Trump promete US$ 5 mil por voto em desespero eleitoral

Aprovação de Trump está abaixo de 35%, a menor da história

Trump compra de voto
Promessa de pagar pelos votos para derrotar os Democratas é ilegal até mesmo no ultraliberal Estados Unidos. Foto: Casa Branca

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu nesta quarta-feira (9) pagar US$ 5 mil a cada cidadão adulto do país caso os republicanos mantenham o controle da Câmara dos Representantes e do Senado nas eleições de 3 de novembro. O anúncio foi feito na convenção nacional do Partido Republicano em Dallas, no Texas — a primeira convenção de meio de mandato da história do partido. “Se os republicanos vencerem, vocês vencem conosco e recebem US$ 5 mil. Vai se chamar Trump Dividend”, disse.

Isso não é proposta econômica. É compra de voto anunciada em palanque, com dinheiro do contribuinte americano. A legislação dos Estados Unidos proíbe o uso de recursos públicos para influenciar uma votação. A Constituição reserva ao Congresso — não ao presidente — o poder de gastar. Trump não apresentou fonte de financiamento, não definiu quem teria direito ao benefício, não disse quando os pagamentos começariam. Prometeu um cheque que não pode emitir, para uma eleição que está perdendo.

O contexto é de desespero eleitoral. A aprovação de Trump está abaixo de 35% — o menor nível já registrado. As pesquisas apontam que os democratas devem conquistar a maioria na Câmara e possivelmente o Senado, o que limitaria drasticamente a margem de manobra do amalucado presidente nos dois anos finais do mandato. Diante disso, Trump apelou: “Peço que façam de conta que estou no boletim de voto.” E avisou que, se os democratas vencerem, “o país descerá ao inferno”.

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Os números da promessa são absurdos. Com cerca de 270 milhões de cidadãos adultos, o custo estimado gira entre US$ 1,2 trilhão e US$ 1,35 trilhão — até R$ 6,6 trilhões — num país com dívida bruta superior a US$ 40 trilhões. A única condição que Trump impôs foi que o dinheiro fosse gasto dentro dos Estados Unidos. A reação foi imediata: o porta-voz do Comitê Nacional Democrata, Kendall Witmer, chamou de “promessa vazia”; o governador da Califórnia, Gavin Newsom, afirmou que Trump quer “comprar o voto com dinheiro do contribuinte”.

E aqui está a questão de fundo, que interessa diretamente ao leitor brasileiro. O trumpismo e o bolsonarismo são o mesmo projeto com sotaques diferentes. Em Campestre do Maranhão, o prefeito Fernando Bermuda mandou recado no WhatsApp: “Quem votar em Lula após a eleição tá na rua.” Em Dallas, Trump subiu ao palco e ofereceu US$ 5 mil por voto. Um ameaça quem não vota no candidato dele. O outro paga quem vota. Os dois tratam o voto do trabalhador como mercadoria — e o trabalhador como propriedade.

Há uma diferença que precisa ser martelada. O governo Lula entrega direitos: salário mínimo projetado em R$ 1.741 para 2027, fim da escala 6×1, jornada de 40 horas com dois dias de descanso, mais de 10 milhões de empregos formais, inflação dos alimentos desacelerando de 13,2% para 3% ao ano. Trump promete dinheiro. Que não existe, de um fundo que não foi criado, por um presidente que não tem competência constitucional para criá-lo. Um lado constrói política pública. O outro improvisa leilão.

A contradição central

Trump prometeu US$ 5 mil a cada adulto americano se o partido dele vencer — sem dizer de onde sai o dinheiro, sem lei que autorize, num país com US$ 40 trilhões de dívida. A aprovação dele está abaixo de 35%, a menor da história. Quando a urna não favorece, a extrema direita não muda de ideia: tenta comprar o resultado. No Brasil, ameaçou demitir. Nos EUA, promete pagar. É o mesmo desprezo pela soberania do voto.

Compartilhe isso. Mande para quem acha que “compra de voto” é coisa de país subdesenvolvido. Acontece em Dallas, no palco do Partido Republicano, com a assinatura do presidente dos Estados Unidos. A diferença entre ameaçar e pagar é de método — o desprezo pelo voto é o mesmo.

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