A servidora comissionada Fabiana Ribeiro Guimarães, diretora de Tecnologia e Inovação do Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal (SLU), foi forçada a pedir exoneração nesta quinta-feira (29) após a repercussão de publicações xenófobas contra nordestinos, apoiadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e beneficiários do Bolsa Família. Ela recebia cerca de R$ 15 mil por mês dos cofres públicos — o mesmo dinheiro que, segundo as próprias postagens, ela considerava indigno de quem ganha R$ 5 mil.
Em nota nas redes sociais, o SLU comunicou o desligamento e afirmou que “as declarações mencionadas não refletem os valores e o posicionamento institucional da autarquia nem os do Governo do Distrito Federal”. Antes disso, a autarquia já havia dito que “as manifestações divulgadas em redes sociais são de caráter pessoal, de responsabilidade exclusiva de sua autora” e que “os fatos serão avaliados pelas instâncias competentes, observadas as normas aplicáveis e as garantias legais pertinentes”.
Na manhã desta quinta, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) encaminhou à Promotoria de Justiça, em caráter de urgência, a análise das publicações. O pedido corre paralelamente a uma apuração interna aberta pela própria autarquia — ou seja: corria o risco de duas frentes, então ela correu antes.
A frase que vale como retrato
Fabiana encerrou a sequência de ataques com a autodefinição que ninguém precisou escrever por ela:
Serei sempre a patricinha empresária e trabalhadora que será contra o PT. Vocês não me representam! Estou pronta para perder seguidores, porque, graças a Deus, não trabalho com isso.”
Leia com calma. Uma diretora de autarquia pública — cargo comissionado, dinheiro do contribuinte, poder de compra institucional — declara que “não trabalha com isso”, como se o salário de R$ 15 mil caísse do céu, e trata o serviço público como adereço de perfil. A “patricinha” que zoava o Bolsa Família era paga, em parte, pelos beneficiários do Bolsa Família. Essa é a conta que ela não fez.
E o mais obsceno da sequência não é o deboche ao benefício, nem o desprezo pelos nordestinos, nem o desejo de que eleitores do PT “sofram”. É a certeza de impunidade: a confiança de que podia humilhar em público, com nome, cargo e holerite, porque sempre houve uma estrutura tratando isso como opinião — e não como abuso de função e discriminação.
O assédio que virou rotina
O caso não é bolha. Ele acontece em meio a uma onda de demissões motivadas por posicionamento político de funcionários que apoiaram a reeleição do presidente Lula. No Distrito Federal, uma rede de apoio reúne advogados e psicólogos que oferecem orientação jurídica a quem sofre esse tipo de retaliação.
Os números do Ministério Público do Trabalho (MPT), divulgados na terça-feira (27), somam 2.364 denúncias de assédio eleitoral em todo o país, das quais 92 no Distrito Federal. Atualmente, 15 casos de incentivo à demissão por escolha política são apurados na capital federal. A Constituição Federal garante que ninguém pode ser privado de direitos por motivo de convicção política, e a Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias no acesso e na permanência no trabalho.
A “patricinha” caiu por conta própria, antes que a norma a alcançasse. Isso não é justiça: é fuga. O que o MPDFT e a apuração interna do SLU precisam responder agora é se houve discriminação no exercício de função pública — porque humilhar nordestino e beneficiário de programa social, num cargo que existe para servir a população, não é liberdade de expressão. É desvio de finalidade com holerite assinado pelo povo.
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