Ameaças de explodir um departamento da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) foram postadas num grupo de WhatsApp administrado por um jovem vereador recifense e deputado federal eleito, Thiago Medina (PL). As mensagens, que circulam no ambiente universitário de Pernambuco, vieram à tona depois que o incêndio de grandes proporções destruiu, na noite de quarta-feira (7), o prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine), na Cidade Universitária, zona oeste do Recife.
O grupo do ódio
O conteúdo é explícito: “Vamos explodir o departamento de vocês. Segundo turno é Flávio. Nosso ato vai vir mais forte e não vai ser só amor igual vocês esquerdistas de merda”, diz uma das mensagens. Outra completa: “Se arrependam e dobrem os joelhos, seus acéfalos”. E ainda: “Fiquem espertos com a bomba”.
As mensagens desse grupo de WhatsApp têm teor misógino, machista e homofóbico. O grupo é administrado por Thiago Medina (PL), mas não só por ele — há outros adminstradores. A mensagem que chegou à redação está cortada, sem o nome do emissário — por isso, a autoria não pode ser atribuída a ninguém. Mas o fato de o grupo ser administrado por um político do Partido Liberal (PL) eleito para o Congresso é, por si só, gravíssimo.
A perda de duas décadas
O incêndio destruiu laboratórios de fármacos, informática, genética e o Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica. O reitor da UFPE, Alfredo Gomes, estimou o prejuízo em R$ 100 milhões e lamentou a perda de materiais científicos acumulados ao longo de 20 anos.
“Tínhamos muitos equipamentos dentro do prédio, sobretudo no primeiro andar, e absolutamente tudo foi destruído pelo incêndio. Cremos que nós tínhamos ali aproximadamente 100 tipos diferentes de pesquisas. Assim como amostras que se acumulam ao longo de 20 anos. Então é uma perda irreparável”, afirmou.
A Polícia Federal anunciou que vai abrir inquérito para apurar as causas do fogo. Até o momento, não há confirmação de vínculo entre as ameaças e o incêndio, nem de motivação política.
O ódio que antecede o fogo
A causa ainda é desconhecida. Mas o padrão é claro: um grupo administrado por um político do PL ameaça explodir um departamento e “ficar esperto com a bomba”, e dias depois a universidade arde. Três incêndios em uma semana. A intimidação é o método. A investigação da Polícia Federal precisa ser rápida — antes que o próximo prédio vire cinza e que o ódio de um grupo vire a política de um país.
O prédio multiuso, que já abrigou a Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, concentrava laboratórios de fármacos, informática e genética. O fogo começou por volta das 20h. A Polícia Federal abriu as investigações, sem ainda informar a possível causa.
Entre os atingidos está o pesquisador Ryan Cordeiro, 29, que faz pós-doutorado em inovação terapêutica. Ele mantinha no prédio um banco de amostras de sangue e de órgãos de animais usados em testes de novos fármacos para a Covid-19.
“Essas amostras de sangue da época da Covid-19, que a gente guardava como forma de pesquisar também novos fármacos e continuar pesquisando a doença, foi perdida”, lamenta.
Cordeiro lembra que um dos estudos desenvolvidos ali detectou que a Covid-19 leve não causava dano prolongado ao cérebro dos pacientes. O achado foi usado pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) em cartilha de enfrentamento à doença.
O pesquisador também trabalhava com amostras de animais para estudos sobre esclerose sistêmica, doença crônica e rara. “A gente estava chegando perto de sintetizar fármacos para atuar no enfrentamento da esclerose. A gente estava na modalidade de testes de animais ainda, mas acabou que perdeu o fármaco, as amostras. É começar do zero.”
“Toda parte de armazenamento de insumos, reagentes e amostras biológicas perdidas. Sinto que é uma perda de duas décadas de trabalho”, resume.
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