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Marcha para Jesus Flávio
Tarcísio, que disse que Flávio Bolsonaro tem "muito a explicar", entoando louvores em trio com o prefeito paulistano Ricardo Nunes, que repassou milhões ao grupo produtor do famigerado "Dark Horse". Foto: Reprodução Youtube
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Cúpula do caso Master busca perdão divino em SP

Entre orações e R$ 134 mi, extrema direita encena piedade

A Marcha para Jesus em São Paulo, realizada nesta quinta-feira (4), serviu como o cenário perfeito para um exercício coletivo de contrição — ou de blindagem jurídica, a depender de quem olha. No mesmo trio elétrico, espremidos entre um louvor e outro, estavam o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente golpista condenado e pré-candidato neofascista à Presidência, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o prefeito Ricardo Nunes (MDB) e, para fechar o pacote com chave de ouro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do escabroso caso Master.

O encontro de “almas puras” ocorre no auge do escândalo BolsoMaster, onde áudios revelaram que o senador Flávio Bolsonaro mantinha uma relação de “irmandade” financeira com o banqueiro Daniel Vorcaro. Enquanto o povo orava no asfalto, no trio a preocupação era outra: como explicar os R$ 134 milhões pedidos para financiar o filme Dark Horse, a cinebiografia que tenta transformar Jair Bolsonaro em herói com dinheiro sujo do banco corrupto. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”, implorou Flávio a Vorcaro, em uma mensagem que soa mais como senha de balcão de negócios do que como fraternidade cristã.

O ministro, o réu e a “luz” do banqueiro

A presença de André Mendonça no evento é o que os especialistas em ética chamariam de “conflito de interesses”, mas que em Brasília chamamos apenas de quinta-feira. Como relator das investigações que envolvem o Banco Master no STF, Mendonça dividiu o microfone com os mesmos personagens que aparecem nas planilhas e áudios de Vorcaro. É a justiça brasileira em seu estado mais puro: orando junto com quem deveria estar julgando.

Tarcísio de Freitas, mestre na arte de morder e assopra, tentou se descolar do “Zero Um” ao afirmar que sua Polícia Civil tem autonomia. Mas o gesto foi apenas para a plateia, já que o governador passou o evento cantando louvores ao lado de Ricardo Nunes, que classificou as investigações sobre o filme de Bolsonaro como “perseguição política”. Para essa turma, qualquer tentativa de aplicar a lei é pecado, desde que o réu seja da família ou do partido.

O desespero evangélico e o filme da discórdia

O evento em São Paulo foi a tábua de salvação para Flávio Bolsonaro, que viu seu apoio derreter entre os evangélicos após a revelação de que Vorcaro tentou fugir do país um dia após o senador pedir a tal “luz” financeira. Ausente na marcha do Rio de Janeiro por medo de vaias, Flávio usou o asfalto paulista para tentar reconstruir pontes com o eleitorado que ainda acredita que “Dark Horse” é arte, e não lavanderia de dinheiro.

Enquanto o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o governador Ronaldo Caiado (PSD) circulavam em busca de cliques, o clima era de “salve-se quem puder”. A Marcha para Jesus de 2026 entra para a história não pela fé, mas pela audácia de reunir, em poucos metros quadrados, o relator, o investigado e os beneficiários de um esquema que agride a sociedade e o Erário. Se a oração de Flávio for atendida, a “luz” que ele pediu a Vorcaro continuará apagada para a Polícia Federal.

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