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Presidente Lula em ato da campanha pela reeleição no Rio de Janeiro, neste sábado (22). Foto: Ricardo Stuckert
BRASIL

Dois discursos no Rio: Lula age, Flávio fala; a ficha criminal pesa

Candidato que deu medalha a assassino agora promete guerra ao narcotráfico

No sábado (22), o Rio de Janeiro foi palco de dois atos políticos que, lidos em conjunto, são o retrato perfeito da eleição de 2026. No Estádio do Bangu, Zona Oeste, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez comício lotado e disse:

“Vamos tirar os bandidos dos territórios e vamos devolver os territórios ao povo do Rio de Janeiro.”

No Maracanãzinho, Zona Norte, o senador Flávio Bolsonaro (PL) defendeu “anistia ampla, geral e irrestrita” para golpistas condenados, prometeu classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como grupos terroristas, e avisou que criminosos serão “tirados de circulação em pé ou deitado.” Dois discursos sobre segurança pública, no mesmo dia, na mesma cidade. A diferença é que um dos dois tem obra. O outro tem ficha corrida.

Vamos aos fatos, porque os fatos são o que separa o discurso da realidade.

O que Lula fez

Lula preside o governo que deflagrou a Operação Carbono Oculto, a maior operação da Polícia Federal contra o crime organizado na história do Brasil. A operação, deflagrada em 28 de agosto de 2025 pelo Ministério Público de São Paulo em parceria com a PF e a Receita Federal, desmontou uma sofisticada rede de lavagem de dinheiro do PCC que operava através de bancos e fintechs da Faria Lima. O Banco Master, de Daniel Vorcaro, estava no meio. A gestora Reag Investimentos, alvo da operação, negociou CDBs na instituição que foi liquidada pelo Banco Central. Três operações, Carbono Oculto, Quasar e Tank, expuseram como o PCC usava a Faria Lima para lucrar bilhões. Em bom português: o governo Lula foi atrás do dinheiro do crime organizado, rastreou a lavagem, fechou bancos, liquidou gestoras e prendeu operadores. Não falou. Fez.

No comício do Bangu, Lula reafirmou o compromisso. Disse que vai criar o Ministério da Segurança Pública assim que o Senado aprovar a PEC enviada pelo governo e já aprovada na Câmara. Lembrou que a Constituição de 1988 retirou o papel da União na segurança pública porque o regime militar estava há 23 anos mandando na área, e que hoje a União tem um papel muito fraco. Disse que vai investir em defesa e construir uma indústria forte.

“Não queremos guerra, mas queremos dizer: não se meta com a gente porque a melhor arma que a gente tem é o orgulho do povo brasileiro.”

E fechou com a proposta que é o oposto do punitivismo eleitoreiro:

“Não quero tirar nada de ninguém, apenas dar igualdade de oportunidade. Quero que a filha da empregada possa ter a mesma qualidade de estudo e vaga na universidade que o filho da patroa.”

Educação, não castração. Oportunidade, não execução. Estado, não milícia.

O que Flávio disse e quem Flávio é

Flávio Bolsonaro, no Maracanãzinho, disse que vai classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como grupos terroristas. Disse que “marginais, narcoterroristas” têm “até dezembro desse ano para meter o pé do Brasil.” Disse que serão “tirados de circulação em pé ou deitado”, frase que associa o combate à criminalidade à possibilidade de morte extrajudicial. Prometeu castração química para estupradores, medida considerada inócua pela Rede Justiça Criminal. Defendeu anistia para o pai, Jair Bolsonaro, condenado por golpe de Estado. E pediu votos para Carlos Jordy e Carlos Portinho, candidatos do PL ao Senado, afirmando que precisa deles para “libertar Jair Messias Bolsonaro.”

O discurso é duro. O problema é que o homem que o profere tem a ficha criminal mais extensa do Senado da República em matéria de crime organizado. E a ficha não é retórica. É documentada.

Comecemos pelas medalhas. Flávio, então deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), concedeu a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria do Legislativo fluminense, a Adriano da Nóbrega, capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) que comandava a milícia conhecida como “Escritório do Crime”. Nóbrega chegou a receber a condecoração por indicação de Flávio. Ronald, outro miliciano preso, ganhou moção honrosa quando já era investigado como miliciano. A Veja, em 25 de janeiro de 2019, noticiou que um ex-PM ligado a Flávio Bolsonaro recebeu medalha na cadeia, no Batalhão Especial Prisional, onde o então tenente estava preso, acusado de homicídio. A homenagem foi entregue dentro do presídio. O Hora do Povo noticiou que Luiz Carlos Felipe Martins, outro miliciano homenageado por Flávio, foi morto no Rio. Era sucessor de Adriano da Nóbrega na liderança da milícia. O senador que agora promete guerra ao narcotráfico é o mesmo que condecorou assassinos de aluguel com a medalha mais alta da Assembleia Legislativa.

E há mais. Em 7 de fevereiro de 2007, durante sessão ordinária na ALERJ, Flávio subiu à tribuna e defendeu as milícias sem rodeios. “A milícia nada mais é do que um conjunto de policiais, militares ou não, regidos por uma certa hierarquia e disciplina, buscando, sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos.” A frase é a defesa explícita de grupos armados que cometem assassinato, extorsão e tráfico. O homem que agora diz que vai declarar guerra aos narcoterroristas é o mesmo que, da tribuna da ALERJ, disse que a milícia “busca expurgar do seio da comunidade o que há de pior.” A milícia, para Flávio, não era crime. Era serviço.

Os aliados presos

E aqui entram os aliados, porque o candidato que promete combater o Comando Vermelho é o mesmo cujos indicados políticos foram presos por trabalhar para o Comando Vermelho.

A Operação Unha e Carne, da Polícia Federal, deflagrou cinco fases contra políticos do Rio de Janeiro acusados de serem ligados e trabalharem para o Comando Vermelho. O Hora do Povo, em 2 de julho de 2026, noticiou: “PF fecha cerco sobre capos de Flávio Bolsonaro ligados ao Comando Vermelho no Rio.” A 5ª fase da operação saiu em campo na quinta-feira (2), e os alvos foram bicheiros e pastores, além dos indicados de Flávio já presos.

O primeiro nome é TH Joias, ex-deputado estadual e suplente, empresário de “sucesso” que usava o mandato na ALERJ como frente política da facção. TH Joias e mais 17 pessoas foram indiciados por envolvimento com facções criminosas, tráfico de armas, drogas e lavagem de dinheiro.

O segundo nome é Rodrigo Bacellar, ex-presidente da ALERJ, denunciado pela PGR em investigação sobre vazamento de informações sigilosas ligadas ao Comando Vermelho. O Brasil de Fato, em 2 de julho de 2026, noticiou que Bacellar e o ex-governador Cláudio Castro (PL), aliado de Flávio, apareceram na lista do bicheiro Adilsinho, alvo da Operação Unha e Carne. Uma planilha com os nomes dos políticos estava em poder do bicheiro. O nome de Flávio não estava na planilha, mas os nomes de seus aliados mais próximos estavam.

O terceiro nome é Cláudio Castro, ex-governador do Rio, bolsonarista, que apareceu na mesma lista de bicheiro. Castro é o candidato que Flávio apoiou para governar o Rio. O governador que Flávio ajudou a eleger estava na planilha de um bicheiro preso pela PF. A  Frente Livre, em julho de 2026, publicou reportagem com o título: “Mais um amigão de Flávio Bolsonaro preso”. A reportagem lista, um por um, os aliados da família Bolsonaro acusados de elo com organizações criminosas.

O Intercept, em 15 de julho de 2026, publicou reportagem com o título que é o diagnóstico: “Rei Midas reverso: Tudo que Flávio Bolsonaro toca vira inquérito.” O ecossistema de corrupção que envolve o senador, seus indicados, seus aliados e seus financiadores é o mais extenso já documentado contra um candidato à Presidência da República em tempo de campanha na história do Brasil.

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A comparação que mata

A comparação é esta, e ela é obscena. Lula preside o governo que deflagrou a maior operação contra o crime organizado da história. A operação prendeu operadores, fechou bancos, liquidou gestoras, rastreou o dinheiro do PCC na Faria Lima e conectou o Banco Master de Vorcaro à lavagem de dinheiro da facção. Flávio Bolsonaro homenageou milicianos com a Medalha Tiradentes, defendeu as milícias da tribuna da ALERJ, teve seus indicados políticos presos por serem braço do Comando Vermelho, teve seus aliados listados na planilha de bicheiro preso, e tem o nome ligado a Daniel Vorcaro, o corruptíssimo banqueiro cujo banco foi liquidado por operar no mesmo ecossistema do PCC.

O homem que diz que vai declarar guerra ao Comando Vermelho é o mesmo cujos capos foram presos por trabalhar para o Comando Vermelho. O homem que diz que vai classificar milícias como terroristas é o mesmo que condecorou milicianos com a medalha mais alta da ALERJ. O homem que diz que criminosos serão “tirados de circulação em pé ou deitado” é o mesmo que, da tribuna, disse que a milícia “busca expurgar do seio da comunidade o que há de pior.” O homem que promete castração química é o mesmo que pediu R$ 134 milhões a um banqueiro preso, corrupto e delator para financiar um filme do pai golpista.

Lula não precisa prometer guerra ao narcotráfico. Fez a guerra. A Operação Carbono Oculto é a prova. Flávio precisa prometer porque nunca fez. O que Flávio fez foi o oposto: deu medalha a miliciano, indicou político para o Comando Vermelho, aliou-se a bicheiro e financiador de facção. A diferença entre os dois não é de discurso. É de ficha. E a ficha de Flávio é a de um homem que, se a Justiça funcionasse como deveria, estaria respondendo por apologia ao crime, por associação com milícia e por uso de cargo público para beneficiar organização criminosa, não discursando no Maracanãzinho prometendo guerra a quem seus aliados serviam.

No Bangu, Lula disse que vai tirar os bandidos e devolver os territórios ao povo. No Maracanãzinho, Flávio disse que vai declarar guerra aos narcoterroristas. O povo do Rio, que conhece a diferença entre quem combate o crime e quem homenageia criminoso, vai decidir em outubro. E se decidir com a ficha, não com o discurso, a escolha é a mais óbvia da eleição. Lula combate. Flávio condecora. Lula prende. Flávio homenageia. Lula criou Carbono Oculto. Flávio criou TH Joias. A diferença é esta. E ela é mortal.

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