Em junho de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato fascista à Presidência da República, sentou-se diante das câmeras do SBT News para uma entrevista ao vivo no programa Central de Notícias. Os jornalistas Amanda Klein, Nathalia Fruet e Eduardo Gayer começaram a perguntar sobre o super corrupto Daniel Vorcaro, o banqueiro do Banco Master que está no centro do inquérito Dark Horse — os R$ 61 milhões de origem obscura repassados para o suposto financiamento de uma cinebiografia de Jair Bolsonaro. O assessor do senador, Fábio Portela, passou a reclamar. A pressão chegou ao diretor nacional de jornalismo do SBT, Leandro Cipoloni, que apoiou o encerramento. A entrevista durou 21 minutos. O nome Vorcaro não voltou à pauta. A conversa não foi reaproveitada, não recebeu chamadas na programação e não teve cortes publicados nas redes sociais da emissora. Sumiu.
Um candidato à Presidência da República vai a uma emissora de televisão, é questionado sobre o caso mais explosivo de sua campanha, e a emissora corta a pergunta, encerra a entrevista e apaga os rastros. Isso não é jornalismo. É serviço de relações públicas prestado por uma rede de TV a um candidato.
A porta giratória
A matéria da revista piauí, reproduzida pelo DCM, revela um detalhe que não é detalhe: Fábio Faria, ex-ministro de Comunicações de Bolsonaro, teve papel importante na criação do canal SBT News e na busca por patrocinadores. O mesmo homem que comandou as telecomunicações no governo bolsonarista agora aparece ligado à estrutura do SBT News, à captação de recursos e, por tabela, ao ambiente onde uma entrevista que incomodava Flávio foi engavetada.
A porta giratória entre o bolsonarismo e a mídia brasileira não é metáfora — é política pública. Fábio Faria saiu do governo para o SBT. O SBT serviu ao governo. E agora serve ao candidato. Quando o jornalista pergunta, o assessor reclama. Quando o assessor reclama, o diretor cede. Quando o diretor cede, a entrevista desaparece. E o candidato segue livre — não porque é inocente, mas porque sua culpa em vez de exposta é escondida.
O silêncio que protege
O episódio do SBT não é um caso isolado de uma emissora que cedeu à pressão. É parte de um sistema de abafamento que envolve a grande imprensa brasileira inteira.
A folha corrida de Flávio Bolsonaro não é um escândalo. É um dossiê. Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, está preso há 143 dias. Flávio está solto, candidato à presidência. Há uma foto de Flávio ao lado do capanga de Vorcaro — conhecido como Sicário. Há um áudio em que Flávio chama Vorcaro de “irmão”. Há notas fiscais de R$ 1,5 milhão emitidas pelo escritório de advocacia de Flávio para empresas ligadas ao esquema do Banco Master. Há R$ 61 milhões repassados por Vorcaro para o suposto financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Há um pedido da Polícia Federal para incluir Flávio na lista prateada da Interpol. Há um inquérito aberto no STF pelo ministro André Mendonça — que, doze dias depois, ainda não pediu uma única medida cautelar.
E tem uma entrevista que desapareceu da grade de programação do SBT porque os jornalistas ousaram questioná-lo sobre tudo isso.
A entrevista foi engavetada em junho. O inquérito Dark Horse foi aberto em julho. A PF pediu a inclusão de Flávio na Interpol em julho. O tempo passa. As provas se acumulam. A imprensa corporativa silencia.
A revista piauí fez o trabalho. O DCM reproduziu. O ICL Notícias vem cavando. Mas onde estão as manchetes da Folha, do Estadão, da Globo? Onde está o Jornal Nacional? Um candidato à presidência com inquérito no STF, pedido na Interpol e entrevista engavetada pelo SBT deveria estar na primeira página de todos os jornais do país. Não está. E a ausência também é notícia.
O jornalismo que cala
O que aconteceu no SBT News é a prova de que a grande imprensa brasileira não cobre o bolsonarismo — o protege. Não por convicção ideológica, embora exista. Por cálculo. Flávio Bolsonaro pode ser presidente. Os diretores de jornalismo das emissoras sabem disso. E quem engaveta entrevista hoje pode ser recompensado amanhã — com acesso, com exclusiva, com a benevolência do novo inquilino do Planalto.
A democracia não morre só com golpes militares. Morre também com entrevistas que desaparecem, com perguntas que não são feitas, com jornalistas que cedem à pressão de assessores e diretores que preferem o silêncio ao escândalo. O SBT engavetou uma entrevista. A Folha não deu manchete. A Globo não cobriu. E Flávio Bolsonaro segue livre — não porque não haja perguntas, mas porque a grande mídia brasileira prefere ver um fascista no Planalto do que mais quatro anos de um governo progressista, que faz os ricos pagarem imposto e bota dinheiro no bolso dos pobres.
A entrevista que o SBT apagou é a prova de que a censura no Brasil não vem só do Estado. Vem também de quem deveria vigiá-lo.





Deixe seu comentário