PF mostra que Ibaneis pilotou a compra do Master

Propina de R$ 400 milhões e Celina com vice que lucrou com Master

Por Frente Livre
Desvio educação Distrito Federal
Bolsonarista Ibaneis Rocha e a ultrabolsonarista Celina Leão. Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

Contam os contos de Andersen que o rei desfilava nu e ninguém tinha coragem de dizer o que todos viam, até que uma criança inocente gritou a verdade. No Distrito Federal de 2026, não foi preciso criança: foi preciso a Polícia Federal extrair o celular de um banqueiro preso. E o que as mensagens mostram, reveladas nesta terça-feira (21) na coluna da jornalista Natália Portinari, publicada pelo UOL, é o que qualquer um com olhos já via: Ibaneis Rocha, o ex-governador que se escondeu atrás da versão de que “dava plena liberdade ao presidente do BRB”, acompanhava, autorizava, cobrava e pilotava cada etapa da operação que entregou bilhões do banco público do DF ao Banco Master, o castelo de cartas de Daniel Vorcaro. O rei está nu. E o reino, esse, ficou quebrado.

A propina do governador

Pela proposta de delação de Vorcaro, o acerto foi direto, quase administrativo, como quem combina uma tarefa numa sala de reunião: logo depois do primeiro encontro, um almoço na casa do banqueiro em Brasília, em setembro de 2024, Ibaneis teria exigido propina de R$ 400 milhões para concretizar o negócio, metade em dinheiro vivo, metade num contrato fictício com um escritório de advocacia indicado pelo próprio governador, além de 5% do novo banco por meio de uma empresa de fachada. Vorcaro diz ter adiantado cerca de R$ 80 milhões em espécie, entregues em Brasília pelo seu motorista a Paulo Henrique Valverde, o operador apontado pelo banqueiro. Em dezembro de 2024, o motorista avisou que “Léo” havia ligado para buscar “todas as encomendas”. Encomendas. Era assim que a propina aparecia nas mensagens: encomendas, numa casa em Brasília, entregues por um motorista, com mensagens temporárias ativadas logo depois que Valverde enviou CNPJ e dados bancários de uma empresa da qual ele é administrador. A defesa de Ibaneis, pela voz do advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o famoso Kakay, diz que não comenta “delação que não foi aceita por não ter um fiapo de prova”. Os bilhões que o BRB cuspiu no Master, porém, têm mais que um fiapo.

O piloto na cabine

A cronologia das mensagens é a sentença. No dia 18 de setembro de 2024, o almoço na casa de Vorcaro. No dia seguinte, Ibaneis agradece ao banqueiro o “excelente almoço”. Em outubro, o então chefe do BRB, Paulo Henrique Costa, conta a Vorcaro que Ibaneis “autorizou seguir com os R$ 750 milhões” do aumento de capital do banco público, depois de um primeiro socorro de R$ 500 milhões autorizado no jantar com o banqueiro. Em janeiro de 2025, Ibaneis pede reunião: os dois jantam em Zurique, na Suíça, num evento do grupo Lide, negociando a compra do Master. Em fevereiro nasce o “Projeto Vértice”, nome pomposo para o assalto; quando o negócio quase cai porque o Banco Central torceu o nariz, Ibaneis liga “querendo dar para trás”, para logo depois, em março, ficar “impaciente com o prazo” e marcar novo encontro; oito dias depois, o BRB anuncia a compra de 58% do Master. No dia do anúncio, ele liga para Vorcaro. Em agosto, liga três vezes na semana em que a Câmara Legislativa votava a operação. Ele também encaminha ao banqueiro uma liminar e a edição do Diário Oficial com a lei aprovada. Isso é dar liberdade ao presidente do banco, Kakay? Isso é o governador com a mão no manche, de decolagem ao pouso.

A fraude vestida de ativo

E o que Ibaneis pilotava, no fundo, era a entrega do Tesouro distrital a uma fraude. A PF aponta que o BRB transferiu cerca de R$ 17 bilhões ao Master, dos quais aproximadamente R$ 12,2 bilhões em títulos falsos, sem valor, papéis podres maquiados de carteiras de consignado. Quando a equipe do BRB foi conferir as carteiras compradas, em abril de 2025, o Master alegou que a Lei Geral de Proteção de Dados impedia o acesso aos dados, e Paulo Henrique escreveu a Vorcaro: “Precisamos demonstrar que essas carteiras existem, Daniel”. Resposta do banqueiro: “nada que fizermos ou entregarmos vai nos tirar desse corner”. Não tirou. O Banco Central vetou a operação em setembro de 2025, o banco foi liquidado em novembro, Vorcaro foi preso. A auditoria interna do BRB calculou o rombo em R$ 8,8 bilhões. Ibaneis, antes de sair, aprovou lei autorizando socorro de até R$ 6,6 bilhões ao BRB, com o DF já com R$ 1 bilhão de buraco no caixa. O dinheiro da saúde, da escola, da segurança, virou título falso na gaveta de um banqueiro que, segundo ele mesmo, pagou propina a senador, ouviu pedido de dinheiro de Flávio Bolsonaro em áudio e mantinha um “Sicário” como chefe de milícia privada.

A herdeira que não sabia de nada

Ao desastre sucedeu-se a herdeira. Celina Leão, vice-governadora durante toda a operação, governadora desde março de 2026 e hoje candidata ao trono definitivo, construiu a defesa sobre uma bravata que o próprio calendário desmonta. Em abril de 2025, com o BRB já engolindo o Master, declarou: “não fui consultada, fiquei sabendo pela imprensa”. Em setembro de 2026, já na sabatina da Jovem Pan, mudou o discurso: “sempre fui contra a compra”, “me opus publicamente à transação na época”. Não existe um único registro público de oposição dela em 2025. Ou ela sabia e mentiu em 2025, ou não sabia e mente agora. Não há terceira via, e o tempo é um auditor implacável. Vorcaro, em mensagens de abril de 2025 ao publicitário Thiago Miranda, afirma que ela participou da negociação, oito dias depois de o conselho do BRB aprovar a compra, justamente quando ela dizia ao O Globo que não tinha conhecimento da operação. A PF investiga telefonemas e mensagens entre Vorcaro e Celina, que jura jamais ter tido contato com o banqueiro. Lula resumiu:

A governadora Celina, de forma cínica e mentirosa, tenta jogar a responsabilidade do BRB no governo federal. Deveria estar preocupada com a prisão do Ibaneis.”

A vice que não podia não saber

Mas a pieguice da defesa de Celina tem uma rachadura que nenhum assessor conserta: a escolha do seu próprio vice na chapa. Celina escolheu Gustavo Rocha, o homem que chefiou a Casa Civil de Ibaneis Rocha desde o primeiro até o último dia em que ele foi governador, inclusive durante os anos exatos em que a operação BRB-Master foi desenhada, negociada em Zurique, aprovada em conselho e executada com R$ 17 bilhões do dinheiro público. A Casa Civil é o cérebro administrativo do governo; dizer que o chefe dela “não sabia de nada” de uma operação da qual o governador pilotava cada etapa, conforme as mensagens da PF, é pedir ao leitor que… que… bom, é pedir ao leitor que se declare idiota. Como se não bastasse, o escritório de advocacia do qual Gustavo Rocha é sócio recebeu milhões do Banco Master. O vice escolhido por Celina é, portanto, um homem que estava na sala de comando do governo quebra-banco e que, ao mesmo tempo, recebia honorários do banco que quebrou. E é essa chapa, com essa dupla, que se apresenta ao eleitor do DF como se nada tivesse acontecido, prometendo manter intacta toda a estrutura que desviou bilhões do Tesouro distrital e deixou a saúde pública sangrando, com seis mortes em menos de um mês no SUS do distrito enquanto o caixa ia para os papéis falsos de Vorcaro.

O rei está nu

Pergunte-se, eleitor de Brasília: o que significa eleger Celina Leão? Significa consagrar a linha sucessória do assalto, manter a Casa Civil do assalto, manter os honorários do assalto, manter o socorro de R$ 6,6 bilhões pagos pelo povo para tapar o rombo que a dupla Ibaneis-Vorcaro escavou. Os empresários do DF, que se acotovelam agora em notas de apoio e campanhas de conformismo, querem convencer o Distrito Federal de que criticar Celina é “politização” da crise. Que cinismo elegante: os mesmos que lucraram com a gestão que quebrou o BRB, e que quebrou o próprio GDF por tabela, agora choram para livrar a cara da herdeira e pagam de protetores do banco que eles ajudaram a esvaziar. O conto de Andersen termina com o rei desfilando nu e a multidão, enfim, rindo. No DF de 2026, o desfile é eleitoral, a nudez está documentada em mensagens extraídas pela PF, propina de R$ 80 milhões em “encomendas” entregues por motorista, jantar em Zurique, R$ 17 bilhões transferidos, R$ 12,2 bilhões em títulos falsos, e a corte deseja que o eleitor faça de conta que não vê. Que a criança grite: o rei está nu. E a herdeira veste a mesma toga.

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