O erro de Minas que custou caro a Lula na eleição

Entenda o mapa que explica a derrota do primeiro turno

Por Ugo Braga | Frente Livre
Lula perdeu Minas Gerais
Presidente Lula com o advogado-geral da União, Jorge Messias: articulação errada entregou Minas de bandeja à extrema direita. Foto: Ricardo Stuckert

Um fenômeno político como o do último domingo se explica por milhões de variáveis, causas, movimentos sociais e perspectiva histórica que tornam qualquer conclusão complexa e difícil de aceitar, ainda mais tendo aconteceido tão recentemente. Porém, olhando-se o mapa da votação do 2º turno de 2022, quando o presidente Lula como desafiante venceu o incumbente Jair Bolsonaro, em comparação com o 1º turno de 2026, salta aos olhos um jogo de cores que explica em parte o que aconteceu. 1) Lula perdeu Minas Gerais e isso é decisivo. 2) Lula venceu, mas com diferença menor no Pará e em sete dos nove estados do Nordeste. 3) Lula ganhou o Amapá mas perdeu Tocantins, o que, no fim das contas, lhe custou alguns milhares de votos.

No que diz respeito somente à eleição presidencial, a extrema direita cresceu consideravelmente em Santa Catarina. Mas isso não explica o resultado. O “encolhimento” de Lula, sim.

Examinemos caso a caso.

Lula perdeu Minas Gerais Imagem: Reprodução plataforma Decide Brasil 2026. Dados: TSE

 

Em primeiro lugar, Minas Gerais. Ali, Lula perdeu exatamente 1 milhão de votos entre 2022 e 2026, falando-se em números absolutos de eleitores. Caiu de 6,1 milhões quatro anos atrás para 5,1 milhões agora. E o problema foi um erro político que custou muito, muito caro ao presidente.

Com a aposentadoria do ministro José Roberto Barroso do Supremo Tribunal Federal, em outubro de 2025, Lula hesitou um mês e decidiu encaminhar o nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga. Concorde-se ou não com a “intromissão” num assunto de exclusiva prerrogativa presidencial, havia no Senado uma onda bem urdida pelo presidente Davi Alcolumbre para levar seu antecessor Rodrigo Pacheco para a Corte Constitucional justamente na vaga de Barroso. Lula não se dobrou. Despachou o nome de Messias para o Senado e tentou fazer de Pacheco seu candidato ao governo de Minas. Deu tudo errado.

Já comprometido com Pacheco, Alcolumbre não prometeu a Lula brigar para emplacar Messias.

Jogado à própria sorte, Messias, que é evangélico, achou por bem dar as mãos ao também evangélico André Mendonça e, de braços dados a ele, fazer a tradicional procissão nos gabinetes dos senadores para aparar arestas e se viabilizar na votação do plenário. André Mendonça é bolsonarista e já então assumira a relatoria do Caso Master, que causa urticária em dezenas de congressistas aninhados secretamente no bolso de Daniel Vorcaro. Esses caras gostariam muito que secretamente permanecessem.

Logo, Messias era o nome do presidente Lula andando por aí com o ministro bolsonarista terrivelmente evangélico e ainda por cima conhecedor dos segredos podres do eleitorado. Ninguém ficou feliz com aquilo.

Ficou fácil para a oposição. O centrão votou em peso contra. O plenário do Senado rejeitou o AGU. Vendo-se inadvertidamente como pivô da primeira rejeição de um indicado ao Supremo desde 1894, o senador Rodrigo Pacheco simplesmente desistiu da política. Lula perdeu o palanque em Minas. Teve de praticamente “desaposentar” o ex-governador Patrus Ananias (PT) às pressas para fazê-lo candidato ao Palácio da Liberdade. A lambança fez o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), um evangélico populista, varrer o estado e conquistar o governo no 1º turno. Com seus votos carreados naturalmente para Flávio Bolsonaro. Que nem precisou fazer nada, só ficar parado e assistir à esquerda se embananar.

Enclave ainda forte, mas menos potente

É fato que Minas é o estado-símbolo das eleições presidenciais. Desde a redemocratização, nenhum presidente foi eleito sem vencer por lá. Diz-se que por ser o estado da integração nacional, onde o Sudeste vira Nordeste e vice-versa, ele funciona como uma correia de tendências e sentimentos políticos que vão de um lado a outro, influenciando as populações.

Lula venceu no Nordeste em 2026 como já havia vencido em 2022. Mas agora a cor vermelha é menos intensa. Só o Piauí deu ao presidente mais de 70% dos votos válidos. Alagoas ficou como sempre esteve, uma vitória mais tímida, e todos os demais caíram da faixa de 70% dos votos para ainda grandes vitórias, porém com diferença menor do que foi em 2022.

A Bahia, que fez barba, cabelo e bigode para o PT, com a reeleição em 1º turno do governador Jerônimo Rodrigues, e a eleição de dois senadores do partido — os ex-governadores Rui Costa e Jaques Wagner —, deu 66% dos votos válidos ao presidente. É um número excelente. Mas em 2022 havia sido ainda melhor, 72% dos votos válidos. Só aí foram 400 mil votos que voaram para outro lugar ou simplesmente não saíram de casa para votar.

O Maranhão, onde Lula tivera 71% dos votos válidos há quatro anos, desta vez lhe deu 63% — 100 mil votos evaporados. No Ceará, com a quizumba armada por Ciro Gomes ao se aliar à extrema direita, o campo progressista perdeu 300 mil votos entre uma eleição e outra.

No Pará, onde Lula teve 54% dos votos em 2022, desta vez foi 49%. Uma vitória com quase 100 mil votos a menos do que há quatro anos.

Só nesses quatro estados, são vitórias com 900 mil votos a menos.

No Tocantins, onde vencera em 2022, agora perdeu. Não só reduziu a própria votação em 30 mil votos como viu seu adversário ganhar 60 mil votos entre uma data e outra. Noves fora zero, são quase cem mil votos saindo de um lugar e indo para o outro. Número que mais que compensa a recuperação do Amapá, onde perdera em 2022 e ganhou agora — com saldo de apenas 10 mil votos líquidos de diferença para o outro candidato.

 

Lula perdeu Minas Gerais Imagem: FLIA

 

O balanço nordestino, no fim das contas, é 258.555 votos a menos para Lula entre 2022 e 2026, e 1.611.579 a mais para Flávio Bolsonaro sobre Jair Bolsonaro.

A eleição, como se vê, ainda não está perdida. Há gente que já votou em Lula uma vez e que precisa ser lembrada por que o fez. Retomar Minas Gerais é a chave dourada da eleição. Do outro lado está o mesmo monstro que ameaçava o Brasil quatro anos atrás.

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