A política brasileira, muitas vezes, nos presenteia com espetáculos de cinismo que beiram o absurdo. Contudo, poucas vezes a incoerência se mostrou tão gritante e descarada quanto nas recentes manobras orquestradas pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Diante de uma plateia atônita, o chefe do Legislativo federal demonstrou com clareza cristalina a quem, de fato, serve e quais são suas reais prioridades: certamente não são os direitos coletivos do povo brasileiro.
Lembremos. Há poucas semanas, o cenário era de tensão e debate sobre o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), uma medida crucial do governo Lula para equilibrar as contas públicas e garantir a continuidade de políticas sociais. O tributo foi elevado em operações típicas de cidadãos muito ricos, como a remessa de dinheiro ao exterior ou compras internacionais.
Naquele momento, em uma entrevista com ares de grande estadista preocupado com o contribuinte, Hugo Motta empunhava a bandeira da austeridade fiscal. Suas palavras eram diretas e contundentes: a sociedade brasileira não suportava mais o peso dos impostos, e o governo, sim, deveria cortar gastos. Sob essa retórica populista e aparentemente responsável, o presidente da Câmara articulou com sucesso a aprovação de um decreto legislativo que derrubava o aumento do IOF, posando como o defensor do bolso do cidadão.
O enredo, porém, tomou um rumo previsível para quem conhece as entranhas do poder. O Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão fundamentada e necessária, declarou a ilegalidade do decreto legislativo do Congresso. Isso significa que o aumento do IOF, tão combatido por Motta em nome da “sociedade”, voltou a valer, garantindo ao governo a receita esperada para cumprir o arcabouço fiscal, com dinheiro da parcela mais rica da sociedade. Uma vitória para a responsabilidade fiscal genuína, e uma derrota para a manobra política.
Mas o que fez Hugo Motta, o paladino dos cortes de gastos, após essa derrota judicial? Em vez de abraçar a nova realidade e focar na contribuição para a estabilidade do país, ele orquestrou uma das mais chocantes “pautas-bomba” da história recente. Na calada da noite, em uma sessão turbulenta e com ares de “tudo por um acordo”, a Câmara aprovou um projeto que cria uma despesa bilionária: R$ 30 bilhões em créditos subsidiados para o agronegócio. Pasmem! O mesmo líder que cobrava corte de despesas de dia, aprovava a criação de novas e colossais despesas à noite, usando recursos do nosso precioso Fundo Social – dinheiro arrecadado com a venda de petróleo do pré-sal, que deveria financiar educação, saúde e infraestrutura.
A contradição é acintosa. O discurso de “cortar gastos” e “não aumentar impostos” de Hugo Motta se esfarela diante da realidade dos fatos. Não se trata de uma incoerência ocasional, mas de uma estratégia política deliberada. O que se revela é o papel de “cãozinho de guarda dos super-ricos”, daqueles que andam chateados com um governo que, enfim, ousa lhes fazer pagar mais impostos e contribuir para a construção de um país mais igualitário. A pauta do agronegócio, com seus bilhões em subsídios, é a moeda de troca, a retaliação velada e o prêmio de consolação para os setores que se recusam a compartilhar o ônus da reconstrução nacional.
Hugo Motta, ao jogar com o orçamento público como se fosse um fundo de interesses privados, revela a faceta mais perversa da política fisiológica. Ele demonstra que o “corte de gastos” é exigido apenas de um lado – o das políticas sociais e dos serviços públicos que beneficiam a maioria -, enquanto a “generosidade” com o dinheiro do contribuinte é farta quando se trata de beneficiar seus aliados e os setores mais abastados.
É tempo de denunciar essa hipocrisia. A sociedade não suporta mais a dupla moral de parlamentares que posam de guardiões das finanças públicas de dia e se tornam arquitetos de rombos bilionários à noite. O custo dessa chantagem é pago pelo povo brasileiro, que vê seus recursos desviados de áreas essenciais para alimentar privilégios e manter um sistema de desigualdade. Hugo Motta, o presidente da Câmara, deve uma explicação ao país.






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