Durante um ato que reuniu milhares de pessoas em Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), nesta terça-feira (20), o presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), disparou contra o senador e candidato do PL, Flávio Bolsonaro: o adversário não “tem coragem de abrir seu sigilo fiscal e telefônico” porque sua “vida é podre em se tratando de honestidade”.
Ele [Flávio] certamente não vai ter coragem de abrir o sigilo dele, nem telefônico, nem conta bancária, nem pessoa física, nem pessoa jurídica, porque ele sabe que a vida dele é podre em se tratando de honestidade”, disse o presidente.
O desafio não é só palanque: nesta terça, a campanha de Lula protocolou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF) um documento autorizando a quebra do sigilo fiscal e telefônico do presidente e de sua família — condicionada ao gesto recíproco do candidato da extrema direita.
Lula, o senador Humberto Costa (PT-PE) e o governador reeleito Jerônimo Rodrigues (PT-BA). Foto: Ricardo Stuckert
O silêncio que é confissão
A recusa do sigilo tem história. Flávio responde, há anos, ao escândalo da rachadinha — o desvio de salários de funcionários do seu gabinete de deputado federal, caso que envolveu familiares do então parlamentar e que culminou na inelegibilidade de assessores. Abrir os sigilos agora seria cruzar a ponte que ele mesma construiu para não atravessar.
Lula também lembrou o Bolsa Família:
O Bolsa Família é o programa de inclusão social e combate à fome mais bem-sucedido no combate à pobreza no mundo. […] Mas, lamentavelmente, nosso adversário já está ameaçando acabar com o Bolsa Família”.
O presidente referiu-se à proposta de Flávio de criar um prazo de dois anos para a saída do benefício — o programa que o próprio senador já chamou de “bolsa-farelo”.
O mapa da ponte
O cenário da caminhada não é acaso. Em Petrolina, Lula venceu o primeiro turno com 60,18% dos votos válidos; em Juazeiro, com 63,30%. Mas o Nordeste registrou perda de votos em relação a 2022 — e o presidente pediu à militância que amplie a vantagem: procure os indecisos, converse com quem deixou de votar no primeiro turno e incentive a participação dos eleitores com mais de 70 anos, para os quais o voto é facultativo.
Milhares na ponte, dois processos no Supremo e um desafio sem resposta. Flávio pode evitar a quebra de sigilo que autorizou ao Lula. O eleitor do Nordeste, essa, não tem sigilo a proteger — tem a fome na ponta da língua e o voto na ponta do lápis.

