Há gestos que nascem de uma campanha e morrem com ela, e há gestos que escapam do calendário eleitoral e passam a pertencer a outra coisa. O “L”, “faz o L”, “fazer o L”, feito com os dedos nasceu como senha de palanque, virou marca de uma candidatura e, na semana que se seguiu à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro, atravessou fronteiras para se transformar em uma das raras linguagens universais que a esquerda mundial conseguiu produzir. O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, contou em entrevista coletiva que voltava para casa no dia da eleição e viu um grupo de nova-iorquinos gritando o nome de Lula pelas ruas em celebração ao resultado. Nos Estados Unidos, o noticiário progressista passou a tratar o pleito brasileiro como um novo “Sí, se puede”, exemplo a ser seguido na luta contra o trumpismo. Na Espanha, Pedro Sánchez e Ada Colau fizeram o símbolo em comícios, associando-o à resistência contra a direita. No México, Claudia Sheinbaum celebrou o resultado classificando a vitória brasileira como demonstração de esperança para a América Latina. Na França, apoiadores de Jean-Luc Mélenchon criaram canais digitais inspirados na experiência brasileira para as eleições de 2027, adaptando o gesto para formar a letra “M”. E um dos vídeos mais compartilhados da semana mostra crianças palestinas correndo em meio às ruínas de Gaza com a bandeira do Brasil nas mãos, gritando o nome de Lula.
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A mão que virou passe
É preciso medir o que isso significa, porque a esquerda mundial anda carente de símbolos que não sejam defensivos. Durante anos, nosso repertório de gestos foi reativo: o punho erguido contra o golpe, o lenço branco, a vela na praça, o cartaz de “Fora”. Bonito, digno, e insuficiente, porque símbolo defensivo comunica resistência a quem já está convencido. O “L” tem outra natureza. Ele é gesto de vitória, de afirmação, de pertencimento, e sua mecânica é genial por uma razão que qualquer marqueteiro de rua entende: é executável com uma mão só, não exige material, não depende de alfabetização política, e cabe em foto de qualquer ângulo. Uma criança palestina nas ruínas de Gaza pode fazê-lo. Um nova-iorquino no metrô pode fazê-lo. Um operário na porta da fábrica, um estudante em Madri, um militante em Buenos Aires, todos podem fazer a mesma letra com os mesmos dedos, e é isso que transforma uma senha nacional em código transnacional. O gesto de Lula deixou de ser sobre Lula no instante em que passou a ser executado por quem nunca votará nele, mas sempre lutará contra o fascismo e sua violência.
E há uma ironia histórica que merece ser registrada com a solenidade que ela exige. A extrema direita passou uma década tentando internacionalizar o bolsonarismo, exportando mentor, método e adjacências, do gabinete de Steve Bannon à claque de Miami, da clonagem de Olavo de Carvalho aos congressos de CPAC, com resultados que envergonham até os padrinhos. O que se internacionalizou de fato, e com uma velocidade que nenhuma assessoria comprou, foi uma letra feita com o dedo indicador e o polegar. O produto de exportação político mais eficiente do Brasil pós-2022 não é uma doutrina, é um símbolo gráfico, e ele saiu da campanha que o fascismo tentou destruir por todos os meios, inclusive os ilegais.
O dia em que a marca venceu
Recoloque o leitor na cena, porque a cena é a chave. O editorial da Frente Livre, publicado em 16 de agosto, registrou o contraste material que a campanha produziu e que nenhuma pesquisa capturou melhor do que as imagens: de um lado, o lançamento da principal campanha fascista do país, esvaziado, com a bandeira dos Estados Unidos triunfando sobre a bandeira nacional; do outro, a Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, o estádio onde Lula liderou, em 1979, as greves dos metalúrgicos do ABC que desafiaram a ditadura, tomado pela bandeira brasileira e por nenhuma outra. Lula abriu ali sua sétima campanha presidencial e disse:
“Enquanto for vivo, não vou parar de lutar e nem deixar que a direita volte a governar o país”.
Lembrou que a direita “é responsável pela morte de 400 mil pessoas na Covid por irresponsabilidade com a vacina”. Defendeu a soberania nacional, os minerais estratégicos, o Pix, a indústria nacional, propôs criar o Ministério da Segurança Pública, e falou às mulheres com a frase que deveria estar gravada em cada palanque deste país: “Não abaixem a cabeça nunca, porque nós homens precisamos aprender a respeitar vocês”.
Repare no que estava em disputa naquelas duas imagens simultâneas. Não era programa econômico nem proposta de governo, era bandeira, literalmente. A campanha que ergueu a bandeira de outro país durante o hino nacional perdeu para a campanha que encheu um estádio de trabalhadores com a bandeira brasileira no peito, e essa derrota simbólica antecedeu em dois meses a derrota aritmética. O “L” que hoje se faz em Nova York, Madri, na Cidade do México e nas ruínas de Gaza é a sobrevivência dessa vitória de imagem, a prova de que o símbolo foi mais longe do que a urna.
A crítica está dentro do abraço
A Frente Livre apoia Lula por devoção a uma luta, e este jornal não existe para aplaudir governante. Nosso editorial de 16 de agosto foi explícito: é apoio crítico, comprometido com a verdade e a justiça social, porque a escolha em 2026 era entre um Brasil soberano, que investe em seu povo, e um Brasil entregue, que serve ao capital estrangeiro; entre a Vila Euclides e Copacabana; entre a verdade e a mentira; entre a democracia e o fascismo. Apoiamos porque a alternativa era o neofascismo, não porque o governo seja imune a reparos. E é justamente por isso que o sucesso internacional do “L” precisa ser lido com sobriedade, não com ufanismo. Símbolo não governa, não distribui renda, não reduz a fila do SUS, não resolve a insegurança nas periferias. Se o gesto se tornar substituto da política, teremos trocado uma bandeira por um emoji e chamado isso de internacionalismo.
A esquerda tem um longo histórico de enamorar-se dos próprios símbolos e esquecer o material que eles deveriam representar. A Internacional foi cantada em cem línguas enquanto os partidos que a cantavam fechavam os olhos a crimes contra a classe que diziam representar. O “L” corre risco menor, mas não está imune: existe o perigo real de que a adoção internacional do gesto sirva de anestésico, de que lideranças estrangeiras façam a letra em comício e considerem sua parte cumprida em relação ao Brasil, quando o que o país precisa delas é outra coisa, é pressão sobre a extrema direita, é recusa ao trumpismo, é solidariedade concreta nas disputas comerciais e nas tentativas de desestabilização que este ano chegaram a Washington. Faça o L, mas não faça só o L. Um gesto de mão não substitui uma política de Estado, e a distância entre o entusiasmo do símbolo e a eficácia da ação é exatamente onde a direita volta a crescer.
O que o mundo viu
Se o “L” se tornou universal, é porque o mundo viu, em tempo real, o que estava em jogo. Viu um presidente americano chamar de fraudada a eleição brasileira sem apresentar uma única prova, um dia depois de o candidato derrotado se recusar a reconhecer o resultado, enquanto a militância do partido perdedor invadia o perfil desse mesmo presidente estrangeiro pedindo golpe militar, em comentários a um post sobre overdose de drogas. Viu o próprio partido do candidato derrotado entrar em pânico e pressioná-lo a reconhecer a derrota, porque 4,4 milhões de votos de diferença esvaziam qualquer tentativa de anulação. Diante desse espetáculo, o “L” não foi apenas entusiasmo por um candidato: foi a escolha de um lado. Quem ergue os dedos formando a letra está, no gesto, dizendo que não aceita a tese da fraude, que não reconhece a tutela de Washington sobre o voto alheio e que a soberania de um país da periferia não é assunto de conveniência, que o ser humano importa e que a solidariedade deve prevalecer sobre o egoísmo.
E aí está a razão pela qual o gesto pegou em Gaza, onde a bandeira do Brasil apareceu em meio aos escombros. Não é que as crianças palestinas tenham opinião formada sobre a política de valorização do salário mínimo ou sobre a reforma do Imposto de Renda. É que elas reconheceram, naquele símbolo, a gramática de quem resiste a um poder que se considera dono do mundo, e essa gramática é universal porque a experiência é universal. Uma letra feita com dois dedos atravessou o Atlântico e chegou às ruínas de um território bombardeado porque o mundo que se acostumou a ver a extrema direita internacionalizada encontrou, finalmente, uma contra-senha à altura da sua.
A herança que fica
Símbolos, ensina a história, sobrevivem aos homens que os criam. A touca frígia não era de ninguém em particular e hoje identifica a República. O punho erguido de Munique, em 1968, pertenceu a dois atletas e hoje pertence a todos os que resistem. A rosa no punho, a vela, o pano branco, todos eles existiram antes e depois de seus autores circunstanciais. O “L” tem essa vocação e essa condenação. Se um dia Lula sair de cena, o gesto continuará sendo feito por quem aprendeu nele a forma mais poderosa de dizer que está de um lado, e nesse dia o nome do presidente será apenas a etimologia da letra, não a razão do gesto.
Mas há uma condição, e ela não admite meia-tinta. Um símbolo só se sustenta se o que ele representa se sustenta. Se o Brasil que o “L” carrega pelo mundo continuar reduzindo desigualdade, ampliando universidade, defendendo soberania e enfrentando o fascismo, o gesto será merecido. Se o símbolo for chamado a cobrir o que a política não entregar, ele apodrece em dois anos e vira piada de internet, como apodreceram tantas bandeiras erguidas em praças e esquecidas em gavetas. A tarefa da esquerda brasileira, agora que o mundo aprendeu a fazer o L, não é ensinar o gesto a mais países. É fazer o Brasil merecer a mão erguida que o representa. E essa conta, ao contrário da cotação internacional de um gesto, não se resolve com dois dedos.
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