Na sexta-feira (16), um dia depois de ter sido obrigada a demitir seu mais alto executivo do jornalismo por ter sido revelado que ele vendera a edição da emissora a Daniel Vorcaro, a cúpula da TV Globo se banqueteou alegremente com o candidato fascista à Presidência, Flávio Bolsonaro — à mesa, o presidente do Grupo Globo, João Roberto Marinho, e o vice-presidente de Relações Institucionais, Paulo Tonet. Isso aconteceu horas antes de ele participar da sabatina do Jornal Nacional — momento em que o Brasil inteiro foi paras janelas e para as varandas dos prédios bater panelas em sinal de reprovação.
No mesmo dia, o humorista Paulo Vieira recordou qual é o critério da casa para “imparcialidade”: “Só uma curiosidade: eu fui proibido de ir no camarim do Lula durante a sabatina ‘pra não levantar dúvidas sobre a imparcialidade'”. E completou: “Que vergonha.”
É a equação completa desta eleição num só contraste. O humorista que podia entrar no camarim do presidente foi barrado para preservar a imparcialidade. O candidato que pede o voto para entregar o país almoça com o presidente da maior emissora do planeta lusófono, na véspera da sua entrevista. A imparcialidade, que tem o nome mencionado em vão pela Globo, calou o artista e serviu o almoço.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não poupou a empresa de mídia. “De agora em diante, a Rede Globo é considerada suspeita para minha campanha”, bradou, em cima de um carro de som “Certamente, a Globo tá com raiva de mim porque eu acabei com as bets, e ela tinha uma bet. A Globo tá com raiva de mim, porque eu prendi o Vorcaro”, discursou o presidente.
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O que a Globo explica — e o que não explica
Em nota, a emissora disse que Flávio fez “uma visita institucional à sede” e que encontros desse tipo fazem parte da “rotina de executivos de empresas de comunicação”. Disse também que o encontro não contou com profissionais do jornalismo — e que Lula não teve o mesmo encontro porque “não requisitou”. Não se deixe enganar pela parolagem da linguagem. O que houve foi um convescote.
A explicação não sobrevive a três perguntas. Primeira: por que a rotina acolhe o candidato da oposição no dia da sabatina dele e não acolheu o presidente na véspera da sabatina dele — Lula esteve na emissora na quinta (15), e, segundo coordenadores da campanha, relatos da jornalista Tatiana Farah, não recebeu convite semelhante? Segunda: se a visita é tão banal, por que o ombudsman dos critérios de convivência barrava até o humorista do camarim “pra não levantar dúvidas”? Terceira: quem requisita o quê, quando um dos lados é recebido pela cúpula e o outro nem convidado fica?
O ministro da Comunicação do governo Lula, Sidonio Palmeira, resumiu o que está em jogo:
É muito grave que a empresa receba um candidato para visita no dia em que ele dará uma entrevista na própria emissora, e no momento de uma eleição em que a democracia está em jogo.”
E o histórico pesa, porque está documentado: a manipulação do debate presidencial de 1989 entre Lula e Collor, admitida pela própria emissora; a encampação da farsa da Lava Jato, com direito ao duto que despejava dinheiro todas as noites no Jornal Nacional; e, nesta reta final, noticiários que ignoram as grandes mobilizações nas ruas do país a favor do presidente. A Globo já escolheu lado antes. O almoço de sexta-feira é só a versão mais recente — e mais educada — do velho hábito.
A Meta nega — e o TSE manda calar
No mesmo dia, a Meta negou interferência na eleição e atribuiu os problemas das redes de Lula a “falhas técnicas” e “engano”. A conta de anúncios da campanha do presidente teria ficado desativada “por pouco mais de uma hora” em 23 de setembro, por classificação equivocada de um anúncio como golpe usando programa social; um problema em 7 de outubro teria congelado contagens de Reels por cinco horas; e uma falha no Gerenciador de Anúncios teria travado a criação de anúncios em 9 de outubro. “A Meta não toma partido nessa nem em nenhuma outra eleição”, declarou a empresa.
Repare no que a própria nota da Meta admite, no meio da negação: que uma lacuna na ferramenta de IA permitia gerar imagens de campanha de Flávio Bolsonaro enquanto recusava pedidos idênticos sobre Lula. A empresa diz que corrigiu. Mas a lacuna existiu, foi descoberta em plena campanha, e favorecia exatamente um lado. Isso não é “falha técnica” — é o viés engessado em código, descoberto por quem usou a ferramenta.
E há um detalhe que a nota da Meta não consegue apagar: o Tribunal Superior Eleitoral não concordou com a tese da empresa. Na quinta (15), o ministro Marco Aurélio Bellizze determinou que a Meta não interfira na distribuição de conteúdo político-eleitoral de Lula ou de Flávio até o fim do segundo turno, sob multa diária de R$ 500 mil. A decisão atendeu à campanha do presidente, que acusou a plataforma de falhar “de forma reiterada e sistemática” na entrega de publicações da coligação. Cautelar não é condenação — mas um juiz do TSE não veda condutas e impõe multa de meio milhão por dia quando acredita na versão do requerente. A Meta negou o viés na sexta. O TSE já tinha agido como se acreditasse nele, na quinta.
A engrenagem paga: R$ 600 mil pela máquina de manipular
E enquanto a Globo almoçava e a Meta negava fazer o que faz descaradamente, o Intercept Brasil revelou — a reportagem é de Laís Martins, Leandro Becker e Eduardo Goulart — o que o candidato comprou nos Estados Unidos: Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil à Elytron, empresa americana de cibersegurança que oferece um sistema de inteligência artificial para manipular eleições.
Os serviços, segundo a reportagem: coleta imensa de dados para identificar grupos de eleitores e, conforme o perfil de cada um, disseminar boatos e desinformação, criar contas falsas nas redes sociais, usar “técnicas de guerra psicológica” e métodos de infiltração para desacreditar adversários. O Intercept avalia que as operações podem gerar “comportamentos inautênticos” — ou seja, “influência ilegal e clandestina”, não “mera estratégia de marketing político”.
A fonte é Vincent Edward Reed, analista de dados americano, consultor da Elytron entre 2024 e 2025, que entregou à reportagem os comprovantes do pagamento — e que teria participado da negociação para vender o mesmo sistema à campanha de Trump em 2024 (não confirma se a campanha republicana chegou a contratar). Reed saiu da empresa por ética: “Quando vi a demonstração e o dashboard, pude entender do que era capaz. E isso foi preocupante para mim porque vi que estava mirando eleitores e poderia atingi-los com deepfakes de IA.” E sobre o nome da coisa, não há ambiguidade: “O termo manipulação foi de fato usado.” Em bom português: é uma máquina de roubar eleições.
Aqui, a régua que a casa sempre usa: o pagamento é documentado (comprovantes nas mãos da reportagem); o uso do sistema na eleição brasileira ainda não é provado — Reed não possui evidências de que Flávio ou o PL o acionaram nas eleições de 2026. Mas o que já basta para o eleitor é o seguinte: o candidato que está sendo carregado nos ombros pelas plataformas, pagou seiscentos mil reais a uma firma americana que vende, em catálogo, o tipo de terror que está sendo servido aos brasileiros em doses cavalares. No último domingo, eleitores católicos receberam posts com imagens manipuladas segundo as quais militantes de Lula evocavam o demônio na Avenida Paulista. O deputado federal Paulo Bilynsky (PL-SP), cujo estilo brucutu não demanda exatamente um alto grau de inteligência, chegou a repostar um desses vídeos. Foi obrigado a apagar depois, a mando da Justiça Eleitoral.
O Nobel contra o cartel
No mesmo dia em que o poder econômico serviu o almoço, um Nobel da Paz chamou o povo brasileiro ao voto — pelo lado certo. O argentino Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel e referência mundial de direitos humanos, publicou:
Não fique indiferente. Conheço o Brasil e a força do seu povo há muitos anos. Compartilhei seus sofrimentos e as alegrias de suas celebrações inigualáveis. É um povo digno e soberano que não se deixa curvar. Não há exemplo melhor disso do que Lula.”
E fechou com a chave da eleição: “Alguns podem gostar mais ou menos dele, mas ninguém pode questionar sua capacidade e tenacidade para alcançar um Brasil mais forte, igualitário, democrático e justo. Vá votar por um futuro com oportunidades para você e para todos.”
Esquivel, que já chamou Trump de “ditador global” e “terrorista número um”, definiu a paz como “o resultado direto da justiça social e do respeito à soberania”. É o oposto exato do que o outro lado vende — e é por isso que a lista de adversários de Lula cresceu tanto.
Lula contra todos — e ainda na frente do jogo
Faça a conta do que o presidente encara, com cada frente documentada neste dossiê: a extrema direita organizada continentalmente (Cerimedo, Milei, o Escudo das Américas); o poder econômico brasileiro (o banqueiro Vorcaro, o operador Tomaz, as bets); o governo dos EUA (o tarifaço, as 21 exigências, o endosso público de Trump); a CIA (o eco de Kiriakou); as plataformas digitais (a Meta, o WhatsApp, o X — com o TSE impondo multa diária de R$ 500 mil para tentar segurá-las); e agora, abertamente, a maior emissora de TV do país, que almoça com o candidato às vésperas da sabatina enquanto barra até o humorista do camarim do presidente.
Nenhum incumbente da história recente foi tratado como forasteiro em seu próprio país. Nenhum adversário teve tantas instituições trabalhando de graça por ele — e ainda assim, compradas: o algoritmo da Elytron custou R$ 600 mil; a simpatia da Globo, pelo visto, veio inclusive no almoço.
Faltam 9 dias. A eleição não é entre Lula e Flávio. É entre Lula, de mãos dadas ao povo brasileiro, e todos — e o único instrumento que o cerco não conseguiu comprar ainda é o voto. Pérez Esquivel disse o que resta a dizer: não fique indiferente. O Brasil é um povo digno e soberano que não se deixa curvar. Em 25 de outubro, o povo decide se continua sem se curvar.

