi esse o termo que a organização de justiça digital Foxglove usou para falar do caso. Não só o Google está tirando a audiência dos veículos jornalísticos, como também usou, sem remunerar os veículos, conteúdo jornalístico para treinar a IA que produz os resuminhos.
Para a maioria dos veículos jornalísticos, menos tráfego equivale a menos dinheiro. Isso reflete, por sua vez, em equipes reduzidas e jornalistas sobrecarregados, menos capacidade para tocar investigações de fôlego e, no fim das contas, jornalismo de pior qualidade.
Isso quando os veículos ainda conseguem existir e sobreviver. Mas o efeito mais duro é o desaparecimento de veículos menores, regionais, especializados e independentes. Justamente quem garante a pluralidade e diversidade de vozes e temas no nosso ecossistema midiático. Para você, leitor, isso significa um cardápio mais enxuto, com menos poder de escolha.
Acordos para treinar IA
Nos últimos meses, enquanto conselheiros do Cade analisavam o tema para votar, O Estado de S. Paulo e a Folha de S.Paulo, dois dos maiores jornais do Brasil, fizeram acordos individuais com o Google para que a empresa possa utilizar seus conteúdos para treinar o Gemini. Os valores, claro, não foram detalhados, nem os termos.
‘É por isso que a decisão do Cade é maiúscula: ela diz respeito a todo o jornalismo brasileiro, sem discriminar’.
Os acordos individuais, no varejo, enfraquecem a luta coletiva. Quantos veículos brasileiros têm o mesmo poder de barganha que os jornalões? Será que o Google se sentaria à mesa de negociação com um pequeno veículo regional do norte do Brasil, por exemplo? Eu acho que não.
É por isso que a decisão do Cade é maiúscula: ela diz respeito a todo o jornalismo brasileiro, sem discriminar. E, por isso, diz respeito a você, leitor do Intercept Brasil, e até mesmo ao leitor que nunca leu o Intercept e prefere outro site de notícias. É pela pluralidade de vozes.
Disputa de narrativas
A investigação do Cade pode demorar anos e vai exigir acompanhamento de nós, jornalistas, e da sociedade civil, que cumpre um papel essencial de munir o tribunal com informação qualificada e técnica. É uma disputa de narrativas, já que o Google, munido de um exército de advogados e lobistas, também vai fazer a sua defesa ali.
Mas o primeiro passo foi dado e ele é positivo, já que os conselheiros reconheceram, em seus votos, a existência de indícios suficientes de abuso e práticas anticoncorrenciais para justificar uma investigação mais aprofundada.






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