A governadora bolsonarista do Distrito Federal, Celina Leão (PP), construiu sua carreira política sobre um discurso de moralidade e combate à corrupção no transporte público. Entre 2013 e 2016, quando era deputada distrital, ela protagonizou uma das ofensivas mais duras contra a licitação dos ônibus do DF. Chamou o processo de “um golpe”, denunciou o que chamou de “prejuízo de R$ 1 bilhão por ano” e defendeu a abertura de CPI. O discurso era de fogo. A prática, como o tempo mostrou, era outra.
Nesta segunda-feira (13), o deputado distrital Gabriel Magno (PT) protocolou uma Notícia de Fato no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) pedindo investigação sobre um possível conflito de interesses envolvendo a governadora. O motivo? Uma relação patrimonial de
R$ 500 mil entre Celina Leão, seu marido e o empresário Edmundo de Carvalho Pinheiro, presidente da HP Investimentos e Participações S.A., empresa que integra o Consórcio Urbi-HP. Esta empresa, quem diria, é responsável pelo Lote 3 do sistema de transporte púlico do DF.
O objeto da transação? A compra compartilhada da metade de um embrião da raça Nelore de alta linhagem. Pagamento previsto em 30 parcelas mensais.
A “paladina” da CPI do Transporte
Em agosto de 2013, durante sessão na Câmara Legislativa, Celina Leão chamou a licitação dos ônibus de “um golpe” e disse que ela “acarretará milhões em prejuízo para o governo local”. Apresentou documentos que, segundo ela, comprovavam que o advogado Sacha Reck — que trabalhou na habilitação das empresas participantes — também advogava para as vencedoras. “Todas as empresas vencedoras concorreram com o preço máximo, pois tinham certeza de que iriam ganhar”, denunciou a então deputada.
Em 2015, como presidente da Câmara Legislativa, Celina foi autora do requerimento de instalação da CPI do Transporte, que investigou irregularidades na concorrência pública de 2012. “Nenhum estado consegue manter esse gasto”, discursou, referindo-se aos subsídios que haviam saltado para
R$ 40 milhões mensais.
A deputada que queria indiciar 17 pessoas, que prometia ir a Curitiba buscar provas, que cobrava ação do governo — essa mesma Celina Leão.
A governadora e o empresário do transporte
Passados dez anos, a cena é outra. Agora como governadora em exercício do DF, Celina Leão não está mais denunciando empresários do transporte. Está dividindo a compra de um embrião de boi com um deles.
Segundo a representação de Gabriel Magno, a compra foi realizada em 1º de setembro de 2025. Dois dias depois, em 3 de setembro, o mesmo Edmundo de Carvalho Pinheiro assinou o Quarto Termo Aditivo ao Contrato de Concessão nº 07/2013, justamente o que rege o sistema de transporte coletivo do DF. A coincidência de datas, associada ao vínculo financeiro contínuo — o pagamento em 30 parcelas —, levanta a suspeita que a própria Celina Leão um dia levantou: onde há relação entre político e empresário do transporte, há cheiro de enxofre.
Polido, o deputado Gabriel Magno pede que o MP investigue se a governadora cometeu conflito de interesses. Pede também que ela seja preventivamente afastada de decisões administrativas que envolvam o grupo Urbi-HP enquanto durar a investigação.
A farsa da direita bolsonarista
O caso de Celina Leão é o retrato perfeito do bolsonarismo no poder: um discurso de moralidade que se desmancha ao primeiro contato com a realidade do cargo. A mesma mulher que esbravejava contra a “corrupção no transporte” agora é devedora privada de um empresário que explora o mesmíssimo sistema que ela prometeu “investigar até o fim”.
Não é um desvio de rota. É a prova de que o discurso de combate à corrupção da extrema direita sempre foi uma fantasia — um embrião de moralidade que nunca vingou.





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